Especialista diz que Proteção Civil comete os mesmos erros há 25 anos

Especialista refere que sistema é "demasiadamente agarrado à circulação de hierarquias".

05 de fevereiro de 2026 às 18:38
Proteção Civil Foto: Vítor Mota
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O especialista em proteção civil Duarte Caldeira considerou esta quinta-feira que a Proteção Civil comete os mesmos erros há 25 anos, estando as falhas "todas identificadas", e defendeu que a responsabilidade pela resposta à tempestade é nacional e local.

"A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, no meu ponto de vista, falhou naquilo que falha normalmente sempre há 25 anos. Eu recordo-me, faz 25 anos, a queda da ponte Hintze Ribeiro [Entre-os-Rios]. Desde então, os nossos erros no sistema de proteção civil estão todos identificados e são todos decorrentes de uma praga nacional que é a ausência de vocação para o planeamento e para a ação", disse ao 'podcast' da agência Lusa (Lusa Extra) o antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e dirigente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil.

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Este planeamento, segundo Duarte Caldeira, não é para o papel, nem para estar "nas secretárias e nas estantes dos decisores", mas sim "instrumentos em que cada um sabe exatamente no tempo certo o que é que tem que fazer" em caso de uma catástrofe, como aconteceu na semana passada quando a depressão Kristin atingiu uma parte da região centro e deixou um cenário de destruição.

O especialista explicou que a resposta do sistema de proteção civil desenvolve-se em dois domínios: Ao nível nacional, através da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), e numa perspetiva mais próxima das populações, à escala municipal.

"Relativamente à escala municipal estão reveladas grandes doses de boa vontade, grande empenho, mas ao mesmo tempo estão à vista múltiplas debilidades na maioria esmagadora dos 68 municípios afetados", disse, considerando que "um município altamente preparado leva a proteção civil a sério, tem um serviço municipal de proteção civil, com coordenador nomeado e equipa técnica adstrita para fazer análise de risco, para fazer coordenação de meios", que não nomeou.

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Duarte Caldeira frisou também que há municípios "que ainda estão quase com uma espécie de aprendizagem" e há outros que "consideram que esta coisa da Proteção Civil se resolve só com os bombeiros da sua terra" e, segundo o responsável, nestes 68 concelhos afetados existem estes três tipos de municípios.

"Ora, a Proteção Civil não é apenas bombeiros. Na Proteção Civil há o antes, durante e depois. E os bombeiros atuam no durante", disse, considerando ser "injusto atribuir responsabilidades apenas ao patamar nacional" quando também existe "o patamar de proximidade".

Quanto à escala nacional, referiu que o sistema de proteção civil é "demasiadamente agarrado à circulação de hierarquias" e acrescentou: "Numa circunstância destas é preciso que o princípio de unidade de comando exista e tenha um único rosto".

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Criticando o facto da ministra da Administração Interna ter reunido a Comissão Nacional de Proteção Civil e acionado o Plano Nacional de Emergência e Proteção Civil quatro dias depois da tempestade, responsabilizou também o poder político por não ter acionado no próprio dia estes mecanismos de direção política e de agilização operacional.

Duarte Caldeira disse igualmente que o sistema de proteção civil está vocacionado para os incêndios rurais e não existe "esta vocação e planeamento para outros riscos a que Portugal está exposto", tendo ficado isso evidente na semana passada.

"A debilidade principal do sistema de proteção civil em Portugal continua a ser a ausência de doutrina e falta de planeamento", afirmou, lamentando a falta de uma voz de comando para responder e gerir circunstâncias anormais como estas.

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O responsável defendeu ainda alterações profundas à Lei de Bases da Proteção Civil, que não é revista desde 2006, e uma recalibragem na lei orgânica da Proteção Civil ao sublinhar que "a ANEPC é muito mais do que uma repartição pública. É muito mais do que uma gestão de meios".

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