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Correio da Manhã

Portugal
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TUDO PARA REABRIR BLOCO

Vários empresários do extremo oeste do Algarve estão dispostos a realizar uma campanha que permita reunir os recursos necessários para efectuar obras no Hospital de Lagos, caso as entidades responsáveis confirmem ser esse o entrave à reabertura do bloco operatório daquela unidade de saúde, encerrado há mais de seis meses (desde o início de Abril), após a morte de dois pacientes na mesa de cirurgia.
19 de Outubro de 2004 às 00:00
“Um relatório da Inspecção-Geral de Saúde fala em algumas desconformidades no bloco mas, apesar das nossas insistências, nunca nos disseram claramente que o problema reside na necessidade de obras. Se é isso, esclareçam-nos, pois a Câmara também assumirá as suas responsabilidades”, garante Júlio Barroso, presidente da autarquia de Lagos.
A Associação Empresarial do Barlavento Algarvio (ASEMBA) considera “um grave prejuízo para a população das denominadas Terras do Infante [concelhos de Lagos, Aljezur e Vila do Bispo] a situação actual, que se traduz numa prestação de cuidados de saúde aquém do desejável”, frisam os membros Eduardo Santana e Arlindo Fernandes.
A estes dirigentes já chegou a indicação de que o problema residiria na necessidade de obras. “Se falta dinheiro para efectuar melhoramentos, estamos na disposição de sensibilizar os empresários da zona e reunir os meios suficientes”, garantem.
Os responsáveis da ASEMBA querem o hospital “a funcionar com todas as suas valências, assegurando um bom nível de prestação de cuidados de saúde a quem aqui reside e a quem nos visita. O encerramento do bloco por tanto tempo é incompreensível, sabendo-se das dificuldades sentidas pelas pessoas em realizar cirurgias. A lista de espera tem aumentado de forma acentuada.”
TUDO POR DEFINIR
Assunção Martinez, presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve (ARSA), diz que “é prematuro” falar na necessidade de obras no hospital. “A futura administração do Centro Hospitalar do Barlavento analisará a situação, em função de diversos factores e tomará uma decisão em consonância com a ARSA. Não podemos começar a casa pelo telhado e falar numa hipótese que ainda nem chegou a ser abordada.” No âmbito das decisões a tomar, “importa rentabilizar recursos e promover uma melhor operacionalidade dos serviços, no sentido de garantir a prestação de cuidados de saúde de uma qualidade cada vez melhor. Esse é o princípio. Em termos concretos nada está definido”, diz a responsável.
REABIR SÓ APÓS VISTORIA
O presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Médicos, Gomes Ferreira, considera “natural” o facto do bloco operatório do Hospital de Lagos continuar encerrado. “Uma comissão que fez um relatório detalhado sobre as condições existentes naquele espaço apontou várias deficiências. Nesse quadro, os médicos não possuem os requisitos mínimos para ali praticarem qualquer acto”, frisa aquele responsável, que explica: “Em função dos dados disponíveis, não me chegou notícia da resolução dos problemas detectados, o bloco não poderá ser reaberto.” O retorno à actividade apenas deverá ser considerado, ainda de acordo com Gomes Ferreira, “depois de uma comissão formada por especialistas fazer uma nova vistoria e considerar existirem condições para serem retomadas as cirurgias, o que supõe a realização, entretanto, de obras de alguma monta, para resolução das insuficiências assinaladas.” Os médicos de Lagos são obrigados a deslocar-se a Portimão para efectuar cirurgias mas até Gomes Ferreira “não chegaram queixas dos colegas” devido a essa situação.
À ESPERA DE NOVOS GESTORES
Os hospitais de Lagos e de Portimão foram integrados no Centro Hospitalar do Barlavento, uma sociedade anónima, cujos órgãos sociais ainda não estão eleitos – aguarda-se uma decisão do Governo a esse respeito. No momento, os líderes das anteriores administrações (Tiago Botelho, em Portimão, e Pimenta de Castro, em Lagos) asseguram a gestão corrente nas respectivas unidades de saúde, à espera das mudanças previstas. Em Portimão, o serviço no bloco operatório foi “reajustado” desde Abril, com a criação de três tempos naquele espaço, a fim de ali laborarem os médicos cirurgiões colocados no hospital de Lagos. “Fizeram-nos um pedido temporário e a gestão do bloco operatório [assim como a das camas] sofreu pequenas alterações, sem que a situação se tivesse tornado incomportável: há ainda uma margem de folga”, refere Tiago Botelho. Todavia, no caso do bloco operatório do Hospital de Lagos não voltar a reabrir, “será necessária a realização de algumas obras em Portimão, a fim do hospital ficar apto a responder da melhor forma às necessidades.”
À VOLTA DO CASO
DUAS MORTES
O encerramento do bloco operatório do Hospital de Lagos foi decidido depois de ali terem ocorrido duas mortes, no final de Março e no início de Abril do ano em curso: Albertina Estêvão, de 44 anos, e Rui Gonçalves, de 35 anos, ambos residentes em Albufeira, faleceram devido a paragens cárdio-respiratórias, quando iam ser submetidos a operações simples.
DILIGÊNCIAS
A Câmara de Lagos tem vindo a desenvolver “diversas diligências”, segundo o seu presidente, Júlio Barroso, com vista à reabertura do bloco operatório, mas sem sucesso. “Enquanto decorriam os inquéritos entretanto instaurados ainda era compreensível o encerramento mas agora não o compreendemos, ainda para mais sem nos darem explicações.”
RITMO DO MINISTÉRIO
De acordo com Ivone Ferreira, assessora do Ministério da Saúde, os órgãos sociais do Centro Hospitalar do Barlavento terão de ser eleitos em assembleia geral, já que se trata de uma sociedade anónima. Cabe aos accionistas convocá-la, neste caso o Ministério da Saúde e Finanças. “Essa assembleia será marcada oportunamente, até final do ano”, diz.
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