D. Dinis, um novo rosto, a velha história. Quem foi o ‘rei lavrador’?

“Crânio bem preservado” permitiu a construção científica do novo busto do monarca que tinha olhos azuis.

08 de janeiro de 2025 às 18:06
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Para assinalar os 700 anos da morte do rei D. Dinis, foi apresentada a reconstituição científica do seu rosto, no Mosteiro de Odivelas. Mas quem era Dinis, o ‘rei lavrador’, por detrás da face? 

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 “O rei D. Dinis tinha olhos azuis, pele e cabelo claros e não era um homem alto. Teria entre 1,65m e 1,68m”, anunciou a antropóloga forense Eugénia Cunha, na cerimónia onde o busto foi revelado. 

O Projeto de Conservação e Restauro do Túmulo de D. Dinis, que permitiu o estudo forense para a reconstrução facial, começou em 2016, em parceria com a Câmara Municipal de Odivelas. “Trata-se da primeira imagem cientificamente fundamentada de um monarca português da primeira dinastia, que o retrata no final de vida”, realça o instituto Património Cultural.

A investigação foi levada a cabo no Mosteiro de Odivelas, onde D. Dinis escolheu ser sepultado. 

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FOTO: Vítor Chi
Reconstrução científica do rosto de D. Dinis
FOTO: Vítor Chi
Reconstrução científica do rosto de D. Dinis
FOTO: Vítor Chi
Reconstrução científica do rosto de D. Dinis
FOTO: Vítor Chi
Reconstrução científica do rosto de D. Dinis

Mostra-me os teus marcadores genéticos, dir-te-ei como és 

O processo de reconstituição foi longo. O túmulo de D. Dinis esteve aberto, entre 2019 e 2023, para extração dos restos mortais, que foram envoltos em tecidos de linho e posicionados de modo a respeitar o esqueleto humano. “Por cima, foi colocada uma cápsula de acrílico e ao lado uma caixa com pequenos fragmentos ósseos”, pode ler-se no site do instituto Património Cultural. Assim, futuras investigações podem ocorrer sem voltar a abrir a arca tumular. 

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O trabalho científico foi continuado no FaceLab da Universidade de Liverpool, um grupo de pesquisa com foco na análise e reconstituição facial computorizada, com recurso a uma TAC realizada ao crânio do rei.  

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FOTO: Face Lab da Liverpool John Moores University
Trabalho do Face Lab Liverpool

Através de “um crânio bem preservado, com todos os ossos presentes, incluindo os nasais”, foi possível perceber, entre outras curiosidades, que D. Dinis “tinha todos os dentes à idade da sua morte e só uma cárie", esclareceu a coordenadora do projeto. Outros marcadores genéticos, como a raiz de um dente, fragmentos da falange e do fémur, ajudaram os cientistas a descobrir as tonalidades da pele, dos olhos e do cabelo do rei. 

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Os olhos claros do rei surpreenderam, uma vez que os retratos que existem o representam com olhos em tons de castanho. Por sua vez, também os cabelos ruivos e claros contrastam com o castanho-escuro das pinturas. 

O rei por detrás do rosto 3D  

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D. Dinis, O Lavrador, O Rei Poeta – muitos nomes caracterizam a figura histórica portuguesa que reinou durante 43 anos, numa época de importantes reformas políticas e administrativas, que se mantêm até aos dias de hoje. Com destaque para a valorização da cultura e literatura, paixão que materializou através da escrita de vários versos.

Vamos recuar até 1261. D. Afonso III, casado com D. Beatriz de Castela, tem um filho varão, ou seja, herdeiro ao trono, ao qual deram o nome de Dinis. Devido à saúde frágil do pai, Dinis começou desde cedo a ser preparado para assumir o título de monarca. E aos 18 anos torna-se Rei de Portugal, dando início a um dos reinados mais relevantes da história do País.  

Portugal era um reino estável. Ainda assim o Rei Poeta encontrou algumas dificuldades. Desentendimentos entre o clero e o rei anterior levaram a uma interdição da Santa Sé, em Roma, desde 1267. D. Dinis herdou um reino onde era proibido realizar casamentos pela Igreja e, até mesmo, celebrar missas. As negociações foram longas e complicadas. Contudo, a boa vontade do rei levou o Papa Nicolau IV a pôr fim à situação, em 1290. Isso e as generosas doações e concessão de privilégios a instituições religiosas, como a Ordem da Santíssima Trindade.  

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E tod’est’ El quis que eu padecesse
Por muito mal que me lh’eu mereci,
E de tal guisa se vingou de mi

Cantiga de Amor da autoria de D. Dinis

D. Dinis também enfrentou problemas internos com a nobreza, principalmente com o seu irmão, o Infante D. Afonso que desafiava continuamente a autoridade régia. O filho bastardo de D. Afonso III desejava subir ao trono, pelo que contestou, sem sucesso, a legitimidade do reinado do irmão. Para evitar os abusos da classe alta, o rei revogou todas as doações feitas e mandou fazer inquirições gerais, contribuindo para o controlo da posse de terras pelos nobres e para o conhecimento do património régio. 

Vós mi defendestes, senhor,
Que nunca vos dissesse rem
De quanto mal mi por vós vem

Cantiga de Amor da autoria de D. Dinis

Pelos caminhos de Portugal 

Passaram 700 anos desde a morte de D. Dinis e também desde a definição da fronteira portuguesa, consolidada no Tratado de Alcanizes. Naquele dia de setembro, na vila de Alcanizes, a dois quilómetros da fronteira de Trás-os-Montes, o nosso monarca colocou em prática a estratégia diplomática e defensiva.  

O Tratado, assinado com o rei de Castela Fernando IV, procurava resolver focos de conflito com o reino vizinho. Após a cedência de ambas as partes, chegou-se a um acordo cujos traços essenciais se mantêm até à atualidade, salvo algumas exceções, como Olivença. Hoje, Portugal pode gabar-se de possuir os limites fronteiriços mais antigos da Europa, com mais de sete séculos de história. 

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D. Dinis revelou ao longo do seu reinado bastante interesse em conhecer o País. Fez várias viagens para aprender mais sobre as várias regiões do reino. Após Alcanizes, a preocupação do rei passou pela fixação de população nas zonas fronteiriças. 

Por todo o reino, o Lavrador apoiou o cultivo e a exploração de terras. Atribuiu privilégios a quem as quisesse trabalhar e mandou drenar zonas alagadiças para criar terras aráveis. Mas ficou mais conhecido pelo pinhal de Leiria ou pinhal do Rei. Os primeiros pinheiros foram plantados em reinados anteriores, porém Dinis foi o seu principal impulsionador. Em vez de plantar pinheiros mansos, plantou pinheiros-bravos, dado que crescem mais rápido. 

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FOTO: Câmara Municipal de Odivelas
Espada de D. Dinis, que se pensava desaparecida, foi retirada do túmulo do rei em 2022
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Cantigas de amigo, cantigas de amor e cantigas do Rei Trovador 

O reinado de D. Dinis apoiou o setor cultural, desde a abertura da primeira universidade portuguesa à poesia escrita pelo próprio rei. 

A instituição de ensino superior mais antiga de Portugal foi fundada pelo monarca, em Lisboa, local predileto da corte régia. Para estimular o interesse nos estudos, o rei concedeu inúmeros privilégios aos estudantes. A mudança da universidade para Coimbra dá-se apenas no século XVI, por ordem de D. João III. 

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Amante da língua portuguesa, o rei tornou este idioma a língua oficial dos documentos da chancelaria régia, substituindo o Latim. Além disso, ordenou a tradução de múltiplas obras para português. O seu amor pela cultura não era comum nos reis portugueses. Apesar de ser já o sexto rei de Portugal, D. Dinis foi o primeiro a assinar pela sua mão os documentos régios. 

Tal como assinava estes documentos, o Rei Trovador assinou mais de uma centena de poemas e cantigas trovadorescas, distribuídas por todos os géneros - cantigas de amigo, amor, escárnio e maldizer. Sendo a mais famosa: 

Ai flores, ai flores do verde pino,
Se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?”


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