“Era alcoólico e vivia na rua”: Américo conheceu o pai anos após ser abandonado
Tratou do progenitor até à morte. Encontrou um homem alcoólico, sem-abrigo e com o rosto marcado pela vergonha de ter deixado para trás os filhos.
Américo Madeira nasceu poucos dias depois do 25 de Abril de 1974 e chegou ao mundo marcado pela tragédia. A mãe morreu durante o parto e o pai abandonou-o. Cresceu sem os pais, ao lado da irmã, entregues aos cuidados da avó materna, Maria Isabelinha. “A minha mãe terá sofrido um problema cerebral e morreu a caminho do hospital”, conta o homem de 52 anos. O pai, por sua vez, desapareceu. “Ganhou a lotaria, levantou o dinheiro, ficou em Lisboa e nunca mais voltou”, acrescenta.
Foi a avó que assumiu o papel de mãe. Não lhe faltou o essencial, mas a infância ficou marcada pela culpa. “Mataste a minha filha querida”, ouviu durante vários anos. Hoje, já adulto, percebe que aquelas palavras vinham da dor de uma mãe que tinha perdido a filha.
Hoje, Américo é pai de três filhos, um deles autista. O primeiro nasceu quando tinha 19 anos. “Questionei-me como é que um pai abandona o filho e quis conhecer o meu.” Procurou-o e encontrou-o muito diferente da imagem que tinha construído. “Era alcoólico e vivia na rua”, recorda. Américo diz que nunca tinha visto alguém sentir tanta vergonha como aquele homem quando o viu. Apesar do passado, escolheu tratá-lo com dignidade. Comprava-lhe o tabaco e manteve o contacto com ele até morrer pouco tempo depois.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt