Drogas associadas a 387 mortes e álcool a 569

Divulgados relatórios sobre a situação do País em matéria de drogas e toxicodependências e de álcool referentes a 2023.

26 de fevereiro de 2025 às 09:01
Drogas Foto: Getty Images/iStockphoto
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As drogas e o álcool continuam a matar um número crescente de portugueses. A mortalidade relacionada com o consumo de drogas, nos registos do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, referentes a 2023, revelam 387 óbitos com a presença de substâncias ilícitas.  Na informação da causa de morte é indicado que 80 foram overdoses, ou seja 21% destas situações.  

Por sua vez, no consumo de álcool é indicado que dos 569 óbitos positivos para o álcool e com informação da causa de morte, 36% foram atribuídos a acidente, 28% a morte natural e 15% a suicídio. Com valores mais residuais surgiu a intoxicação alcoólica (4%), overdose com substâncias ilícitas (3%), homicídio (2%) e intoxicação por exposição a outras substâncias (1%).

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Pelo segundo ano consecutivo verificou-se uma diminuição (-34% face a 2022) das mortes por intoxicação alcoólica, representando o valor mais baixo do período 2017-23. Cerca de 83% destes casos foram positivos só para o álcool, e em 9% foram detetados só álcool e medicamentos. Das 128 vítimas mortais de acidentes de viação que estavam sob a influência do álcool, 82% eram condutores, 10% passageiros e 7% peões.

Os dados divulgados pelo ICAD (Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências) indicam que houve um aumento de overdoses face a 2022 (+16%), sendo os valores dos últimos três anos os mais altos desde 2009. Em 2023 é de destacar a presença de cocaína (65%), de opiáceos (36%) e de metadona (36%), sendo a cocaína a mais prevalente nas overdoses dos últimos três anos e com um aumento contínuo desde 2017.

Entre 2017 e 2022 houve descida relevante do consumo recente e atual de qualquer droga, influenciada pela diminuição do consumo de canábis. O consumo recente e atual das outras substâncias, de um modo geral, manteve-se estável na população total e estável ou com ligeiras subidas nos 15-34 anos. Face a estas descidas no consumo de canábis, seria expectável a diminuição das prevalências dos padrões de consumo abusivo e dependência na população. No entanto, mantiveram-se idênticas as prevalências de consumo de risco moderado e de risco elevado de canábis na população total, aumentando a de risco elevado entre os mais jovens, e em particular nos 15-24 anos (0,2%, 0,7% e 1,3%, em 2012, 2017 e 2022). Por sua vez, houve um agravamento do consumo de risco elevado e da dependência entre os consumidores recentes de canábis, tanto nos 15-74 anos como nos 15-34 anos.

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Nos últimos três anos aumentou a experiência de problemas relacionados com o consumo de drogas, entre os jovens de 18 anos. Os consumos continuam a ser mais expressivos nos rapazes, existindo também algumas diferenças regionais, como é evidenciado no consumo recente de qualquer droga (entre 29% no Algarve e 20% na Madeira).

Em 2023 estiveram em tratamento 24 246 utentes com problemas relacionados com o uso de drogas no ambulatório da rede pública. Pelo terceiro ano consecutivo, houve um ligeiro aumento (+0,3%) dos utentes em tratamento no ambulatório, após as descidas entre 2017 e 2020, estando ainda aquém dos valores pré-pandemia. Embora menos relevante do que as subidas nos dois anos anteriores, aumentou ligeiramente o número dos que iniciaram tratamento (+0,7%), com os valores dos últimos dois anos a serem os mais elevados desde 2015 e a reforçarem a tendência de acréscimo entre 2017-19.

O número de utentes internados por problemas relacionados com o uso de drogas aumentou 19% face a 2022, em Unidades de Desabituação, e 9% em Comunidades Terapêuticas. Apesar de a heroína continuar a ser a droga principal mais prevalente nos utentes em tratamento, é de notar, nos últimos dois anos, o relevante aumento de utentes a iniciarem tratamento devido ao consumo de cocaína, atingindo em 2023 os valores mais altos dos últimos dez anos.

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Em 2023 foram abertos nas Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência 10.614 processos de contraordenação por consumo de drogas relativos às ocorrências no ano. Houve um aumento de +29% face a 2022, representando o número mais alto desde 2018, embora ainda aquém do valor de 2017 (ano com o valor mais alto desde 2001). Tal como nos oito anos anteriores, a GNR foi quem remeteu mais ocorrências para as Comissões de Dissuasão da Toxicodependência.

Os estudos evidenciam que a canábis continua a ser a droga ilícita percecionada como de maior acessibilidade, refletindo as prevalências de consumo na população portuguesa. Entre 2017 e 2022 houve evoluções díspares consoante as substâncias, sendo de destacar a evolução positiva (no sentido da perceção de uma menor facilidade de acesso) no que toca à heroína, e as evoluções negativas em relação à canábis e alucinogénios.

No consumo de álcool, e apesar do aumento da abstinência face a 2017, não houve melhorias na maioria dos indicadores. Verificaram-se agravamentos ao nível das idades de início dos consumos, das prevalências do consumo recente e atual, das de embriaguez severa e dos consumos de risco elevado/nocivo e da dependência (reforçando a tendência de aumento da dependência desde 2012, que quase quadruplicou em dez anos).

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Entre os jovens de 18 anos houve uma descida do consumo recente e atual em 2023, embora os valores da embriaguez severa nos últimos dois anos tenham sido os mais altos desde 2015. A experiência recente de problemas relacionados com o consumo de álcool sofreu, nos últimos três anos, um aumento relevante face aos anos pré-pandemia. A evolução no grupo feminino tem sido de agravamento.

O número dos que iniciaram tratamento por problemas relacionados com o uso de álcool atingiu nos últimos dois anos os valores mais elevados dos últimos dez anos.

Por outro lado, em 2023 registou-se uma diminuição das mortes por intoxicação alcoólica, de vítimas mortais de acidentes de viação que estavam sob a influência do álcool, e nos internamentos hospitalares com diagnóstico principal atribuível ao consumo de álcool, mas aumentou o nº de internamentos em que há um diagnóstico secundário de consumo de álcool.

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No que toca ao volume de vendas de bebidas alcoólicas, após as descidas em 2020 houve uma recuperação posterior, com os valores de 2022 e 2023 a ultrapassarem já os níveis pré-pandémicos em quase todos os segmentos de bebidas alcoólicas.

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