Coordenador da Rádio Aurora critica falta de apoios e modelo assente na medicalização

Rádio é feita com pessoas com historial psiquiátrico.

21 de fevereiro de 2026 às 09:12
Coordenador da Rádio Aurora critica falta de apoios e modelo assente na medicalização Foto: Manuel de Almeida / Lusa
Coordenador da Rádio Aurora critica falta de apoios e modelo assente na medicalização Foto: Manuel de Almeida / Lusa
Coordenador da Rádio Aurora critica falta de apoios e modelo assente na medicalização Foto: Manuel de Almeida / Lusa

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O coordenador da Rádio Aurora – A Outra Voz, feita por pessoas com historial psiquiátrico, critica a falta de apoios e o modelo dominante na saúde mental, que privilegia a medicalização em vez de ouvir quem vive com a doença.

"O que está a acontecer aqui é um programa de luta contra o estigma, de que hoje em dia se fala bastante", mas contra o qual "não se luta (...) da mesma maneira", disse Nuno Faleiro Silva à agência Lusa, no final da gravação de mais um programa no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

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O psicólogo, que trabalha na Unidade de Reabilitação Psicossocial da ULS São José, que inclui o Hospital Júlio de Matos, salientou que "ter um póster financiado por uma farmacêutica que descreve uma doença, de acordo com os princípios da indústria farmacêutica, não é a mesma coisa do que ter uma metodologia de contacto direto em que são os próprios pacientes a falar sobre o que vivem na primeira pessoa".

"Interessa-nos a primeira pessoa, interessa-nos não o discurso sobre eles, mas o discurso com eles e deles", defendeu Nuno Faleiro da Silva, um dos fundadores da rádio, que nasceu a 06 de março de 2019 no Hospital Miguel Bombarda, inspirada noutras rádios que existem na Europa e na América do Sul.

O coordenador do programa, cujo objetivo principal é combater o estigma e a discriminação na saúde mental, lamenta que a rádio não tenha um espaço próprio para acolher as duas reuniões semanais.

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"Montamos e desmontamos o dispositivo e gostaríamos muito de ter um espaço próprio e, eventualmente, um estúdio móvel. Portanto, vamos fazendo rádio onde nos é permitido", desabafou.

Segundo Nuno Faleiro Silva, o programa já chegou a ser realizado no exterior, a partir de um carro, com o material disponível e com muito menos participantes do que seria desejável.

"O programa obedece aos princípios mais eficazes de luta contra o estigma, mas infelizmente não tem os apoios suficientes do Plano Nacional de Saúde Mental", lamentou.

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Sobre o investimento na área da saúde mental em Portugal, afirmou que há um canalizar dos fundos para um modelo bioquímico de entendimento do sofrimento humano, defendendo que esta não deve ser a única forma de compreender a realidade.

Apontou que em muitos dispositivos, a saúde mental continua a ser o 'parente pobre': "Há pessoas sem acesso a casa ou rendimentos dignos, mas o aumento do custo com as medicações é enorme".

"Existe um grande investimento na medicalização de grande parte da população, o consumo de psicofármacos é de facto incrível. Por outro lado, há um desinvestimento das formas de sofrimento mais severas", criticou.

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Segundo o coordenador, as pessoas com "problemas muito sérios" de saúde mental não sentem melhorias nos apoios disponibilizados.

Vários locutores da rádio disseram no programa sentir-se invisíveis. Nuno Silva disse haver muitos exemplos desta situação "quer fora, quer dentro das instituições psiquiátricas", onde também por vezes a voz dos utentes não é valorizada.

"Houve aqui queixas a vários níveis, mas se formos falar com quem decide estas políticas e estas questões, tudo está centrado numa lógica médica. E, de facto, as pessoas estão a falar de outras necessidades, de outras carências que os afetam muitíssimo, e não são ouvidas nisso", lamentou.

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"É uma lógica toxicodependente", insistiu, concluindo: "Insiste-se na mesma solução, em limpar a água do chão e não fechar a torneira. E isto é uma despesa imensa para nós como comunidade humana, que põe de lado pessoas que têm um valor inestimável e que fazem de nós uma comunidade heterogénea, humana".

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