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Correio da Manhã

Portugal

Tratar a dor custa dois mil milhões de euros

A lombalgia – dor de costas mais comum – dores nos músculos, nos ossos, nas articulações ou no sistema nervoso, além das dores provocadas por doenças crónicas graves, como o cancro, a sida ou a diabetes têm custos socioeconómicos directos e indirectos que ultrapassam, em Portugal, os dois mil milhões de euros por ano.
15 de Junho de 2006 às 00:00
Os sintomas iniciais da dor não são devidamente valorizados pelos médicos e o agravamento da doença tem custos muito elevados
Os sintomas iniciais da dor não são devidamente valorizados pelos médicos e o agravamento da doença tem custos muito elevados FOTO: Vtor Mota
Esta verba seria reduzida se as dores que afligem dois milhões de portugueses – 20 por cento da população – fossem tratadas eficazmente, o que não acontece, acusam os médicos especialistas.
O alerta para a gravidade deste problema foi lançado pelo presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) e professor da Faculdade de Medicina do Porto, José Castro Lopes, a propósito do Dia Nacional de Luta Contra a Dor, que ontem se assinalou .
“A dor crónica é um verdadeiro problema de saúde pública porque tem graves repercussões sociais e económicas no nosso País, que são comparáveis ao cancro e às doenças cardiovasculares, só que não mata”, disse Castro Lopes ao CM.
Os custos directos a que aquele especialista se refere são os meios utilizados no tratamento da dor – medicamentos, internamentos em hospitais, consultas médicas e outras formas de terapia – que representam 20 por cento das despesas.
Porém, a maior factura – 80 por cento – é paga pelo conjunto dos contribuintes e resulta dos dias de faltas ao trabalho, do baixo rendimento laboral, das reformas antecipadas e de outras compensações sociais, referentes quer aos doentes quer aos seus familiares, por exemplo nas idas às consultas e no acompanhamento durante os tratamentos.
Castro Lopes não tem dúvidas de que a despesa com o tratamento da dor, aguda ou crónica, seria menor se fosse atalhada logo nos sintomas iniciais. E aponta o dedo aos centros de saúde: “Os médicos de família não recebem formação adequada na Faculdade e por isso dão pouca importância ao problema da dor.”
MÉDICOS DE FAMÍLIA CONTESTAM
Os médicos de família não aceitam as críticas feitas pelos especialistas, segundo os quais não têm formação adequada para tratar com eficácia a dor sentida pelos doentes. Eduardo Mendes, presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral, disse ao CM que os medicamentos têm evoluído muito, especialmente nos últimos anos.
“A qualidade das drogas utilizadas no tratamento da dor tem evoluído, especialmente nos últimos dez ou 15 anos, mas não me parece que os médicos tenham falta de formação nesta área.”
Eduardo Mendes reconhece, contudo, que “se os médicos receberem mais formação e informação, ela é sempre bem-vinda, pois é sempre possível fazer melhor” para combater a dor, que é um sinal de alarme no diagnóstico de uma doença, seja pontual ou crónica.
O QUE FALTA FAZER
DOIS MILHÕES SOFREM
Cerca de dois milhões de portugueses sofrem hoje de dor crónica. É considerada dor crónica o sintoma que persiste por mais de seis meses, altura em que o problema de saúde já devia estar curado.
PLANO NACIONAL
O Plano Nacional de Luta Contra a Dor, aprovado em 2001, pretende que, em 2007, 75 por cento dos hospitais tenham unidades de dor. Faltam 20 para somar às 53 existentes.
ESTUDO EM MARCHA
Até ao final de 2007 vão ser inquiridos 20 mil portugueses, por telefone, no âmbito de um estudo que avalia o impacto económico da dor crónica.
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