Aulas de literacia financeira levam alunos do ensino profissional a querer estudar mais
Nos últimos cinco anos, mais de 11 mil alunos de 275 escolas portuguesas tiveram aulas de literacia financeira através do projeto "Por tua Conta".
As aulas de literacia financeira já mudaram a vida de muitos alunos do ensino profissional, havendo jovens que decidem prosseguir estudos para conseguir empregos mais bem remunerados, segundo relatos de jovens e professores.
Nos últimos cinco anos, mais de 11 mil alunos de 275 escolas portuguesas tiveram aulas de literacia financeira através do projeto "Por tua Conta", um programa criado em 2021 para reforçar as competências financeiras dos estudantes do ensino profissional.
Nas aulas de literacia financeira aprendem o real valor de um salário, "os impactos dos descontos, as diferenças entre rendimento bruto e líquido, ou as consequências de decisões financeiras ao longo da vida", contou à Lusa Inês Cupertino Abreu, administradora da Fundação António Cupertino de Miranda, que criou o projeto.
Ao calcularem o real valor de um salário, descobrem que com mais estudos poderiam aspirar a ordenados mais elevados e ter mais oportunidades profissionais.
"Muitos destes jovens entram no mercado de trabalho quando ainda vivem em casa dos pais e podem ter a perceção de que um salário mínimo representa muito dinheiro. Só mais tarde percebem o peso real das despesas familiares", constatou à Lusa Inês Cupertino Abreu.
Há alunos que "acabaram por se sentir motivados a prosseguir os estudos", segundo histórias contadas por professores envolvidos neste projeto que já foi implementado em 31 municípios.
O impacto da literacia financeira na vida dos jovens já tinha sido descrito em estudos internacionais, como o PISA (Programme for International Student Assessment), que mostrou que níveis mais elevados de literacia financeira estão associados a maior probabilidade de prosseguimento de estudos.
No caso do projeto "Por Tua Conta", os impactos são visíveis, segundo professores e alunos envolvidos, que apontam melhorias na motivação, participação nas aulas, autonomia e capacidade de planeamento.
No limite, a literacia financeira é uma ferramenta essencial para os alunos conseguirem gerir melhor o seu dinheiro.
Ao abordar temas como o orçamento mensal, crédito, seguros ou prevenção de fraudes financeiras, os estudantes conseguem tomar decisões mais informadas.
"Se forem preparados para compreender o que é necessário e o que é supérfluo, ou para comparar propostas de crédito, estarão mais capacitados para construir uma vida financeira equilibrada", concluiu Inês Cupertino Abreu.
Quatro em cada 10 alunos do ensino secundário frequentam um curso do ensino profissional, segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Na maioria dos casos, vêm de contextos socioeconómicos mais vulneráveis e apresentam trajetórias escolares marcadas por retenções ou desmotivação.
Para Inês Cupertino de Miranda Abreu, esta realidade torna ainda mais relevante a promoção de competências financeiras entre estes jovens.
"Estes alunos tendem a entrar mais cedo no mercado de trabalho e, por isso, vão confrontar-se mais rapidamente com decisões relacionadas com salários, contratos, despesas ou crédito", explicou.
A responsável sublinhou que muitos estudantes optam pelo ensino profissional precisamente porque procuram uma integração mais rápida na vida ativa, preferindo metodologias de aprendizagem mais práticas.
A promoção da literacia financeira nas escolas tem também sido uma prioridade das políticas públicas. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação integra esta temática no Referencial de Educação Financeira, desenvolvido em parceria com o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, que orienta as escolas na abordagem de temas como orçamento familiar, poupança, crédito, impostos ou prevenção de fraudes.
A ideia é permitir que os alunos desenvolvam competências para tomar decisões financeiras responsáveis ao longo da vida, sendo aplicado de forma transversal em diferentes disciplinas e níveis de ensino.
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