O homicídio de José Gonçalves, o empresário da noite de Lisboa vítima de uma explosão, continua por esclarecer. A Polícia Judiciária aposta em várias teses, mas parece cada vez menos provável tratar-se de um ajuste de contas relacionado com o depoimento previsível do patrão do Avião no julgamento do caso Passerelle, que continua a decorrer em Leiria.
O CM apurou que, em causa, pode mesmo estar um conflito passional, com contornos estranhos, não sendo líquido para a Judiciária que as duas mulheres que acompanhavam o empresário estivessem no carro aquando da explosão.
Mesmo assim, a PJ está a estudar exaustivamente a tentativa de homicídio ao empresário há dois anos. Nessa altura, José Gonçalves foi recebido por uma chuva de tiros ao chegar a casa, numa noite de Julho, e das doze balas só três o atingiram numa perna. O empresário da noite apontou à PJ o sócio como mandante do crime – mas nunca houve provas para prender Jorge Chaves.
A investigação à tentativa de homicídio em Odivelas foi inconclusiva – os dois atiradores nunca chegaram a ser encontrados. Mas José Gonçalves apresentou outra queixa-crime contra o ex-amigo, com quem ainda mantinha a sociedade no Show Girls de Ponta Delgada, nos Açores. O também patrão do Avião, em Lisboa, não via Jorge Chaves desde 2003.
Antes do primeiro atentado já Gonçalves apresentava outra queixa contra o sócio, mas por abuso de confiança. Acusava então Jorge Chaves de se ter apropriado ilicitamente de cerca de 15 mil euros. Tudo isto foi, em 2006, relatado pela vítima aos inspectores da Direcção Central de Combate ao Banditismo. No julgamento que está a decorrer em Leiria, Chaves responde por associação criminosa e auxílio à imigração ilegal – e Gonçalves estava arrolado como testemunha de acusação.
O CM sabe que o patrão do Avião e CineBolso descreveu à PJ todos os conflitos que mantinha com o sócio – muitos dos quais estão relacionados com a colocação de bailarinas nas diferentes casas de striptease. As primeiras a chegar aos Açores tinham origem no negócio do Avião.
Entretanto, no Porto, a investigação às mortes no mundo da noite continuam a cargo da Polícia Judiciária.
Ontem, ainda não tinha sido feita qualquer detenção, sendo que os principais suspeitos, já identificados, continuavam a monte. Tratam-se de jovens pertencentes ao grupo conhecido como o da ‘Ribeira’ e serão responsáveis pela morte de Aurélio Palha, em Agosto, e de Ilídio Correia, na semana passada.
AMIGOS PROTEGEM FAMÍLIA NO VELÓRIO
A família de José Gonçalves manteve ontem o silêncio que a tem caracterizado desde o atentado da madrugada de domingo. À porta do Instituto Nacional de Medicina Legal – após o levantamento do corpo – nenhum dos filhos quis prestar declarações sobre o caso. A viúva foi auxiliada por uma amiga a entrar rapidamente num veículo para não ter de confrontar a imprensa.
Na capela de Odivelas, onde o corpo foi velado durante a noite de ontem, o cenário foi semelhante. Aliás, amigos próximos impediram o acesso ao espaço a pessoas estranhas e não quiseram prestar declarações.
Da mesma forma, sabe o CM, a família requisitou à vereadora da Câmara Municipal de Lisboa responsável pelos cemitérios que não autorizasse a imprensa a estar presente na cerimónia fúnebre que se realiza hoje.
Também os amigos do tempo em que José Gonçalves era militar que estiveram presentes no velório recusaram--se a tecer comentários sobre o atentado, preferindo recordar os momentos de confraternização.
AUTÓPSIA
A autópsia ao corpo de José Gonçalves foi realizada ontem de manhã, tendo o corpo sido libertado às 12h30 e levantado pela família às 16h00. No Instituto de Medicina Legal estiveram ainda dois peritos do Laboratório de Polícia Científica.
A PROCURADORA
A investigação ao atentado à bomba que no domingo levou à morte de José Gonçalves, patrão do strip em Lisboa, está a ser coordenada por Cândida Vilar – a mesma procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal que nos últimos meses acusou 36 skinheads por dezenas de crimes.
PGR PREOCUPADO
O procurador-geral da República, Pinto Monteiro, manifestou-se ontem “preocupado” com a forma “mais profissional” como se têm vindo a cometer crimes violentos em Portugal, em alusão à morte de José Gonçalves.
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