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Correio da Manhã

Portugal
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Vizinhos disputam cão em Tribunal

Quando há mais de cinco anos um rafeiro apareceu à porta do café do Bairro da Cooperativa 11 de Outubro, em S. João da Madeira, ninguém imaginava que seria motivo para dois vizinhos amigos acabarem a disputá-lo em Tribunal.
16 de Abril de 2006 às 00:00
 Felisberto e a mulher, Laurinda Miranda, morrem de saudades do seu ‘Escova’
Felisberto e a mulher, Laurinda Miranda, morrem de saudades do seu ‘Escova’ FOTO: Antonio Manuel Rodrigues
Naquele dia já distante, o rafeiro chegou ao café, escolheu uma cadeira e deitou-se. Felisberto Miranda, um cliente invisual do café, pediu ao proprietário que deixasse o cão dormir lá. E assim foi.
Felisberto chamou-lhe ‘Escova’ e foi-se afeiçoando a ele. Como ninguém reclamava o cão, a vizinha Ana Almeida sugeriu ao invisual que ficasse com ele. Felisberto e a mulher, Laurinda, aceitaram a sugestão e o ‘Escova’ ganhou uma família. “É muito inteligente, bastava pegar no boletim do totoloto que vinha logo a correr e levava-me ao quiosque para o registar.”
Sempre que Felisberto e a mulher se ausentavam, a vizinha tomava conta do ‘Escova’. Em Abril de 2004, a mulher de Felisberto foi internada com um problema de saúde e teve uma convalescença de alguns meses. “O ‘Escova’ passou a dormir em casa da Ana Maria. Ela ofereceu-se e eu agradeci.”
Quando a mulher ficou boa, a vizinha arranjou desculpas para não devolver o cão, até que o fechou em casa. Começou aí a batalha na Justiça – Felisberto apresentou queixa contra Ana Almeida por abuso de confiança.
Ao Tribunal levou testemunhas e registos veterinários do ‘Escova’. Mas a juíza absolveu Ana Almeida, que, já com o processo a decorrer, registou o rafeiro, chamando-lhe ‘Kikas’. Segundo o acórdão, ficou provado que Felisberto tinha o cão registado com o nome de ‘Escova’, alimentando-o e passeando-o. Ficou por provar que o queixoso tivesse acolhido o cachorro há cinco anos e que houvesse uma combinação entre os vizinhos para que o ‘Escova’ continuasse a pertencer a Felisberto.
Segundo o Tribunal, para que Felisberto pudesse dizer que era dono do ‘Escova’, quando o encontrou “impunha-se, pelo modo mais conveniente, que houvesse anunciado o achado”.
“O cão, perante isto, não é de ninguém, mas ficou com a Ana Almeida”, desabafa Felisberto. Por isso admite recorrer da sentença.
O CM tentou falar com Ana Almeida, mas o marido, que na altura passeava o cão, respondeu que ninguém iria falar para os jornais.
O 'ESCOVA' NA VIDA DE FELISBERTO MIRANDA
- ‘Escova’ foi o nome dado ao rafeiro por ser muito carinhoso e andar sempre a “dar graxa.”
- O ‘Escova’ participou nas campanhas eleitorais do PS de S. João da Madeira e sempre que passava pela sede não resistia e entrava.
- Há cerca de quatro anos, Felisberto e a mulher caíram inanimados, vítimas de intoxicação por gás. Foi o ‘Escova’ que chamou os vizinhos e lhes salvou a vida.
- Ainda hoje Felisberto e a mulher conservam a “cama” do ‘Escova’ na sua casa. Atrás da porta da rua ainda está também a trela, à espera que um dia o pequeno rafeiro volte a viver com eles.
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