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Correio da Manhã

Portugal
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Uma Mata Hari em Lisboa

Uma agente dupla, a russa Nathalie Sergueiew, envolveu o banqueiro português Ricardo Espírito Santo numa trama de espionagem durante os conturbados anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quem o diz é o advogado e escritor José António Barreiros no seu mais recente livro, ‘Nathalie Sergueiew – Uma Agente Dupla em Lisboa’.
25 de Junho de 2006 às 00:00
Nathalie Sergueiew, no Terreiro do Paço, em Lisboa
Nathalie Sergueiew, no Terreiro do Paço, em Lisboa FOTO: d.r.
De acordo com os arquivos ingleses e portugueses, além de outras fontes do autor, Ricardo Espírito Santo esteve em contacto com vários espiões que viajavam até Portugal, país neutral no conflito que ensanguentava a Europa. Segundo o autor, há indícios de que Espírito Santo foi amante da alemã Yvone Delidaise, agente secreta e amante, por sua vez, do major Kliemann, ligado aos serviços secretos de Hitler.
Sergueiew, apaixonada pelo major alemão, denunciou, por ciúmes, Ricardo Espírito Santo a um agente britânico. Kliemann contratou detectives privados para apurar se andava a ser traído pela amante, mas estes foram subornados pelos serviços secretos ingleses. “Mesmo que a suspeita fosse confirmada, esta devia ser negada e escondida”, conta José Barreiros. “Possivelmente, tinham receio de que Kliemann se suicidasse, pondo em causa toda a operação”, disse.
“Ricardo Espírito Santo era um banqueiro muito influente. Era um homem muito bem informado e bem relacionado. Com certeza que convivia com simpatizantes e membros dos serviços secretos da Alemanha”, disse José Barreiros ao Correio da Manhã. “Existem indícios das suas simpatias. Está provado que, aquando da vinda do duque de Windsor [o ex-rei Eduardo VIII] a Portugal, o duque, simpatizante da causa alemã, ficou na casa do banqueiro, na Boca do Inferno. Para os serviços de contra-informação ingleses, Ricardo Espírito Santo era um germanófilo”, explicou Barreiros. Mas advertiu: “Não há provas de que Espírito Santo tenha trabalhado para os serviços secretos alemães.”
Lançado na passada sexta-feira, o novo livro do prestigiado advogado segue as pegadas dos seus dois trabalhos anteriores sobre as redes estrangeiras de espionagem no nosso país, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial.
José António Barreiros relata, desta vez, a história verídica de uma agente dupla que traiu os alemães juntando-se à causa britânica e que, a dado momento, conseguiu usufruir da confiança de ambos os lados em guerra.
“Russa por nascimento, francesa por adopção”, nas palavras do autor, Lily Sergueiew, como era conhecida, morreu com apenas 38 anos, doente e abandonada pelos serviços secretos de todos os países, mas foi uma das peças centrais no jogo político da época. Nunca perdoou a invasão alemã ao seu país de acolhimento, a França, e decidiu ter um papel activo na questão.
Com o objectivo de obter um radioemissor, numa estratégia preparada para a fase seguinte do ‘Dia D’ (o desembarque na Normandia por parte dos Aliados), Lily viajou até Lisboa, em Março de 1944. Instalou-se no Hotel Avenida Palace – um conhecido ninho de espiões –, onde ficou até ao fim da missão. Completada com êxito, este foi o seu triunfo mas também o seu fim. Devido a desconfianças, os serviços secretos ingleses decidiram “neutralizá-la”.
José Barreiros confessa: “Tenho para com esta personagem uma relação de paixão. Foi uma mulher incrível.” Talvez por isso tenha escrito o livro em pouco mais de três anos. “Fiz um esforço redobrado para conseguir conciliar a minha carreira como advogado e a escrita deste livro, mas valeu a pena.” Agora, prepara-se para desvendar os segredos de Espírito Santo, em obra a publicar para o ano.
PERFIL
José António Barreiros nasceu em Malanje, Angola, em 1949. É um dos advogados mais prestigiados na área do crime e participou em muitos processos mediáticos. Recentemente, defendeu Vale e Azevedo e agora representa as vítimas no processo Casa Pia. Foi membro do Governo de Macau. É autor de vários livros sobre espionagem, entre os quais: ‘A Lusitânia dos Espiões’ e ‘O Espião Alemão em Goa – Operação Longshanks’.
"BEM INFORMADO"
Ricardo Espírito Santo (1900-1955) foi presidente do Banco Espírito Santo, mecenas e amante das artes. Um dos mais “bem informados e influentes” (segundo José António Barreiros) elementos da elite portuguesa, conviveu com o universo da guerra secreta na Lisboa neutral do início da década de 1940. Recebeu em sua casa o ex-rei Eduardo VIII de Inglaterra, alvo da desconfiança de Churchill pelas suas tendências germanófilas. Ele próprio foi considerado pró-alemão, mas, depois da guerra, vários judeus atestaram que Espírito Santo os ajudara.
E TUDO A ALEMANHA LEVOU
Lisboa foi fatal para o actor inglês Leslie Howard (1893-1943), mais uma vítima da guerra secreta que opôs a espionagem aliada à do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.
Howard, mundialmente conhecido pela sua participação no filme ‘E Tudo o Vento Levou’, em que desempenhava o papel do cavalheiresco oficial sulista Ashley, não era apenas uma estrela de Hollywood. Mal rebentou a Segunda Guerra Mundial, envolveu-se de forma militante na produção de filmes e documentários apoiando abertamente as democracias.
O seu empenhamento no esforço de guerra tê-lo-á levado a mergulhar nas águas turvas da espionagem, com passagem pela capital portuguesa. No dia 1 de Julho de 1943, apanhou o avião para Londres em Lisboa. Nunca chegou ao destino. Ao sobrevoar a Baía de Biscaia, o avião civil foi abatido por uma esquadrilha de caças da Luftwaffe nazi. Não houve sobreviventes.
OS HÓTEIS NO JOGO POLÍTICO
O antigo Hotel Aviz (actual Hotel Sheraton) e o Avenida Palace, ambos em Lisboa, eram palcos do jogo político de espiões alemães e ingleses que usavam a neutralidade portuguesa para melhor fazerem a guerra. O Marquês de Pombal era um ponto de referência para os encontros clandestinos.
A VERDADEIRA MATA HARI
Mata Hari (1876-1917) era o nome artístico de Margaretha Geertruida Zelle, uma bailarina exótica holandesa que, após uma tentativa frustrada de ser professora e um casamento igualmente falhado, se tornou bailarina. Os seus dotes levaram-na a várias cidades europeias. Durante a Primeira Guerra Mundial, dormiu com oficiais e diplomatas, tanto franceses como alemães. Em 1917 foi acusada, condenada e fuzilada em Paris por espionagem a favor da Alemanha, sem nunca se saber a verdade sobre as suas actividades.
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