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Correio da Manhã

Portugal
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UM ESCRAVO NA HOLANDA

Um português foi despedido na Holanda por na passada quarta-feira ter recusado pegar ao serviço às 05h00. No dia anterior, ao fim de 12 horas de trabalho, Domingos Pereira contou que só não dormiu na rua graças à intervenção da polícia.
25 de Agosto de 2004 às 00:00
Com 37 anos, este homem, casado e pai de cinco filhos, considera que viu violados os seus direitos laborais. “Trabalhar 12 a 14 horas por dia, com dois intervalos de meia hora, é um trabalho de escravo”, disse o carpinteiro, que só depois de muita insistência conseguiu regressar a Portugal.
Domingos Pereira quis contar ao CM o que viveu durante 11 dias na Holanda para que a sua experiência sirva de aviso a outros portugueses que pensem em trabalhar no estrangeiro. “Estava desempregado há 20 dias, vi o anúncio num jornal e desloquei-me à Atlanco a fim de ir trabalhar como carpinteiro na Holanda”, recordou. “Disseram-me que assinaria o contrato no aeroporto de Lisboa, mas quando embarquei, no dia 9, tal ainda não tinha acontecido. Já na Holanda, a empresa instalou-nos num hotel em Pernis já depois da meia-noite. Ao outro dia, eu e outros cinco trabalhadores teríamos de acordar às 4h30.”
O martírio apenas começara: “De madrugada um carro levou-nos para a obra, um túnel para o futuro comboio de alta velocidade. A hora de saída foi às 20h00”. “Trabalhei assim até dia 17. Nessa terça, após 12 horas de trabalho, cheguei ao hotel e tinha as malas à porta. Não sei falar holandês, não sabia onde dormir. Chamámos a polícia e então a empresa voltou a disponibilizarmo-nos hotel. Mas ter chamado a polícia deu origem a que fosse despedido. Regressei a Portugal sábado à noite.”
O CM contactou várias vezes a Atlanco, mas ninguém quis falar.
O PÃO QUE O DIABO AMASSOU
Domingos Pereira classificou de muito dura a forma como foi obrigado a trabalhar na Holanda. “Para comprar comida levavam-nos de manhã a uma estação de serviço. Duas sandes custavam dez euros e era tudo o que comia durante 12 ou 14 horas de trabalho”, explica. “No dia em que o hotel nos colocou as malas à porta tinha trabalhado 12 horas. Com a chegada da polícia e até que a empresa resolvesse a nossa situação de alojamento, eu e os restantes cinco colegas só voltámos a ter quarto pelas duas da madrugada. Estávamos exaustos. Na manhã seguinte, pelas 04h00, chegou o motorista para levar-nos até à obra. Recusámos entrar ao trabalho tão cedo. Soubemos então, mais tarde, que estávamos despedidos daquela obra. Eu e mais dois portugueses exigimos então voltar a Portugal”. Domingos Pereira partiu para a Holanda com a promessa de receber 7,73 euros à hora e nove euros por cada hora extra.
SITUAÇÕES PREOCUPANTES
Carlos Alberto Silva Gonçalves, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas
Correio da Manhã – Verifica-se um crescimento das queixas sobre precariedade de trabalho no estrangeiro?
Carlos Gonçalves – O Governo tem tido conhecimento de algumas situações. Sempre que estas ocorrem, o Estado procura dar apoio nos locais onde estão os trabalhadores, nomeadamente nos casos de âmbito social com situações mais preocupantes.
– O que tem sido feito para anular estas situações?
– Têm sido difundidas campanhas de sensibilização para os trabalhadores saberem que contratos estão a assinar. A fim de saber dos seus direitos, um trabalhador deve dirigir-se à Direcção-Geral dos Assuntos consulares e comunidade portuguesas ou às estruturas existentes em cerca de 40 câmaras municipais.
– As empresas de contratação estão sujeitas a algum controlo?
– Sim. Tem de haver uma certeza de que os contratos estão de acordo com as normas comunitárias.
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