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Correio da Manhã

Portugal
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Tiro de desespero

Edgar Leite, o homem de 72 anos que segunda-feira à tarde tentou matar a tiro de revólver o médico espanhol José Garcia, em pleno Tribunal de Portimão, foi ontem colocado em prisão domiciliária.
16 de Março de 2005 às 00:00
O idoso nunca se conformou com a morte da mulher, Cassilda Leite, e atribui as culpas ao médico José Garcia e a uma médica do INEM, Luísa Rodrigues.
Cassilda Leite morreu aos 76 anos, na madrugada de 16 para 17 de Março de 2002, no Hospital do Barlavento Algarvio, em Portimão. José Garcia estava de serviço nas urgências do hospital. Segundo o Correio da Manhã apurou, Cassilda sentiu-se mal na noite de 16 de Março de 2002. Tinha sofrido, dez anos antes, um acidente vascular cerebral (AVC). O marido chamou o 112. A médica que o atendeu, Luísa rodrigues, terá encaminhado a doente para o Centro de Saúde de Lagoa, onde vivia. Dali, seguiu para o Hospital do Barlavento Algarvio. Aqui, Cassilda, que estaria consciente, foi assistida na urgência pelo médico José Garcia. O clínico, na altura, terá recusado falar com Edgar Leite, uma vez que a doente estava consciente. O médico pediu uma TAC – mas este serviço não estava a funcionar. A doente foi então transportada para Faro. Nessa altura, porém, já teria entrado em coma – e assim regressou ao Hospital do Barlavento, onde acabaria por morrer.
Edgar Leite pôs um processo contra o dois médicos, José Garcia e Luísa Rodrigues: acusava-os de homicídio por negligência. Anteontem, quando foi ao Tribunal conhecer o resultado do debate instrutório, atingiu o médico com dois tiros. O CM soube que o agressor “não dormiu” nas noites anteriores e que, desde a sua detenção pela GNR, já admitiu ter sido o seu acto “reprovável” e “desesperado”.
SEGURANÇA REFORÇADA
A segurança no Tribunal de Portimão foi reforçada, a partir de ontem, em consequência do tiroteio ali ocorrido contra o médico José Garcia. Há mais agentes da PSP e foram colocados e detectores de metais junto aos dois juízos criminais e à entrada do edifício. Carla Silva e Cunha, responsável da delegação local da Ordem dos Advogados, diz que essa é “uma medida necessária”: “Estive no Tribunal e solicitei logo uma audiência com a juiz-presidente a fim de solicitar o reforço, que agora é provisório mas queremos seja permanente, o que terá de passar por uma decisão do Ministério da Justiça.O Tribunal de Portimão já teve policiamento permanente, mas a falta de verbas fez com que fosse retirado, passando a PSP a vir apenas pontualmente”. Também Novais Pacheco, defensor da médica processada por Edgar Leite, que estava no 4.º piso do Tribunal na altura do tiroteio, é favorável à “presença permanente e dissuasora” da PSP no Tribunal. “Mas o que aconteceu anteontem era totalmente imprevisível”, disse o advogado.
' A PRIMEIRA BALA NEM SEI ONDE ME ACERTOU'
O médico José Garcia fez ontem uma descrição à TVI dos momentos de pânico que viveu em pleno tribunal, onde foi baleado na véspera: “Primeiro, estranhei quando o senhor se levantou do banco e veio sentar-se ao pé de mim; depois, apercebi-me de algo e ouvi um grito de alguém. A primeira bala nem sei onde me acertou. Levantei-me e comecei a correr pelas escadas abaixo. Entrei na casa de banho e o senhor entrou atrás, com um pontapé na porta. Foi então que disparou a segunda bala, que ficou alojada no ombro”.
Quando Edgar Leite, de 72 anos, disparou três tiros de revólver (dois atingiram o alvo) contra o médico José Garcia, no Tribunal de Portimão, pelas 14h20 de anteontem, aguardava-se a conclusão do debate instrutório do processo que o idoso instaurara contra o clínico espanhol e uma outra médica, Luísa Rodrigues, acusando-os de negligência. Segundo fontes judiciais contactadas pelo CM, a decisão do juiz de instrução seria a de não acompanhar a queixa e determinar o arquivamento do processo, confirmando assim a posição entretanto tomada pelo procurador do Ministério Público.
O idoso, inconformado, terá tentado fazer justiça por suas mãos – a tiro. O médico, que ficou ferido num ombro, teve ontem alta e vai agora fazer fisioterapia a fim de recuperar os movimentos. Além disso, vai receber apoio psicológico.
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