Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
2

URÂNIO ALARMA FAMÍLIAS

O anúncio do Governo de que os efectivos da GNR presentes no Iraque irão, no próximo mês, participar num estudo clínico destinado a estudar e monitorizar os potenciais efeitos da eventual presença de elementos tóxicos no teatro de operações suscitou a revolta de Paula Silva, mulher do cabo Rui Sacoto.
29 de Julho de 2004 às 00:00
“Estou mesmo muito revoltada, não se admite que só depois dos italianos decidirem fazer testes é que vão fazer exames aos nossos”, sublinhou a jovem residente no Seixal, ao que acrescentou: “O meu marido veio do Iraque em Abril e até agora ainda não fez quaisquer exames, o que nos deixa muito preocupados, sobretudo agora que fiquei grávida”.
Também Maria Fernanda Henriques, mãe do soldado Carlos Henriques, expressou a mesma preocupação, pois o seu filho não efectuou os referidos exames depois de regressar do Iraque. “Ainda há pouco estive a falar com o meu marido sobre isso e estou preocupada, porque o meu filho anda doente com vómitos e não lhe fazem os exames. Os únicos testes que fez foi por minha iniciativa e foram realizados pela médica de família”, disse a mãe do militar, residente em Odivelas. As afirmações de Paula Silva e Maria Fernanda Henriques contrariam o comunicado ontem emitido pelo Ministério da Administração Interna. Nesta nota informativa pode ser lido: “No caso concreto da participação nas operações de paz no Iraque, os militares foram sujeitos, antes da partida, na fase de preparação, a uma série de exames ao nível sanguíneo, da função hepática e da função renal, conjugados com uma rigorosa observação médica, análises que se repetem no final da missão, após a chegada”.
A não realização imediata de exames médicos no regresso da Bósnia e de Timor-Leste foi também testemunhada ao CM, pelo ex-pára-quedista Pedro Miguel Almeida.
“Não fiz testes nenhuns”, afirmou o jovem, que aguarda por um transplante pulmonar e que desde Outubro de 2003 está internado com uma fibrose pulmonar. Segundo relatório médico, a doença pode ter sido provocada por contacto do militar com urânio empobrecido.
A questão do urânio empobrecido no Iraque surgiu após o parlamento italiano debater a criação de uma comissão de inquérito. Levantou-se também a hipótese, entretanto desmentida pelo governo português, do internamento de 19 militares italianos para averiguações de eventual exposição a urânio empobrecido.
Em comunicado, o Governo português destacou que “os exames já realizados e avaliados, relativos aos militares integrados no 1.º contingente que prestou missão no Iraque, não revelaram quaisquer alterações face ao quadro clínico inicial” e que “não há conhecimento de qualquer alteração do grau de risco”. Sobre o assunto, Santana Lopes pouco adiantou, referindo não ter “qualquer indicação” de problemas nesta área em relação aos soldados portugueses.
F. J. GONÇALVES, ENVIADO ESPECIAL AO IRAQUE: CONTAMINAÇÃO POSSÍVEL MAS REMOTA
Ao que pude apurar quando estive no terreno, o único foco de possível contaminação com agentes tóxicos na base de Talil é um ‘cemitério’ de antigos aviões de Saddam, alguns dos quais transportaram material radioactivo. No entanto, o espaço desse ‘cemitério’ está demarcado e isolado, sendo pouco provável que represente qualquer risco.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)