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Tudo o que se sabe sobre o caso da grávida desaparecida na Murtosa

Mónica Silva desapareceu na noite de 3 de outubro. Principal suspeito é o ex-namorado, Fernando Valente.
Correio da Manhã 5 de Dezembro de 2023 às 11:10
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PJ continua buscas por grávida desaparecida na Murtosa

Mónica Silva, de 33 anos e grávida de sete meses, desapareceu no dia 3 de outubro de 2023, na Murtosa. Saiu de casa por volta das 21h00 e disse aos filhos, de 11 e 14 anos, que ia tomar café. Foi a última vez que os familiares a viram. Duas horas depois, às 23h00, ligou ao filho mais velho a avisar que estava tudo bem e que não demoraria a regressar a casa, mas nunca mais voltou. 

A irmã gémea de Mónica, Sara Silva, explicou que o filho não suspeitou de nada e que a mãe falou normalmente durante a chamada. 

Na quinta-feira seguinte, a 5 de outubro, a família participou o desaparecimento de Mónica à GNR da Murtosa. A irmã diz que sempre acreditou ter-se tratado de um rapto. Na noite em que desapareceu, a grávida levava consigo as ecografias da gravidez.

A GNR começou as buscas na Murtosa e em locais indicados pela família como sítios em que Mónica gostava de ir. 

Caso entregue à Polícia Judiciária

A 9 de outubro, segunda-feira, o caso ficou sob a alçada da Polícia Judiciária (PJ) de Aveiro. As autoridades começaram por analisar as antenas celulares para tentar perceber, mediante a localização do telemóvel, onde poderia estar Mónica. Ao que o CM conseguiu apurar, segundo o rastreio feito pela família de Mónica, o dispositivo foi localizado pela última vez em Sintra.

A par disso, não tinham sido feitos levantamentos de dinheiro das contas de Mónica Silva, nem existia nenhum sinal de desaparecimento voluntário. Mónica, por estar grávida de sete meses, sentia dificuldades em movimentar-se.  

Para reconstituir os últimos passos da mulher, a Polícia Judiciária ouviu na terça-feira, dia 10 de outubro, os familiares da mulher que apontaram Fernando Valente, o alegado namorado, como suspeito.

Principal suspeito

Fernando Valente foi apontado pelos familiares de Mónica Silva como namorado da mulher e o possível pai do bebé de que a mesma esperava. O homem não só desmentiu a existência de uma relação amorosa com a mulher como negou ter estado com ela no dia do desaparecimento.

"Tivemos um envolvimento muito rápido em janeiro, conhecia-a e aconteceu no momento, foi só uma noite. Pelas contas não sou eu o pai, tenho essa convicção pela questão temporal e porque preveni-me naquela noite por uma questão de doenças e tudo o mais", disse ao CM.

Alfredo Silva, pai da grávida, garante que Fernando Valente marcou um encontro com Mónica para o dia do desaparecimento, 3 de outubro. O contacto terá sido feito por telefone.

"Ele está a mentir. Sentimo-nos ofendidos com o que ele disse. Ele não a conheceu na noite, conheceu-a de dia, num restaurante onde ela trabalhava", afirma a tia de Mónica, Filomena Silva.

Além de Fernando Valente, a Polícia Judiciária ouviu outro homem, também apontado como possível pai do bebé de Mónica. O empresário de Anadia negou, igualmente, o envolvimento físico com a mulher.

"Esclareci tudo aquilo que me pediram. Estou triste e desagradado com isto porque estou a ser exposto, mas quem não deve não teme", disse o homem, que garante não perceber por que motivo é apontado como namorado de Mónica e suspeito no seu desaparecimento.

O homem admitiu ter comunicado com Mónica, ao longos dos últimos meses, através das redes sociais mas garante que nunca partilharam pormenores da vida familiar.

"Era apenas a questão física, não havia nada mais", garantiu ao CM.

Perícias da Polícia Judiciária

A Polícia Judiciária de Aveiro recolheu dados dos telemóveis dos dois homens apontados pela família de Mónica Silva como suspeitos no desaparecimento da grávida de sete meses. Numa primeira análise não foram encontradas pistas, mas a PJ continuou a analisar as filmagens e a tentar perceber se existiam outras câmaras na zona que possam ter captado a passagem da mulher.

As primeiras buscas da Judiciária foram em lameiros, poços e terrenos na Murtosa. Na altura, a PJ não tinha descartado a hipótese de Mónica ter sofrido um acidente no regresso a casa.

Dez dias depois do desaparecimento, as autoridades iniciaram buscas a várias habitações, todas relacionadas com Fernando Valente. Foram recolhidas imagens de videovigilância e confiscados os telemóveis dos homens apontados pela família como suspeitos.

Segundo Filomena Silva, tia da mulher desaparecida, Fernando Valente tinha sido visto a queimar as supostas ecografias que Mónica Silva teria levado consigo no dia em que desapareceu. Esta pista levou as autoridades a avançarem na investigação.

Crime ganha força

No dia 15 de novembro, as casas de família de Fernando Valente foram alvo de buscas pela Polícia Judiciária, assim como a florista da mãe do suspeito.

As buscas incidiram numa propriedade de Fernando Valente em Cuba do Alentejo, uma quinta com cerca de 10 hectares que, além de casas devolutas, tem também poços onde poderia estar escondido o corpo de Mónica. O mesmo acontece na Torreira e na Murtosa, com a agravante de que, junto à casa do empresário agora detido, há um braço da ria que permitiria que o corpo tivesse sido lançado à água. Ou estivesse preso no lodo.

Após as buscas, a mãe do suspeito foi levada pela Polícia Judiciária e Fernando Valente detido pelas autoridades, por mandado assinado pelo Ministério Público. O homem é suspeito de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e aborto agravado.

Fernando tinha mais de 80 mil euros em dinheiro e sete mil em notas falsas numa propriedade, verba que lhe foi apreendida pela PJ, tal como um pistola de alarme.

Os pais de Fernando Valente foram ouvidos, mas não foram indiciados por qualquer crime. Ilibaram o filho, alegando que noite em que se perdeu o rasto à mulher grávida, se encontravam na sua companhia e que até foi o primeiro a deitar-se.

Durante a investigação, a Polícia Judiciária detetou vestígios de produtos de desinfetantes no apartamento de Fernando que terá sido alvo de uma limpeza minuciosa após o caso ter sido reportado às autoridades. Num dos carros do suspeito foram encontrados vestígios de sangue, possivelmente de Mónica Silva.

Fernando desligou um dos telemóveis na noite de dia 3 de outubro e só o voltou a ligar às 16h00 do dia seguinte em Vila Nova de Gaia. A essa mesma hora, o telemóvel da mulher, foi localizado em Cuba. As autoridades acreditam que esta tenha sido uma manobra para encobrir o envolvimento no caso.  

No interrogatório que terminou a 17 de novembro, o ex-namorado de Mónica não conseguiu esclarecer à juíza de instrução criminal o porquê de ter desligado o telemóvel no mesmo dia em que foi desligado o telemóvel de Mónica Silva, 3 de outubro. Fernando Valente garantiu, uma vez mais, que não esteve com Mónica, jurou inocência e assegurou que não é o pai da criança.

A 18 de novembro, a juíza de instrução criminal de Aveiro decretou-lhe prisão preventiva. Fernando não conseguiu explicar, também, porque limpou o carro e havia vestígios de Mónica no interior do veículo.

A motivação do crime terá sido o dinheiro. Mónica exigia que o empresário a ajudasse a criar o filho que ia nascer. Gonçalo Augusto seria herdeiro do património da família de Fernando, que não estaria disponível para abrir mão de qualquer quantia. O homicídio poderá ter ocorrido num quadro de discussão. 

Cúmplices do crime 

Os familiares da grávida desaparecida na Murtosa apontam dois novos suspeitos. Os dois homens, de nacionalidade brasileira, trabalhavam com Fernando Valente e com o pai do suspeito. Segundo os familiares de Mónica, estas duas pessoas deixaram de ser vistas logo após o desaparecimento da grávida. A última vez que foram vistas foi com o pai de Fernando, Manuel Valente, numa das habitações.

Sara Silva, irmã de Mónica, revelou, recentemente, ter recebido uma mensagem no dia do desaparecimento com um pedido de resgate, através de um número do Brasil. Na mensagem, alega que lhe pediram 500 euros e disseram que Mónica estaria num barracão abandonado, a correr risco de vida. A mulher recebeu uma fotografia de uma mulher loira de costas que, segundo a família, era Mónica Silva. Os familiares da grávida desaparecida acreditam que por detrás da tentativa de extorsão estiveram os dois homens brasileiros que viviam num anexo de uma das casas de Fernando Valente.

Populares acreditaram que corpo estava num poço

A família de Mónica, já desesperada por notícias, acreditou ser possível que o cadáver tivesse sido lançado a um poço na Murtosa, não muito longe das casas de Mónica e de Fernando. Os familiares dirigiram-se para o local, na sexta-feira, dia 17 de novembro, e esperaram a chegada das autoridades. 

Os bombeiros drenaram a água do poço, numa zona próxima da ria de Aveiro, mas um novo lençol de água dificultou os trabalhos que aconteceram durante a noite e com recurso a luz artificial. 

Durante as buscas, foram encontradas peças de roupa de mulher que Celeste, mãe de Mónica, não conseguiu identificar como pertences da filha.

Ao CM, a tia, Filomena Silva, disse que a PJ não lhe mostrou todas as peças de roupa recolhidas durante as buscas. 

Para ter certezas de que o corpo de Mónica Silva não estava no poço, a família contratou uma equipa privada para drenar a água, mas os trabalhos demoraram a iniciar por ser preciso autorização do proprietário do terreno que vive nos Açores. Os mergulhadores não encontraram nenhum cadáver.

Buscas na ria de Aveiro

A 23 de novembro, a Polícia Judiciária realizou buscas na zona da ria de Aveiro. Um detetor deu sinal de um objeto em metal - que se suspeitou ser o aparelho dentário de Mónica Silva - encontrado num local de difícil acesso e coberto de vegetação, entre a Torreira e S. Jacinto. O local fica a menos de dois quilómetros da casa da Torreira de Fernando Valente.

A 26 de novembro, dezenas de populares foram ao pinhal onde, no sábado anterior, foi descoberta terra remexida e onde o detetor de metais acusou a presença de algo enterrado a 1,60 metros de profundidade, junto à Torreira. Alguns civis com enxadas, pás e uma mini máquina escavadora fizeram vários buracos na esperança de que, num deles, fosse encontrado o corpo de Mónica Silva.

Um movimento nas redes sociais organizou novas buscas pelo corpo de Mónica Silva, a 3 de dezembro, entre a ria de Aveiro e o mar, da Torreira a São Jacinto, em Aveiro. Por volta das 16h20 desse dia, a GNR deslocou-se ao local e criou um perímetro de segurança onde os populares descobriram um saco com carne podre. 

A 4 de dezembro, o irmão de Mónica Silva, mergulhador profissional, regressou de Angola para iniciar buscas subaquáticas pela mulher, na Ponte da Varela, que faz a ligação entre a Murtosa a Torreira. O local fica a dois quilómetros do apartamento de Fernando Valente, na Torreira, onde se acredita que Mónica tenha sido morta.

Esta terça-feira, 5 de dezembro, a Polícia Marítima dirigiu-se à ria de Aveiro onde o irmão de Mónica, António Silva, iria mergulhar. As autoridades estiveram no local para verificar se algum mergulhador teria entrado na água sem autorização. 

As buscas acabaram por ser realizadas por uma empresa especializada, contratada pela família. Apesar de terem sido detetadas 13 zonas suspeitas, nada foi encontrado.

Obra de um supermecado

A 7 de dezembro, a Polícia Judiciária de Aveiro recebeu uma nova pista que levou as autoridades a ponderar que o corpo de Mónica Silva pudesse estar nas fundações da obra de um supermercado onde, Manuel Valente, pai do principal suspeito tem uma casa nas proximidades, cujas traseiras dão acesso ao local.

As autoridades recolheram amostras de ADN através de zaragatoas bucais aos pais de Mónica, Alfredo Silva e Celeste Barbosa, e à irmã gémea, Sara Silva para comparar com o sangue recolhido nas buscas efetuadas a uma carrinha e um apartamento de Fernando Valente, em prisão preventiva pelo homicídio de Mónica.

No dia 14 de dezembro, os dois filhos de Mónica Silva, de 14 e 11 anos, foram ouvidos em tribunal por um juíz para memória futura. Contaram os últimos dias vividos com a mãe.

Durante cinco anos, Mónica Silva viveu com os filhos e o pai das crianças numa casa arrendada à família de Fernando Valente.  Mónica Silva deslocava-se mensalmente ao estabelecimento comercial da mãe de Fernando Valente para pagar a renda.

As buscas, junto às obras da superfície comercial, na Murtosa, começaram a 15 de dezembro. Foram usadas máquinas retroescavadoras, cães que procuram o odor a cadáver e até equipamento para rastrear e mapear o solo, mas, uma vez mais, o corpo de Mónica Silva não foi encontrado. Na segunda-feira seguinte, 18 de dezembro, as autoridades deram continuidade às buscas, sem sucesso.



Fernando Valente, principal suspeito do desaparecimento de Mónica Silva, que estava em prisão preventiva desde 18 de novembro, foi colocado em prisão domiciliária com pulseira eletrónica a 22 de dezembro, numa casa em Pedroso, Gaia. A decisão do Tribunal de Aveiro gerou revolta junto dos familiares de Mónica.

Uma alegada discussão entre Mónica Silva e Fernando Valente a 3 de outubro, último dia em que a mulher foi vista, tornou-se uma nova pista para a Polícia Judiciária de Aveiro. 

Fernando Valente, o principal suspeito do homicídio de Mónica Silva, e o pai, Manuel, apresentaram versões contraditórias à PJ. Quando foi ouvido, Fernando garantiu que foi a mãe quem realizou a limpeza com soda cáustica na casa da Torreira - onde a investigação acredita que Mónica terá sido assassinada. Já o pai, Manuel, ouvido posteriormente, afirmou ter sido o filho quem realizou a limpeza profunda. Ambos não sabiam o que os outros tinham dito.

A PJ acredita que Fernando Valente estabelecia contactos com a grávida através de um telemóvel secreto. As autoridades encontraram na florista da mãe do homem uma fatura e a caixa do telemóvel estava em casa dos pais de Fernando Valente. O suspeito comprou o aparelho em julho de 2023, três meses antes de a mulher desaparecer.

Segundo as autoridades, o telemóvel secreto foi desligado às 21h07 de 3 de outubro, dia em que Mónica Silva desapareceu. 
O telemóvel nunca foi encontrado, mas as autoridades conseguiram descobrir o número graças ao filho mais velho de Mónica, que partilhava os contactos telefónicos com a mãe.





Serra de Canelas - novo local suspeito

Os moradores de Vila Nova de Gaia relatam ter assistido a movimentações fora do normal, na serra de Canelas, a menos de 500 metros da habitação onde Fernando Valente está em prisão domiciliária e onde o telemóvel do suspeito foi ligado no dia depois do desaparecimento da mulher.

Na serra há um lago com vários metros de profundidade e que, segundo os moradores, tudo aquilo que é atirado para ali nunca vem ao de cima. Por isso mesmo, são muitos os que, a partir do dia 8 de janeiro, começaram a levantar as suspeitas deste local e pedem que sejam realizadas diligências.

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