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Correio da Manhã

Portugal
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Trabalhadores escravos

Eram tratados como animais, trabalhavam de sol a sol, passavam fome e não recebiam um tostão. Em suma, estavam em cativeiro. Foi nestas condições que três homens viveram durante meio ano, sob as ordens de um casal cigano que hoje começa a ser julgado no Tribunal da Covilhã, acusado de sete crimes de escravidão e outros tantos de maus tratos e sequestro.
16 de Dezembro de 2004 às 00:00
M. Soares, à direita, foi um dos homens que viveu como escarvo
M. Soares, à direita, foi um dos homens que viveu como escarvo FOTO: Luís Oliveira
Marco Soares, de 29 anos, Manuel Ferreira, de 42, e Miguel Lopes, de 51, foram contratados por Francisco Botelho (arguido), em Julho de 2003, para trabalhar na agricultura em Espanha, a troco de 350 euros por mês, mais comida, dormida e cigarros.
Trabalharam na apanha de alho, cebola e uva, muitas vezes 16 horas por dia. Além de não terem recebido um tostão do ordenado prometido, os três homens viveram em condições sub-humanas.
Privados de liberdade, foram agredidos e ameaçados de morte caso tentassem fugir. Os trabalhadores ainda viram retidos os seus documentos identificativos.
Regressados a Portugal, no inicio de Outubro de 2003, os três trabalhadores, dois naturais de Ovar e outro de Manteigas, foram obrigados a ficar às ordens do casal de ciganos, em Trigais, no concelho de Belmonte, a trabalhar numa obra de construção civil e sem receberem qualquer salário.
Em Trigais, as vítimas continuaram sem qualquer liberdade e cada vez que pretendiam algo – telefonar, tomar café ou mesmo passear – eram agredidos e ameaçados de morte por Francisco Botelho, um filho deste e por Irene de Jesus, a outra arguida.
De acordo com a Acusação, os três homens pernoitavam num curral com dois cavalos, uma égua, um vitelo e três cães.
Não tinham cama, água, luz e casa de banho, pelo que na altura em que foram descobertos e retirados do cativeiro pela PJ da Guarda – 23 de Dezembro do ano passado – disseram que já não tomavam banho há dois meses. No processo constam acusações de outras quatro alegadas vítimas.
"FUI EXPLORADO E AMEAÇADO"
Marco Soares, de 29 anos, foi um dos homens que viveu durante meio ano em cativeiro. Foi o pai que pediu a Francisco Botelho para lhe arranjar trabalho no país vizinho. Marco afirmou que em Espanha estava instalado “num acampamento cigano sem condições”, enquanto que em Trigais dormiu “num curral, junto de cães, vacas, feno e mato”.
Segundo o jovem, além de passarem fome, os ‘empregados’ do cigano chegavam a trabalhar 16 horas por dia. “Trabalhei muito, fui explorado e ameaçado”.
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