Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
8

Traga a minha conta e um polícia também

Dois conhaques a seguir ao café fecharam a refeição de lagosta e gambas grelhadas. A mesa, farta, era das últimas no Escorial, restaurante com quase quatro décadas na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. O italiano, de bom trato e bom garfo, faz sinal à empregada: “Traga a minha conta e chame a Polícia. Não tenho dinheiro.” O patrão não acreditou, mas a verdade é que tinha acabado de levar um calote de 330 euros, dado por um homem que apenas queria “vingar-se da sociedade e ser preso”.
5 de Junho de 2005 às 00:00
Francisco Montero serviu do bom e do melhor ao italiano sentado na esplanada. Mal sabia que era fiado
Francisco Montero serviu do bom e do melhor ao italiano sentado na esplanada. Mal sabia que era fiado FOTO: Sofia Costa
A vingança, já se sabe, serve-se fria e, na segunda-feira à noite, começou com um queijo de Azeitão (cinco euros) e um cesto de pão (dois euros). “Estava bem vestido, de gravata e tudo. Vinha com um português e sentaram-se na esplanada”, conta ao Correio da Manhã Francisco Montero, um dos gerentes do Escorial.
A primeira das duas garrafas de champanhe (90 euros euros a peça) chegou por essa altura. “Escolheram um bom champanhe, um Veuve Clicquot”, lamenta o empresário. Um salmão fumado (18 euros) abriu caminho a uma travessa de gambas grelhadas (10 euros).
Histórias não faltam na Rua das Portas de Santo Antão. Os turistas são às centenas, o Coliseu dos Recreios ali perto garante enchentes em noite de espectáculo e o Rossio a dois passos é sinónimo de movimento. “Mas uma coisa destas nunca tinha acontecido. Eu nem queria acreditar no que estava a acontecer”, lembra Francisco Montero.
Quando a lagosta (85 euros) chegou à mesa, a segunda garrafa de champanhe (mais 90 euros) estava a caminho. Vieram ainda dois pudins com gelado (dois euros cada) e dois cafés (mais dois euros). A fechar, saltaram do bar os conhaques (12 euros o balão). “O português foi-se embora e ele pediu a conta e um polícia”, diz Francisco Montero.
Primeiro, pensou que fosse brincadeira. Mas o homem insistiu na ideia: não tinha dinheiro e queria ir preso. “Lamento, mas não lhe posso pagar. Vim comer porque tenho o direito de comer bem. Quero vingar-me da sociedade”, disse o italiano. Francisco Montero chamou a PSP, da esquadra do Largo do Regedor, ali perto. “Fiquei a falar com ele.”
A factura de 330 euros continuava em cima da mesa, testemunha da história de vida do homem que não a podia pagar. A Polícia chega, identifica-o e pergunta ao gerente do Escorial se quer apresentar queixa. Francisco Montero hesita. “Não ia receber o dinheiro e a queixa implicava uma série de deslocações. Para desespero do homem, o caso ficou por ali”, recorda. Ou quase. Escaldado, Montero diz apenas que aplicou o ‘código 33’. “O que é, não digo. Segredo profissional.”
"POR FAVOR, PRENDAM-ME"
O italiano tem 57 anos, é de baixa estatura, usa óculos escuros e fato com gravata. De acordo com o relato que fez ao gerente do hotel, esteve quinze anos nos Estados Unidos da América, em situação ilegal. Foi apanhado, cumpriu uma pena de cinco anos de prisão e foi expulso. Voltou para Itália, rumou a Espanha, primeiro, e a Portugal, depois. Sempre à procura de emprego, sempre a ser rejeitado.
“Quero ir preso. Não tenho ninguém e na cadeia, pelo menos, tenho televisão e comida. Prendam-me por favor”, disse o italiano a Francisco Montero e à PSP.
“Quando percebeu que eu não ia apresentar queixa, ficou furioso e foi uma carga de trabalho para o impedir de entrar no carro-patrulha da Polícia”, recorda o gerente do ‘Escorial’. “Sei que não cometi um delito grave, mas quero ser preso. Não sou assaltante, nem assassino. Apenas quero trabalhar”, disse o italiano.
PORMENORES DE UMA NOITE DE CALOTE
MISTÉRIO
Chama-se António o italiano que comeu sem pagar no Escorial. O gerente do restaurante, Francisco Montero garante que nunca o tinha visto nas redondezas e que nunca mais o voltou a ver desde a noite da última segunda-feira, 30 de Maio, quando perdeu 330 euros.
INJUSTO
O italiano sentado na esplanada admite que não pode pagar a conta. “Ó homem, se não tinha dinheiro, podia ter gasto menos. Agora uma refeição destas, de marisco? Também não é justo para mim, que estou a trabalhar”, disse-lhe Francisco Montero.
VINGANÇA
A “sociedade”, argumentava o italiano, não lhe dá emprego, nem em Itália nem em Espanha, “onde era muito velho”, e o homem quer vingar-se. Escolhe um bom restaurante, gasta 330 euros em marisco e em champanhe. Depois, pede para chamar a Polícia.
Ver comentários