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Correio da Manhã

Portugal
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Vila piscatória chora e reza por um milagre

Nove pescadores desaparecidos ao largo dos Açores
19 de Março de 2011 às 00:30
Vasco Presa, presidente da Associação de Pescadores de Vila Praia de Âncora, tem esperança que os amigos estejam vivos
Vasco Presa, presidente da Associação de Pescadores de Vila Praia de Âncora, tem esperança que os amigos estejam vivos FOTO: Joana Neves Correia

"Não. Eles não estão mortos, não pode ser. Eles vão voltar". As palavras eram ontem repetidamente proferidas num misto de desespero e esperança pelo filho de Manuel Maciel, um dos nove pescadores (seis de Vila Praia de Âncora e três indonésios) que andavam à pesca do espadarte ao largo da ilha das Flores, nos Açores, e que ontem estavam incontactáveis há mais de 24 horas. Juntamente com Manuel, de 51 anos, seguiam, no pesqueiro ‘Ana da Quinta’, Alexandre, Alcindo, o mestre José Alves, Vasco e Amadeu, todos com idades entre os 40 e os 50 anos.

A Marinha Portuguesa realizou buscas durante todo o dia de ontem. "Ao início da noite foram encontrados destroços que parecem pertencer ao casco de um navio, mas não há nenhuma identificação", disse ao CM o porta-voz da Marinha, comandante Santos Fernandes.

"Eles foram de Vigo para os Açores há quinze dias. Iam ficar lá mais uma semana. Era normal ficarmos muitos dias sem falarmos", explicou o filho de Manuel Maciel, que é também pai de uma rapariga.

Os pescadores portugueses trabalhavam há já sete anos nos Açores, mas os tripulantes da Indonésia juntaram-se ao grupo há apenas três anos. Também ao largo da ilha das Flores estavam outros dois barcos que pertenciam ao mesmo armador, António Cunha. A última vez que o homem falou com os tripulantes foi anteontem ao final da noite. Desde então estão incomunicáveis. "É muito estranho eles ficarem sem comunicações. Tinham muitas formas de contactar alguém se precisassem de ajuda. Estamos a ficar desesperados, pode ter acontecido muita coisa", contou ao CM Vasco Presa, presidente da Associação de Pescadores de Vila Praia de Âncora.

Os pescadores trabalhavam mais de 18 horas por dia. Descarregavam o peixe e depois ficavam apenas um dia em casa. O mestre José esteve recentemente doente com uma pneumonia e ficou dois meses em terra. Recuperou há algumas semanas e esta tinha sido a primeira vez que voltou ao mar.

FAMÍLIA APENAS SOUBE NOTÍCIA PELA INTERNET

Os familiares dos pescadores apenas souberam que os tripulantes do barco estavam incontactáveis pela internet. O armador do pesqueiro não teve coragem de avisar a família e tinha esperança de que a qualquer momento fosse ter notícias dos colegas. "Uma vizinha viu na internet e contou à minha mãe. Ela entrou logo em desespero", contou o filho de Manuel.

COLEGAS AJUDAM NAS BUSCAS

Os colegas dos nove desaparecidos que trabalhavam em outros dois barcos também ao largo da ilha das Flores vão ajudar a Marinha nas buscas para encontrar os pescadores. "O meu filho já falou com os tripulantes dos outros dois barcos. Vão deixar o trabalho que estavam a fazer e vão percorrer todo o mar à procura dos colegas. Eles estão cheios de medo que tenha acontecido uma tragédia", contou ao CM o pai de António Cunha, dono dos três barcos.

 

PESCADORES DESAPARECIDOS NÁUFRAGO AÇORES VILA PRAIA DA ÂNCORA
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