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Correio da Manhã

Portugal
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VEM AÍ MAIS CALOR

Amanhã e durante o fim-de-semana a temperatura “vai baixar substancialmente”, mas na segunda-feira a onda de calor regressa ‘em força’. Segundo afirmou ao Correio da Manhã o professor Filipe Duarte Santos, coordenador do estudo sobre os efeitos da mudança do clima, esta é uma “situação inédita em Portugal: Nunca houve um período tão longo com temperaturas tão elevadas” e isso pode constituir “sinal de que a alteração climática está em curso”.
14 de Agosto de 2003 às 00:00
A temperatura deve começar hoje a descer. Mas o alívio vai ser de curto prazo. Na próxima semana, o calor regressa em força
A temperatura deve começar hoje a descer. Mas o alívio vai ser de curto prazo. Na próxima semana, o calor regressa em força FOTO: Jean Pierre Muller (AFP)
A previsão do Instituto de Meteorologia (IM) dá conta de uma descida dos valores da temperatura durante o dia hoje, no Litoral. A partir de amanhã, o decréscimo (de 6 ou 7º graus) torna-se mais sensível e generalizado. Pode ocorrer precipitação no Litoral Oeste. A Norte do Cabo Raso prevê-se a ocorrência de chuviscos durante a manhã e a Sul de aguaceiros.
Sem concretizar valores de temperatura, uma técnica do IM, adiantou ao CM que, na próxima segunda-feira, “a temperatura volta a subir para níveis da ordem dos que se verificaram recentemente”.
VIVER NUM CLIMA MAIS QUENTE
O professor Filipe Duarte Santos, que coordenou o estudo “Climate Change in Portugal, Scenarios, Impacts and Adaptation Measures - SIAM Project”, notou, com base nos modelos climáticos ali expostos, que “as ondas de calor vão tornar-se mais frequentes”. E exemplificou: “Em Lisboa, no período 1961-1990, o número médio de dias de calor por ano, com temperaturas superiores a 35º, é de oito. Entre 2080 e 2100, calcula-se que passem a ser 50.”
Instado a interpretar, por referência a tal cenário, a onda de calor que actualmente assola a Europa, o investigador sublinhou: “Tudo aponta para que seja uma manifestação da tendência futura do aumento da temperatura”. Segundo Filipe Duarte Santos, “é provável que as crianças de hoje tenham, na fase adulta, de viver num clima mais quente do que o actual”.
Também John Schellnhuber, que dirige a mais importante equipa de peritos em clima da Grã-Bretanha, o Centro Tyndall, afirmou, recentemente ao jornal “El Mundo”, que “o que estamos a viver é completamente insólito”. “Sabemos que o aquecimento da Terra avança a grande velocidade, mas acreditávamos que haviam de passar 20 ou 30 anos antes de se verificarem vagas tão quentes. O problema é que estão a ocorrer agora”, disse.
Filipe Duarte Santos alertou para a importância de implementar “medidas de adaptação” a temperaturas mais elevadas, nomeadamente em relação às florestas, com planos de prevenção dos incêndios, e à saúde humana, pois, com o calor, o índice de mortalidade aumenta. Não esqueceu ainda a referência às “medidas de mitigação”, que passam pela redução das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) para a atmosfera, prevista no Protocolo de Quioto, à espera da ratificação da Rússia.
MORTES NA EUROPA
FRANÇA
Em quatro dias, cerca de 50 pessoas morreram, na região de Paris, França, devido a causas associadas ao calor, pelo que o número de mortos, desde 4 de Agosto, já totaliza uma centena. Na segunda-feira, um dia depois da noite mais quente registada em Paris, o director da Associação de Médicos de Emergência de França, Patrick Pelloux, criticou o ministro da Saúde por considerar as mortes naturais. Entre os óbitos atribuídos ao calor conta-se o de uma menina de três anos, que morreu dentro de um automóvel estacionado.
ITÁLIA
Cerca de 60 idosos morreram ontem em Itália, em consequência do calor, segundo dados oficiais. Em todos os casos, tratou-se de pessoas idosas, entre os 70 e os 98 anos, que se encontravam doentes há algum tempo. Só em Milão, na Lombardia, norte de Itália, cinco pessoas morreram de madrugada. Terça-feira tinham falecido 23 pessoas na mesma cidade. Em Turim, foi oficialmente registada, anteontem, a morte de 28 pessoas. Quatro mortes provocadas pelo calor foram assinaladas noutras cidades da península – duas em Florença, Toscânia, uma em Varese, Lombardia, e uma em Lecce, Puglia.
ESPANHA
Em Espanha já se verificaram 34 mortes devidas ao calor durante este Verão. O ano em que se verificou maior número de óbitos em consequência das elevadas temperaturas no país vizinho foi o de 1995, quando uma vaga de calor vitimou, só na segunda quinzena de Julho, meia centena de pessoas.
SEM LUZ
Mil e quinhentas habitações de Paris ficaram sem luz na terça-feira à noite. As elevadas temperaturas causaram perturbações nos cabos de electricidade subterrâneos.
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