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Correio da Manhã

Portugal
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Viúvas ainda por indemnizar

Faz hoje um ano que quatro bombeiros da Companhia de Sapadores de Coimbra morreram num fogo florestal em Mortágua. Três deles eram casados. As viúvas estão a ponderar faltar à homenagem oficial, no próximo sábado, em protesto pela forma como têm sido tratadas: sentem-se esquecidas e ainda não receberam a totalidade das indemnizações a que têm direito.
28 de Fevereiro de 2006 às 00:00
Segundo apurou o CM, o seguro de vida, fixado em 75 mil euros para cada família, não saiu do papel. A seguradora alega que não pode desbloquear a verba enquanto o Tribunal de Mortágua não emitir o auto de ocorrência relativo aos acontecimentos de 28 de Fevereiro de 2004, no lugar de Vale de Paredes.
Um ano depois, continuam por pagar os funerais dos quatro bombeiros e duas viúvas já foram contactadas pelas agências funerárias para assumirem a dívida. A Câmara Municipal de Coimbra sempre garantiu que pagaria as despesas, mas isso não aconteceu até agora.
A indignação das viúvas prende-se também com a falta de aconselhamento jurídico, com o acompanhamento psicológico que consideram insuficiente e com a não criação de um grupo de trabalho para as apoiar, que tinha sido prometido pela autarquia após o acidente. As mulheres contrataram um advogado para gerir o processo, cujos honorários estão a suportar.
Os pais de Luís Miguel Teixeira, de 24 anos, que vivia em Semide, dão voz a estas críticas: “Só na primeira semana é que cá vieram e depois não voltaram a dizer nada. O que nos tem valido são os nossos médicos e familiares”, afirmou ontem a mãe, Maria Reis.
O outro seguro a que têm direito os familiares de José Ferreira Lapa (43 anos, casado, deixou uma filha de 18 anos), Adelino Oliveira (43 anos, casado, deixou duas filhas, de 9 e 18 anos), Luís Miguel Teixeira (24 anos, casado, sem filhos) e Acácio Silva (28 anos, solteiro) só começou a ser pago no mês passado. É a indemnização por acidentes de trabalho, cujo valor depende dos anos de serviço e categoria profissional.
De acordo com a legislação em vigor, os filhos dos bombeiros mortos pelo fogo em Mortágua têm direito a bolsas de estudo, que vêm recebendo desde Maio do ano passado. A mensalidade equivale a 25 por cento do salário mínimo até ao 9.º ano de escolaridade, sobe depois para 50 por cento durante o secundário e fixa-se em 100 por cento durante o ensino superior.
A actual situação financeira das viúvas é difícil, o que sustenta os argumentos de Fernando Curto, da Associação de Bombeiros Profissionais, que vem defendendo uma revisão das indemnizações a atribuir às famílias em caso de tragédia, de modo a garantir-lhes a subsistência nas mesmas condições.
FAMILIARES MARCADOS PARA SEMPRE
- Luís Miguel Teixeira, de 24 anos, era casado, sem filhos, e vivia com os pais em Semide, no concelho de Miranda do Corvo. Seguia as pisadas do pai, que esteve 26 anos nos Sapadores de Coimbra. “Cada dia sentimos mais a falta dele”, afirmou ontem a mãe, Maria Reis.
- Acácio Silva, de 28 anos, residia em Rio de Galinhas, Almalaguês, Coimbra. Era solteiro. Um ano depois, os pais ainda cedem às lágrimas quando falam dele. Acácio (pai) e Maria Manuela (mãe) elogiam o apoio prestado pela Câmara de Coimbra.
- José Ferreira Lapa, de 43 anos, deixou viúva e uma filha de 18 anos, que continuam a morar na casa de Almalaguês. Cidália, a esposa, viu-se de um dia para o outro totalmente dependente do salário de funcionária do Hospital Pediátrico de Coimbra.
- O comandante do grupo atraiçoado pelo fogo era Adelino Oliveira, de 43 anos. Também vivia em Almalaguês. Deixou duas filhas, hoje com 10 e 19 anos. Graça, a viúva, é funcionária hospitalar. A conclusão das obras na casa onde vivem ficou suspensa.
MEMÓRIA
HOMENAGENS
Realiza-se hoje, pelas 10h00, na Igreja de Almalaguês, uma missa em memória dos sapadores falecidos há um ano. Três deles residiam naquela freguesia de Coimbra. À tarde, alguns amigos colocam uma lápide no local da tragédia. A homenagem institucional realiza-se no sábado no quartel dos Sapadores de Coimbra.
INQUÉRITO
O carro em que seguiam cinco sapadores de Coimbra - um deles sobreviveu com queimaduras nas pernas - foi tomado pelo fogo no lugar de Vale de Paredes, Mortágua. Eram 15h30. A causa, segundo o inquérito realizado, foi o ‘efeito chaminé’ resultante das condições climatéricas (vento forte e irregular) e geográficas (encostas íngremes). O posicionamento da viatura revelou-se inadequado. Três bombeiros foram encontrados dentro do carro e outro no exterior.
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