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Correio da Manhã

Portugal
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Vila de Rei sitiada

Os pouco mais de 60 simpatizantes do Partido Nacional Renovador e da Frente Nacional que se manifestaram ontem em Vila de Rei contra a decisão da autarca local (Irene Barata) em recrutar trabalhadores no Brasil foram vigiados por “cerca de 40 elementos” da GNR.
14 de Maio de 2006 às 00:00
Os cerca de 60 manifestantes estiveram sempre sob o olhar atento dos militares da GNR, que receavam uma contra-manifestação
Os cerca de 60 manifestantes estiveram sempre sob o olhar atento dos militares da GNR, que receavam uma contra-manifestação FOTO: Pedro Catarino
“Se bem me lembro, só no Verão de 2003 é que aconteceu termos aqui um contingente tão grande”, disse ao CM o capitão Brito, da GNR da Lousã, frisando que também nessa altura foi chamado à vila, que se situa no centro geodésico de Portugal, elementos do Batalhão Operacional (BO) da GNR. Mas, ao contrário do que aconteceu no ano em que a zona do Pinhal ardeu quase toda, desta vez os 25 efectivos do BO não estiveram à vista. “Não houve necessidade de se mostrarem, dado que não houve qualquer problema”, justificou o capitão Brito.
Mas a presença do PNR e da FN em Vila de Rei obrigou as autoridades a “cuidadas medidas de segurança”. É que, segundo adiantou ao CM o tenente coronel Hélder Almeida, comandante distrital da GNR de Castelo Branco, “circularam informações” de que poderia haver uma contra-manifestação: “Por isso, decidimos estar preparados para um cenário que degenerasse em violência. E a nossa obrigação seria proteger os manifestantes, os contra-manifestantes e a população que assistisse à manifestação”. Acrescentou: “Felizmente, como eu, aliás, tinha previsto, tudo decorreu de forma pacífica”.
Além dos 60 manifestantes, todos bem alinhados em frente à entrada principal da Câmara Municipal de Vila de Rei, os três oradores – Nuno Bispo, pela FN, e José Henriques e Pinto Coelho, pelo PNR, passaram mais de meia hora a dizer que Irene Barata quando decidiu buscar trabalhadores ao Brasil não teve em conta que Portugal tem mais de 600 mil desempregados – foram escutados por pouco mais de 30 pessoas (Vila de Rei tem mais de três mil habitantes) que raramente aplaudiram aquilo que iam ouvindo. Frases do tipo: “Estamos contra os políticos e as suas políticas”; “Portugal é dos portugueses e para os portugueses”, foram proferidas por Pinto Coelho, presidente do PNR.
O momento mais quente sucedeu quando o 'speaker’ de serviço avisou que o irmão da presidente, Irene Barata (eleita nas listas do PSD) “andava por ali” a tirar fotografias aos vilarregenses que se tinham deslocado à manifestação. “Ando sim senhor. É para o meu álbum pessoal. Há muito tempo que faço isto. É claro que não vou mostrar as fotos à minha irmã”, disse ao CM Francisco Barata. Irene Barata não assistiu à manifestação por se encontrar de férias... no Brasil.
FILIPA EMÍDIO PRECISA DE EMPREGO
“Estou desempregada e se for possível começo a trabalhar já na estalagem para onde vão os brasileiros.” Filipa Alexandra Emídio, de 20 anos, 9.º ano de escolaridade, assistiu à manifestação de ontem em Vila de Rei. “E estou disposta a ganhar os 400 euros que vão dar às pessoas que a presidente da Câmara foi buscar ao Brasil”, acrescentou, frisando que só se juntou aos manifestantes por “mera curiosidade”. “A política não me interessa nada”, observou.
Filipa Emídio adiantou ainda ao CM que, em Outubro do ano passado, tentou arranjar emprego na Albergaria D. Diniz. “O gerente, o senhor Hélder Marçal disse-me que não tinha qualquer vaga.” Contactado pelo CM, Hélder Marçal começou por adiantar que não se lembrava do caso, mas manifestou-se disposto a voltar a receber Filipa Emídio: “Ela que venha falar comigo. Se não nos for possível arranjar-lhe emprego em Vila de Rei, tentaremos colocá-la numa das nossas unidades hoteleiras da região”.
Já Ricardo Aires, vice-presidente da C.M. de Vila de Rei, aconselhou Filipa Emídio a enviar o currículo para a autarquia. “Nós, depois, fazêmo-lo chegar aos empregadores/empresários da região Mas ela também terá de inscrever-se no Centro de Emprego.”
DESEMPREGO PREOCUPA
Entre as 30 pessoas que assistiram ontem à manifestação do PNR e da FN em Vila de Rei, a maioria disse ao CM que estava de acordo com o facto de os portugueses deverem ser “preteridos” em relação aos estrangeiros, na “questão dos empregos”. Mas, alguns, como Tobias Serras, de 73 anos, reformado, fez questão de notar, que Portugal “sempre foi um país de emigrantes”. “E estive 23 anos na Alemanha e sempre fui bem tratado. Neste caso dos brasileiros, acho que isto [manifestação], não tem qualquer razão de ser”.
Já Manuel Gaspar, 56 anos, “reformado da Junta Autónoma das Estradas”, defendeu que a autarquia devia começar por dar emprego aos vilarregenses, “em vez de apostar nos brasileiros”. “Eu sei bem que, em Vila de Rei, são poucos os jovens que estão dispostos a trabalhar muito por 400 euros ao mês. Por isso, compreendo que fossem buscar pessoas a outras terras.”
BRASILEIROS
As oito pessoas que a presidente da C.M. de Vila de Rei, Irene Barata, foi buscar ao Brasil decidiram não assistir à manifestação. “Pensámos ir, mas poderiam encarar isso como uma provocação”, disse ao CM Cecília Fraga, jornalista, que na próxima semana começa a trabalhar na Albergaria D. Diniz.
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