Coração trai bebés siameses angolanos

Os bebés siameses angolanos, Luís e Bernardo, de apenas dois meses, que estavam internados no Hospital D. Estefânia, em Lisboa, não podem ser separados, pois partilham o mesmo coração e o fígado, informou ontem o Conselho Científico daquela unidade de Saúde.

19 de outubro de 2010 às 00:30
Siameses, Angola, Operação Foto: direitos reservados
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Os médicos que analisaram os exames deram-lhes, assim, poucos meses de vida. Um diagnóstico inesperado para a mãe, Clementina Daniel, de 25 anos, uma camponesa angolana que viajou na semana passada de Angola para Portugal com a esperança de salvar a vida dos filhos.

Segundo o cirurgião pediatra Gentil Martins, o problema dos bebés é a partilha do coração. "Se fosse só o fígado e os intestinos, não haveria problema, porque já foi feita a separação nestas condições e os bebés sobreviveram", explica, acrescentando que "não se pode separar um coração e o mais certo é sofrerem de uma insuficiência cardíaca". Gentil Martins não deixa, porém, de estranhar que só se tenha dado conta em Lisboa de que os bebés partilhavam o coração e o fígado. "É algo que dá para ver com uma radiografia simples", diz.

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Francisco Domingos, médico angolano que acompanhou a mãe e os siameses, garantiu ao CM que não foi mesmo possível ver que os bebés partilhavam o coração e o fígado. Lamentou o fracasso da esperança que trazia e disse que Clementina, a mãe, ficou muito abalada ao saber que não será possível separar os dois bebés. O regresso a Angola está marcado para amanhã. Os siameses ficarão internados no Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino.

FALTA DE MEIOS PARA FAZER ECOGRAFIAS

Luís e Bernardo, os dois bebés siameses, nasceram em 15 de Agosto no Kwanza-Sul. A mãe, Clementina Daniel, só soube que tinha dois bebés, e siameses, no momento do nascimento. Chorou e assustou-se, contou ao CM o médico angolano Francisco Domingos, sublinhando que Clementina não sabia que os bebés podiam "nascer colados". Segundo o médico, pesa o facto de Clementina viver numa aldeia, a mais de 300 quilómetros de Luanda, onde não existe uma única unidade de Saúde, e de ter sido seguida no Hospital do Sumbe, onde não há um serviço de ecografias pré-natais. Os bebés alimentam-se bem, mas o seu estado de saúde é delicado. Podem sucumbir perante uma insuficiência cardíaca, uma vez que partilham o mesmo coração.

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SEPAROU SETE PARES DE GÉMEOS

O pediatra e cirurgião António Gentil Martins já separou sete pares de gémeos siameses. Um dos casos mais difíceis com que se deparou foi a última dupla que operou, em 1999. José e João, bebés moçambicanos, chegaram às suas mãos unidos pela região pélvica e abdominal e com um só pénis. No fim da cirurgia, eram José e Helena. "É a Natureza que nos diz se podemos ou não fazer", resume o especialista. Das sete duplas que o cirurgião separou, uma estava ligada pela cabeça. Eram duas cabeças num só corpo. "Só foi possível operar quando um dos bebés faleceu", explicou, acrescentando que ainda se tentou salvar o que sobreviveu, mas tal não foi possível. Gentil Martins teve ainda a experiência de ter contactado com três duplas de gémeos com um coração comum. "Nesses casos, como é o caso dos bebés angolanos, infelizmente, não há nada a fazer. A Medicina ainda tem limites".

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