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Correio da Manhã

Portugal
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TRUTAS TÓXICAS À VENDA

Um antibiótico tóxico, cuja venda e uso são proibidos na Europa, está a ser usado nos viveiros de trutas, que são comercializadas e entram no circuito alimentar, pondo em risco a saúde dos que as consomem. É que a ingestão do peixe pode provocar aos consumidores uma forma grave de anemia que conduz à morte.
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
O problema foi detectado num estudo feito para tese de um mestrado em Saúde Pública, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, por Lúcia Santos. A investigadora analisou trutas adquiridas em quatro das mais conhecidas grandes superfícies do País e detectou, em 22,5% dos casos, a presença de resíduos de cloranfenicol, um antibiótico proibido na União Europeia para uso veterinário, há uma década, pelo menos.
Segundo Lúcia Santos, trata-se de “um antibiótico muito tóxico, praticamente afastado da terapêutica humana” e que “só pode ser comprado no mercado negro”.
PERIGO DE NORTE A SUL
Para o estudo, a investigadora comprou trutas nas peixarias de grandes supermercados de Bragança, Coimbra, Figueira da Foz, Pombal, Leiria e Sines. “Os peixes em que foi detectado o antibiótico eram de supermercados diferentes e não acredito que comprem todos no mesmo viveiro”, disse Lúcia Santos ao CM.
Na investigação, a autora não pôde apurar a origem das trutas, mas a sua convicção é de que “haverá uma utilização generalizada do produto”, que considera “muito perigoso para a saúde pública”.
Os estudos de Lúcia Santos, coordenados por um investigador da Faculdade de Farmácia, Fernando Ramos, e por um outro da Faculdade de Medicina, Fontes Ribeiro, duram há cerca de dois anos e foram já apresentados às autoridades para investigação.
PRODUTO FÁCIL DE OBTER
O antibiótico usado nos viveiros de trutas é muito eficaz para os produtores, que querem evitar os processos infecciosos generalizados na produção, o que representaria elevados prejuízos.
Lúcia Santos admite que “as pessoas sabem que é proibido, que estão a violar a lei, mas talvez não tenham informações sobre as consequências que isso tem em quem consome as trutas”.
Um dos coordenadores do estudo, Fernando Ramos, do Laboratório de Bromatologia da Faculdade de Farmácia, considera que “a questão está na facilidade com que se obtém o produto”. Segundo o investigador, “este antibiótico é antigo, tem vários problemas, mas é barato e eficaz para o efeito que os produtores pretendem”.
Para além dos efeitos mais graves que podem conduzir à morte em certos casos, o cloranfenicol, sendo antibiótico, produz consequências na resistência que as pessoas desenvolvem a este tipo de medicamento.
Os antibióticos tomados sem necessidade causam habituação do organismo que, depois, quando “efectivamente são necessários como armas terapêuticas, falham”.
A questão da existência de produtos tóxicos tem sido recorrente em Portugal. Exemplo disso é que ainda há menos de dois anos foi detectada a presença de nitrofuranos em frangos.
CONTRA INFECÇÕES
ÁGUA E RAÇÕES
Este produto, que os viveiristas usam para prevenir infecções generalizadas nos animais que criam, é lançado nos tanques das trutas, directamente na água, ou associado às rações que os peixes consomem.
A autora deste estudo confirma que há pelo menos um viveiro onde comprou as trutas para análise, directamente. Os peixes aí comprados revelaram a existência de cloranfenicol, o que exigiu a participação às autoridades. Segundo Lúcia Santos, num outro estudo, este antibiótico já tinha sido detectado em mel e mariscos provenientes da Ásia.
ANEMIA MORTAL
O cloranfenicol é um antibótico fortíssimo, de reserva para uso em infecções sanguíneas graves. Sabe-se que, em certas pessoas, provoca a falência da medula óssea e, por conseguinte, o impedimento da produção de células do sangue. Nestes casos leva à morte em quase 100 por cento das situações. Quando é administrado em humanos, os doentes são acompanhados permanentemente, mas um caso de ingestão através das trutas é quase impossível de detectar a tempo.
MERCADO NEGRO DE MEDICAMENTOS
Há em Portugal um mercado negro de medicamentos de uso veterinário que é o catalizador central de todos os problemas que têm surgido nos produtos alimentares.
Fernando Ramos, professor e investigador da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, um dos coordenadores do estudo de Lúcia Santos, diz que se vive num cenário “de impunidade” porque “os ministérios da Saúde e da Agricultura não fiscalizam”.
Os medicamentos de uso veterinário entram em Portugal clandestinamente e são facilmente adquiridos pelos produtores.
Fernando Ramos, que coordenou também uma investigação em carne de vaca que detectou o uso de um outro antibiótico – o clembuterol –, lamenta que não se ponha cobro “ao mercado negro e às redes organizadas que operam no País”.
O investigador condena também a redução de agentes da Inspecção das Actividades Económicas, que serão os mais eficazes no combate a este comércio ilegal.
“Se não há fiscais no terreno cada vez será pior”, lamenta Fernando Ramos, que espera agora uma acção rápida e eficaz das autoridades neste caso.
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