Especialista considera que linhas elétricas subterrâneas sem apoio europeu podem acabar na fatura

António Vidigal lembrou que Portugal tem cerca de 20% das linhas subterrâneas.

13 de fevereiro de 2026 às 08:19
Eletricidade Foto: iStockphoto
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O enterramento de linhas elétricas reduz avarias e reforça a resiliência da rede, mas custa três a cinco vezes mais do que soluções aéreas e, sem fundos europeus, o investimento "vai aparecer na fatura", defendeu António Vidigal.

O especialista em energia começou por explicar à Lusa que a eletricidade que chega às casas das famílias vem de redes de média e alta tensão. Normalmente, o foco está na média tensão, que é enterrada em áreas urbanas, e as linhas aéreas em áreas rurais, o que para o responsável "faz sentido".

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"A [solução] enterrada é significativamente mais cara. Faz-se sobretudo aérea porque é três a cinco vezes mais barata e muito mais rápida de fazer", afirmou o antigo presidente da EDP Inovação. Ainda assim, sublinhou que as linhas enterradas "têm muito menos avarias", mas quando acontece "é mais caro e leva mais tempo a reparar".

Sobre o financiamento, disse que é essencial usar fundos europeus, porque sem eles o custo acabaria na conta dos consumidores. "Todo o investimento que for feito vai aparecer na fatura se não for financiado pelos fundos europeus", alertou.

O tema do enterramento das linhas elétricas voltou ao debate público no seguimento de recentes declarações da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, sobre o reforço das linhas enterradas para aumentar a resiliência da rede após as intempéries que devastaram o país e deixaram milhares de casas e empresas sem eletricidade.

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Questionado sobre o efeito que tempestades semelhantes poderiam causar, considerou que "uma maior percentagem de linhas enterradas teria minorado o impacto", mas implicaria gastar "muitíssimo mais dinheiro" sem saber se seria necessário.

Apontando o exemplo francês, recordou que, após a tempestade de 1999, o país decidiu enterrar todas as novas linhas de média tensão e esta sexta-feira "só ainda têm 50% enterradas".

Para Portugal, propôs uma estratégia gradual: tornar subterrâneo tudo o que é novo, manter o que já existe e acrescentar cabos subterrâneos em zonas críticas. Assim, em situações de falha, nem tudo deixaria de funcionar, defendendo investimentos "cirúrgicos" para aumentar a resiliência.

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António Vidigal lembrou que Portugal tem cerca de 20% das linhas subterrâneas e rejeitou uma substituição rápida: "Não faz sentido nenhum passar de repente até 50%. França não fez isso (...) e não há dinheiro para isso".

O responsável lembrou ainda que a E-Redes - operadora da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal continental - só investe com aprovação regulatória e que os planos atuais não devem ser suspensos. Propôs avançar com o Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede de Distribuição de Eletricidade (PDIRD-E) já aprovado e criar um plano extraordinário.

Apesar de a componente das redes representar "menos de 15%" do custo final da fatura da eletricidade, alertou que "é sempre dinheiro que vão ter de pagar e no final do ano conta".

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Nesse sentido, defendeu decisões ponderadas: "Nenhum sistema de engenharia pode ter segurança absoluta (...) temos de definir para onde vamos direcionar o investimento".

O especialista salientou ainda que a rede nacional tem cumprido parâmetros europeus de disponibilidade, mas admitiu que fenómenos extremos podem tornar-se mais frequentes. "Se for o novo normal, temos de começar a preparar-nos (...) tudo o que é novo deve ser feito da forma mais resiliente".

Entre medidas complementares, apontou a necessidade de reforço de geradores próprios em infraestruturas críticas, como hospitais, e a expansão de soluções descentralizadas. "Cada vez fará mais sentido às pessoas terem [painéis] fotovoltaicos em casa complementados com baterias" para armazenamento, afirmou.

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António Vidigal considerou também que o próximo concurso para a concessão de baixa tensão, cujo modelo o Governo deve aprovar em breve, deveria integrar requisitos de segurança e tempos máximos de recuperação, defendendo que Portugal acompanhe soluções regulatórias próximas das francesas.

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