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Correio da Manhã

Portugal
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“Vais pagar pelo que nos fizeste”

Cabeça erguida e postura confiante, R.C. manteve-se firme ao passar por familiares e amigos das seis crianças, entre os 3 e os 10 anos, de que é acusado de ter abusado sexualmente, mais de sete mil vezes, na sua casa de Benfica. O informático, de 53 anos, começou a ser julgado em Lisboa – e fez ontem questão de olhar os antigos vizinhos nos olhos.
12 de Dezembro de 2012 às 01:00
MONSTRO, LISBOA, JULGAMENTO, ABUSOS SEXUAIS, PENA
MONSTRO, LISBOA, JULGAMENTO, ABUSOS SEXUAIS, PENA FOTO: Ricardo Cabral

Responde, à porta fechada, por mais de 160 mil crimes de abuso sexual e pornografia de menores, entre 2007 e 2011. E na sessão que teve lugar na 2ª Vara criminal do Campus da Justiça, a primeira testemunha a ser ouvida foi a mãe de uma das vítimas. Segundo o CM apurou, a progenitora não conseguiu conter as lágrimas perante o colectivo de juízes – presidido por Clarisse Gonçalves –, na altura em que descreveu as semanas depois de o filho ter revelado os abusos de que foi vítima.

No exterior da sala de audiências, a mulher não escondeu a revolta face ao olhar intimidador do arguido, que está em prisão preventiva e ontem não depôs. "Estás a olhar? Vais pagar por tudo aquilo que nos fizeste", afirmou a mulher, em lágrimas.

Foram ouvidas cinco testemunhas de acusação: dois familiares directos, um psicólogo e dois amigos das famílias das vítimas – abusadas quando ficavam à guarda do vizinho, que se oferecia para brincar com elas enquanto os pais iam trabalhar. "Ele não mostra qualquer arrependimento e ouve-nos sempre de cabeça levantada", diziam.

A sessão baseou-se no testemunho dos familiares directos e, sobretudo, do psicólogo de um dos menores – três rapazes e três raparigas. O perito relatou o processo de recuperação do menor – este sentira-se envergonhado ao perceber os mais de 600 abusos de que fora alvo e receava a reacção dos seus colegas de escola, caso descobrissem. O julgamento prossegue hoje.


"FOI DESUMANO E PENA MÁXIMA SERÁ POUCO"

Para os pais das seis crianças, todos moradores da zona de Benfica e vizinhos do arguido na rua dos Arneiros, o dia-a-dia nunca mais foi igual. "Agora estamos mais desconfiados. Mas só queremos que os miúdos refaçam a vida, dentro do possível, e que tentem esquecer o que se passou com eles. Mas é difícil. Foi algo desumano e a pena máxima ainda será pouco para este monstro", afirmava, revoltado, um dos familiares. A preocupação maior é a protecção das vítimas. "Pouca gente sabe. Não queremos que eles tenham medo de ir à escola. Têm de ser crianças normais. Nunca olhadas de lado pelas outras." O CM sabe que os seis menores estão ainda a ser acompanhados por equipas de psicólogos especialistas em casos de abusos.

FILHO ABUSADO LEVOU PROVAS À JUDICIÁRIA

A primeira denúncia surgiu de um dos menores, que contou à mãe os abusos – quando ficava, assim como os restantes, à guarda do vizinho e amigo.

Foram apreendidas fotografias e vídeos explícitos. Pouco depois, foi o próprio filho do arguido, já adulto, a denunciar o pai à PJ de Lisboa. Também ele fora abusado, aos 8 anos, mas os crimes prescreveram. Entregou uma mala com vibradores, roupas de crianças abusadas e mais DVD onde se podia ver o informático a violar menores – o que ajudou a incriminar o pedófilo, que foi preso em Fevereiro.

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