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Correio da Manhã

Portugal
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Zona Centro sob inferno de chamas

Um imenso manto negro cobriu ontem o concelho de Mangualde, devido a um incêndio florestal de grandes dimensões, que deflagrou à hora do almoço em Contenças de Baixo e avançou para Abrunhosa-a-Velha, obrigando ao corte da linha-férrea da Beira Alta. Outro grande incêndio deflagrou ao meio-dia em Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo, atravessou a fronteira, destruiu 300 hectares de mato e um palheiro e causou a evacuação de uma vacaria com 50 animais, do lado português.
20 de Agosto de 2009 às 00:30
Zona Centro sob inferno de chamas
Zona Centro sob inferno de chamas FOTO: Nuno Andre Ferreira/Lusa

Os incêndios não deram descanso aos bombeiros, estimando-se que tenham sido combatidos por dois mil homens. Os distritos de Guarda e Viseu foram os mais atingidos, mas as chamas também se fizeram sentir com intensidade nos distritos de Faro, Castelo Branco, Vila Real e Bragança.

"Ainda não consegui entrar em casa depois de voltar do trabalho, porque estou perto da serra e o fogo vem de lá com muita força", contou ao CM Maria de Fátima, uma das habitantes de Guimarães de Baixo, em Mangualde, uma das povoações próximas do incêndio, antevendo uma "noite de alerta".

"A gente confia nos bombeiros, mas também temos medo, porque a serra tem maus acessos e há por lá muito tojo para arder", explicou a moradora, mantendo o olhar fixo na serra.

"Foi uma tarde infernal, pois o fogo esteve próximo do bairro junto ao campo de futebol", adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Abrunhosa a Velha, Júlio Mendes, que receava a interrupção do abastecimento de água, por ter sido afectada a rede eléctrica que serve os furos hertzianos. A meio da tarde estiveram em risco casas em Santiago de Cassurrães, Aldeia Nova, Santo Amaro, Abrunhosa a Velha e Guimarães de Tavares.

Os bombeiros previam uma noite de muito trabalho, pois as chamas lavravam com intensidade, ajudadas pelo vento forte, responsável por "várias projecções", como explicou o 2º comandante distrital de operações de socorro de Viseu, Henrique Pereira, adiantando que "a falta de limpeza das matas" também prejudicou o combate.

"GOSTO DE VER OS BOMBEIROS"

A Directoria do Centro da Polícia Judiciária anunciou ontem a detenção de um incendiário, suspeito de ter ateado dois fogos florestais na zona de Almalaguês, nos arredores da cidade de Coimbra, nos dias 9 e 16 deste mês. Foi a sétima detenção de incendiários este ano no Centro do País, quase todas nos meses de Verão, sendo que apenas um deles não está em prisão preventiva. Todos os detidos são homens e têm entre 21 e 61 anos. O incendiário detido na segunda-feira mora sozinho e confessou a autoria dos crimes aos inspectores da Judiciária. Disse que "gosta de ver os bombeiros", por ser "um espectáculo que lhe agrada", explicou um responsável da PJ, adiantando que o incendiário acompanhou toda a operação de combate dos bombeiros.

FLORESTA QUEIMADA HÁ SEIS ANOS VOLTOU A SER DESTRUÍDA

A existência de casas isoladas chegou a preocupar os bombeiros, mas a colocação de meios no terreno evitou que qualquer habitação corresse verdadeiro perigo de ser atingida pelo fogo. O primeiro grande incêndio do ano na serra de Monchique levou cinco horas a ser dado como dominado, consumindo mato e floresta de eucaliptos e pinheiros. A PJ investiga as causas do fogo, numa área já destruída há seis anos.

As chamas deflagraram por pelas 15h00, no sítio da Arriqueta, numa altura em que os termómetros indicavam 30 graus de temperatura e em que se fazia sentir algum vento. Rapidamente, as chamas ganharam força, formando duas frentes .

"A zona percorrida por este incêndio já tinha sido consumida pelas chamas em 2003", explicou ao CM o vice-presidente da Câmara de Monchique, António Mira, realçando "a importância dos meios aéreos [dois helicópteros ligeiros, um médio e um pesado] no combate ao fogo", tendo em conta o terreno acidentado.

Além dos meios aéreos, o incêndio foi combatido por 136 operacionais dos corpos de bombeiros do Barlavento, GNR (Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro e Territorial) e Sapadores Florestais da Câmara de Monchique, com 41 veículos e duas máquinas de rasto. As operações de rescaldo continuaram durante a noite. A área ardida é significativa, mas os bombeiros não adiantaram uma estimativa. Este foi o segundo grande incêndio ocorrido na região algarvia este ano. O primeiro deflagrou a 7 deste mês, em São Brás de Alportel.

FOGO ALASTRA A ESPANHA

O fogo que ontem deflagrou em Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo, consumiu 300 hectares de mato em território nacional, antes de entrar em Espanha. No lado espanhol, as chamas continuavam activas ao final do dia e chegaram a ameaçar casas em La Bouza, no Parque Natural de Arribes de Duero. Os cem moradores, na sua maioria idosos, foram retirados e um pastor, em perigo com o seu rebanho, teve de ser resgatado. As pessoas, que entraram em pânico, foram levadas para um pavilhão em Villar del Ciervo, uma povoação situada nas proximidades. Os helicópteros usaram água da barragem portuguesa de Almofala.

PORMENORES

PINHAL DEVASTADO

Os três grandes incêndios que assolaram o distrito de Vila Real, entre terça-feira e ontem, queimaram uma área de 1350 hectares de pinhal e mato.

CALOR INTENSO

O calor intenso, com temperaturas a rondar os 39 graus, e o vento forte dificultaram a acção dos bombeiros envolvidos nos incêndios que atingiram Vila Real.

ESPANHA AJUDOU

Um avião bombardeiro médio da Protecção Civil espanhola ajudou a combater o incêndio que deflagrou em Escarigo, Figueira Castelo Rodrigo, e alastrou a Espanha.

SEM COMBOIOS

A circulação de comboios entre Contenças e Gouveia, na Linha da Beira Alta, foi interrompida pelas 14h40, por causa do incêndio em Mangualde. Foi também cortada a energia eléctrica naquele troço.

NOTAS

AGOSTO: JÁ HOUVE 2243

Nos primeiros 18 dias deste mês registou-se 2243 incêndios. O último sábado, dia 15, foi o pior, com 233 ocorrências. Foi também um dos dias que envolveram mais bombeiros, 3028.

ESTUDO: ADJUNTO INVESTIGA

O adjunto de comando dos Bombeiros Voluntários de Castelo Branco, José Cruz, está a fazer um estudo sobre como o fogo evolui, o comportamento da combustão e suas consequências.

CONTENÇAS: JORGE COELHO

Foi em Contenças de Baixo, onde deflagrou o incêndio que depois avançou para Abrunhosa a Velha, ambas no concelho de Mangualde, onde nasceu o ex-ministro Jorge Coelho.

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