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Correio da Manhã

Portugal
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Violada espera 12 horas por exame

O violador esperava no escuro, com uma faca na mão. Passava pouco das 19h00 de anteontem, e ‘Maria’ (nome fictício), de 17 anos, entrou despreocupadamente no prédio onde reside, no bairro lisboeta de Telheiras. Foi a oportunidade esperada pelo criminoso que, com a arma encostada ao pescoço da vítima, a obrigou a subir ao terraço do prédio.
20 de Agosto de 2009 às 00:30
O pai da vítima de 17 anos nem acreditava ao ser informado no Hospital de Santa Maria que a filha não podia tomar banho até ao dia seguinte. Tudo porque o Instituto de Medicina Legal está fechado à noite em Agosto, por falta de médicos.
O pai da vítima de 17 anos nem acreditava ao ser informado no Hospital de Santa Maria que a filha não podia tomar banho até ao dia seguinte. Tudo porque o Instituto de Medicina Legal está fechado à noite em Agosto, por falta de médicos. FOTO: Pedro Catarino

Não houve testemunhas do terror de ‘Maria’. Sem poder pedir socorro, a jovem terá sido obrigada a fazer sexo oral ao violador. Pouco se sabe sobre o criminoso. É branco, aparenta 20 a 30 anos. Ao que o CM apurou junto de fonte policial, a relação sexual não terá incluído a penetração.

Consumada a violação, o agressor obrigou a jovem a regressar ao hall de entrada do prédio. Sempre com a faca encostada ao pescoço, ‘Maria’ teve de retirar a bateria do telemóvel pessoal e colocá-la dentro de uma caixa do correio. O criminoso fugiu a pé.

Em pânico a rapariga de 17 anos conseguiu, pelos próprios meios, alertar os familiares.

O pai conduziu-a ao Hospital de Santa Maria, onde recebeu assistência no Serviço de Urgências. À semelhança do que acontece com todas as vítimas de crimes sexuais, a jovem foi informada de que teria de se submeter a exames ginecológicos e outros para confirmar o crime. Começou aí outro drama.

'Informaram-nos de que só no Instituto de Medicina Legal (IML) é que se fazem estes exames, mas que em Agosto o mesmo tinha as urgências fechadas das 18h00 às 08h00', disse o pai de ‘Maria’, em entrevista à SIC. Declarando-se incapazes perante a lei de efectuar a recolha de vestígios vaginais, os técnicos das urgências do Hospital de Santa Maria recomendaram à jovem que não 'tomasse banho, não bebesse água e voltasse ao IML 12 horas depois'. 'Ouvi isto como se dissessem que a PSP ou os bombeiros fecham à noite', disse o pai.

A vítima só pôde efectuar os testes ontem de manhã.

DISCURSO DIRECTO

'SÓ TEMOS TRÊS MÉDICOS': Duarte Nuno Vieira, Pres. Inst. Medicina Legal

Correio da Manhã – Porque é que uma jovem vítima de violação tem de esperar 12 horas para ser examinada?

Duarte Vieira – Os hospitais, as polícias e as autoridades judiciais sabem que o Instituto de Medicina Legal de Lisboa só tem três médicos para trabalhar à noite.

– E porque é que isso acontece?

A falta de pessoal obrigou-nos a ter urgências à noite só entre 6. ª feira e domingo. Nos restantes quatro dias, trabalhamos entre as 08h00 e as 18h00. O Hospital de Sta. Maria informou a jovem deste cenário e explicou-lhe os procedimentos que deveria adoptar.

PORMENORES

MELHORAR SERVIÇOS

A ministra da Saúde, Ana Jorge, admitiu a necessidade de articular os serviços de saúde e os de medicina legal.

MAIS 32 ESPECIALISTAS

O Ministério da Justiça diz que o número de especialistas em medicina legal vai duplicar em 2010, com os 32 internos em formação.

SETEMBRO NORMALIZA

O presidente do Instituto de Medicina Legal, Duarte Vieira, garante que a 1 de Setembro a delegação de Lisboa tem o funcionamento normalizado.

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