Arqueólogos descobrem sóis com 6 mil anos gravados em rocha em Alfândega da Fé
Por cima dos "soliformes" foram feitos, mais tarde, na Idade do Ferro, "motivos em u", encontrados também numa outra rocha, conhecida pela população local como a Fraga da Ferradura.
Arqueólogos da Universidade do Minho descobriram uma rocha, no concelho de Alfândega da Fé, com representações do sol, em rasgo, que remetem para 4.000 a.C, e ainda "motivos em u", em picotado, feitos alguns milhares de anos mais tarde.
Esta foi uma das descobertas que resultaram de trabalhos arqueológicos, concluídos na semana passada, desenvolvidos na União das Freguesias de Eucísia, Gouveia e Valverde, ao longo de um mês, por alunos da Universidade do Minho, num protocolo estabelecido com o município de Alfândega da Fé.
Designada por "Olival do Soldado", consiste numa rocha com várias representações do sol gravadas, chamadas "soliformes", que foram feitos de forma incisiva, ou seja, por rasgo.
Em declarações esta segunda-feira à Lusa, a docente e arqueóloga Ana Bettencourt explicou que estas gravuras serão do "quarto ou terceiro milénio a.C", ou seja, nos períodos "Neolítico ou Calcolítico".
No entanto, por cima dos "soliformes" foram feitos, mais tarde, na Idade do Ferro, "motivos em u", encontrados também numa outra rocha, conhecida pela população local como a Fraga da Ferradura.
Nesta pedra, que servia de santuário àqueles povos, já tinham sido identificadas gravuras, feitas em forma de "u", que a população apelida de "ferraduras", mas durante o último mês foi possível descobrir mais cinco painéis, ou seja, paredes cobertas por estes motivos.
De acordo com a arqueóloga, estes motivos, que remetem para 1.000 a.C, início da Idade do Ferro, "não eram gravados ao acaso" e eram feitos em paredes, próximas de cursos de água, viradas para determinados quadrantes do ciclo solar, como "sudeste, sudoeste e nordeste".
Ana Bettencourt entende que a fraga pode ter funcionado como "calendário solar", uma vez que está a nascente poente, ou seja, localização do nascer do sol na primavera e no outono.
"Tudo na arte rupestre, que eram santuários, tinha a ver com o mundo religioso destas populações, tem um sentido, quer o painel escolhido, que é a superfície da rocha, quer a localização exata dos motivos", realçou.
Além dos "motivos em u", que foram feitos através da técnica picotado, com um quartzo e depois polidas para ficarem suaves ao toque, foram ainda encontradas uma espécie de "pegadas" na pedra, que estava praticamente coberta de vegetação.
Quem se deslocasse para ver esta grande rocha encontraria as "pegadas", que evidenciam "todo um cerimonial e uma ritualidade na deslocação" que é "intencional" e que está ligada aos santuários religiosos, visitado por pessoas que tinham o "domínio do sobrenatural e do simbólico".
"Em termos arqueológicos, pela magnitude deste sítio, porque estas rochas sobressaem na paisagem, a rocha em si já devia ter um sentido para as comunidades, então marcaram-na, ou seja, adicionaram novos sentidos. Isto é um santuário e nós vamos conhecendo estes santuários e vamos relacionando com os povoados (...) Para conseguirmos perceber como é que eles se moviam na paisagem e que perceção é que eles tinham na sua paisagem", esclareceu a docente.
Estas gravuras já foram encontradas no noroeste de grande parte de Portugal e na Galiza, Espanha, e agora será feita uma relação entre os diversos santuários.
Noutra aldeia da união das freguesias, em Santa Justa, foram também feitos trabalhos arqueológicos na pedra de Escrita Ride Vides, outro santuário, ao que tudo indica de 2.200 a 1.700 a.C.
Nesta pedra onde estão gravadas armas metálicas, alabardas, que já foram encontradas fisicamente, noutra parte da região transmontana, no concelho de Macedo de Cavaleiros.
"A maneira como as armas estão expostas [na rocha] muitas vezes dá-nos a ideia que simbolizam depósitos, porque muitas dessas armas encontram-se ocultas debaixo de solo, como se fossem oferecidas a qualquer divindade do subsolo", contou a arqueóloga.
Os alunos fizeram a limpeza da rocha, um levantamento 3D e ainda uma escavação arqueológica, que permitiu recolher algum material que será analisado.
Todo o trabalho recolhido e analisado pelos alunos da Universidade do Minho, com a colaboração do Departamento de História universidade do Minho e da Unidade de Arqueologia da Universidade de Minho, será depois disponibilizado ao município de Alfândega da Fé, em texto e impressão 3D, com vista à promoção dos locais.
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