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Correio da Manhã

Portugal
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Vi a morte à frente

O mar apanhou-nos. Vi a morte pela frente, mas nesta vida estamos sempre a vê-la!” O desabafo é de quem se acostumou a ter o risco como companheiro de profissão, mas ganha mais emoção na boca de José Abel Marques, 42 anos, um dos dois sobreviventes do naufrágio de quinta-feira em Santa Cruz, Torres Vedras – o corpo do terceiro pescador continua por resgatar.
15 de Dezembro de 2007 às 00:00
O pescador contou ontem que os três tripulantes da lancha Lavi estavam na faina desde as 07h00. A tragédia aconteceu 01h40 depois, quando as ondas, na zona de rebentação, fizeram virar a embarcação: “Ainda tentei salvar o mestre, coloquei-o em cima da lancha, mas veio outra onda e deixei de vê-lo. Tentei nadar para terra e apareceu um surfista que a meio do caminho me ajudou.”
Para José Marques, pescador há 20 anos, este foi o acidente mais grave, depois de um “susto” há alguns anos com outro barco que começou a meter água. “Não sei se vou voltar ao mar. Nos próximos tempos não vou, depois não sei”, diz o dono da lancha, em sociedade com o mestre António João Garcia, de 56 anos, que está desaparecido.
Residente na Maceira, José Marques conhecia um dos dois surfistas que o salvou, os quais residem em Póvoa de Penafirme. “Tiveram um acto de heroísmo”, afirma agradecido. Tiago Antunes e Carlos Teodoro, ambos de 18 anos, são agora os “surfistas heróis.” Ao passarem de carro pela praia de Santa Cruz, observaram da estrada a lancha a virar-se e não hesitaram em prestar socorro. “Reparámos que havia náufragos e decidimos entrar na água e tentar socorrê-los. Já estávamos vestidos com o fato de surf e fomos a correr porque havia muita aflição entre as pessoas na praia.”
José Abel foi o primeiro a ser salvo, por Tiago, que depois ajudou o amigo Carlos a colocar na prancha de surf o outro pescador que estava à tona de água – Rui Tomás Mendes, de 54 anos, ainda hospitalizado em Torres Vedras, com uma fractura nas costelas.
“Ainda estivemos meia hora dentro de água. Tentámos ver o terceiro pescador, mas não vimos vestígios nenhuns. Tínhamos ficado mais satisfeitos se também o tivéssemos salvo, só que não houve mesmo hipótese, porque não chegámos a vê-lo e o mar estava pesado, com ondas de dois metros e bastantes correntes a puxar para dentro”, diz um dos surfistas.
O capitão do porto de Peniche, comandante Guerreiro Cardoso, lamentou ontem que os pescadores não estivessem a usar os coletes salva-vidas que tinham na embarcação: “Provavelmente podíamos estar num cenário diferente.” As buscas para encontrar António Garcia vão continuar hoje ao longo das praias vizinhas de Santa Cruz.
MESTRE POR ENCONTRAR
Os três pescadores no barco que naufragou, vendo-se ao meio o que está desaparecido. António Garcia era o mestre do barco.
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