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Correio da Manhã

Portugal
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“Uma grande maldade”

Morte de João Carlos Lobato, assassinado a tiro, é tema de conversa em ruas e cafés de Ponte de Sor.
16 de Março de 2010 às 00:30
João Carlos Lobato, 42 anos, foi assassinado em casa, no Brasil, há uma semana. O corpo deve chegar hoje a Ponte de Sor
João Carlos Lobato, 42 anos, foi assassinado em casa, no Brasil, há uma semana. O corpo deve chegar hoje a Ponte de Sor FOTO: Pedro Galego

Consternada, incrédula e em choque. É assim que se sente a gente de Ponte de Sor, terra natal de João Carlos Lobato, agricultor de 42 anos assassinado há uma semana em Aruanã, Brasil. A família em Portugal acredita que o crime foi uma encomenda por vingança e suspeita da ex-mulher, que recentemente o ameaçara de morte por não pagar a pensão de alimentos à filha no valor que ela pretendia. O tema corre as ruas e os cafés da cidade, mas muitos só agora começam a entender a dimensão e os contornos do brutal homicídio, cometido em frente à namorada brasileira, de 22 anos, com quem a vítima iria casar-se no final deste mês.

'Foi uma grande maldade o que lhe fizeram. Quem tem desavenças resolve-as a conversar, não a tiro', diz ao CM Vasco Zêzere, residente em Ponte de Sor e conhecido da vítima. O mesmo popular, que teve contacto com João Lobato ao longo da vida, recorda: 'É de famílias importantes da terra, ligadas à cortiça e à agricultura. Mal sabia que ia encontrar lá a morte quando decidiu emigrar', lamenta.

Tal como o CM noticiou, dois homens encapuzados esperavam-no no dia 9 à chegada a casa. Dois tiros à queima-roupa mataram o português dentro de casa num condomínio de luxo em Aruanã, no estado de Goiás, Brasil, local onde prossegue a investigação (ver peça secundária).

Os familiares só conhecem desavenças de João com a ex-mulher, Sílvia, uma advogada de Goiânia com quem teve uma filha, Nicole, actualmente com três anos. Não duvidam de que a vingança foi o móbil que levou à contratação de mercenários.

Em Ponte de Sor a opinião sobre a vítima é unânime: 'Bom rapaz, sem inimigos nem problemas.' Ninguém esconde que João Lobato era considerado um bon vivant, sobretudo após a morte do pai, que o deixou com uma enorme fortuna, mas que apesar dessa condição era bem considerado. A mãe e uma irmã, a família mais próxima, residem na região de Lisboa. Em Ponte de Sor João Lobato mantinha uma casa onde ficava de três em três meses para tratar dos seus negócios.

'ELE ERA UMA JÓIA DE MOÇO'

No café-restaurante Jardim, próximo da casa da vítima, em Ponte de Sor, e onde João Carlos costumava conviver com os amigos quando vinha a Portugal, a notícia caiu como uma bomba. 'Conhecia-o muito bem, desde cachopo. Estava de bem com a vida, ninguém imaginava uma coisa destas', assegura ao CM Francisco Tomaz, proprietário do estabelecimento. 'Apaixonou-se por aquela terra mas não cortou os laços a Ponte de Sor. Quando vinha estava com todos de quem gostava. Uma jóia de moço. Não há nada que se possa apontar', assegura Francisco Tomaz.

PORMENORES

Mensagem

À hora do homicídio, os dois homens encapuzados que aguardavam a chegada a casa de João terão dito à vítima: 'Você é que perdeu.' Depois abriram fogo com uma pistola silenciada e deixaram o português prostrado no chão, antes de fugirem sem roubar nada da habitação. A única prova é uma camisola encontrada no arame farpado do condomínio.

Agro-alimentar

A família Lobato, uma das afortunadas da região de Ponte de Sor, começou a investir no Brasil, no sector agro-alimentar, logo após o 25 de Abril, sobretudo no estado de Goiás, onde fica Aruanã.

Pensão de alimentos

João teve recentemente em tribunal uma disputa com a ex--mulher, Sílvia, relacionada com a pensão de alimentos da filha, após a separação. A família portuguesa acredita que a decisão desfavorável à mãe da criança foi motivo de vingança.

Condomínio de luxo

A casa onde João Lobato vivia no Brasil e onde foi assassinado está situada num condomínio privado e custa mais de 800 mil euros,segundo a imprensa brasileira.O agricultor pagava mensalmente uma quota de condomínio que ascendia aos mil euros.

Casamento marcado

A vítima e a actual namorada, Ana Maria Brito, de 22 anos, iam casar-se no final deste mês, embora a família desconhecesse os contornos da cerimónia e se seria celebrada no Brasil ou em Portugal.

CORPO ESPERADO HOJE NA TERRA

De acordo com o primo José Lobato, o corpo de João deve chegar esta manhã a Lisboa, vindo do Brasil, seguindo depois para uma cerimónia fúnebre em Ponte de Sor, localidade onde a vítima mantinha a residência em Portugal e onde ia de três em três meses, de forma a assegurar o normal funcionamento das terras e propriedades agrícolas da sua família e onde regressava mais assiduamente desde a morte do pai.

Ainda durante o dia de hoje, caso tudo corra conforme previsto, o corpo da vítima regressará a Lisboa, onde será cremado, tal como desejava João Carlos Lobato.

POLÍCIA VAI INTERROGAR HOJE VÁRIAS PESSOAS

Ao longo do dia de hoje, várias pessoas vão ser interrogadas pela polícia brasileira em Aruanã, na sequência das diligências para tentar chegar aos autores e motivações do homicídio do cidadão português naquela pequena cidade do estado brasileiro de Goiás, há precisamente uma semana.

O Correio da Manhã confirmou ontem, na sede da polícia do estado, em Goiânia, que o inspector Paulo Ribeiro da Silva – inspector itinerante que tem a seu cargo várias pequenas cidades – vai hoje especialmente a Aruanã para ouvir diversas pessoas que já convocou e desenvolver outras acções que possam ajudar a esclarecer o caso.

Entre as pessoas a inquirir estará a namorada de João Carlos, Ana Maria Brito, que será a única testemunha ocular do crime e que ficou em estado de choque.

As investigações não se afiguram fáceis, visto que Aruanã tem apenas dois agentes - e até há pouco era só um –, mas o inspector Siron Fernandes de Avelar afirmou ontem ao nosso jornal que apesar dessa 'estrutura minúscula a polícia se vai empenhar no caso e, se for preciso, enviará agentes para a região'.

A mesma fonte afirmou que várias hipóteses estão a ser investigadas pelas autoridades, mas não quis adiantar quais, nem comentar as suspeitas de que a morte do português esteja relacionada com disputa com a ex-mulher, uma advogada filha de um ex--inspector da Polícia Federal, sobre a pensão de alimentos à filha de ambos, nem a uma suposta dívida do empresário. Segundo a imprensa brasileira, nada foi roubado da casa luxuosa, tendo os assassinos fugido de moto logo após os dois tiros que tiraram a vida ao português.

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