Identificados no vulcão em La Palma microrganismos que ajudam a estudar vida em Marte
Investigação demonstra que os primeiros microrganismos chegam principalmente do exterior, transportados pelo ar sob a forma de aerossóis ou esporos, ou associados a animais como aves, roedores ou insetos.
Uma investigação internacional, em que colaboram duas instituições portuguesas, identificou os primeiros microrganismos a colonizar os tubos de lava formados na erupção do vulcão Tajogaite (La Palma), que servem de modelo para estudar a possibilidade de vida em Marte.
O estudo, apoiado pela Secretaria Regional das Universidades, Investigação e Inovação da Andaluzia, envolve o Instituto de Recursos Naturais e Agrobiologia de Sevilha (IRNAS-CSIC), o Instituto Geológico e Mineiro de Espanha (IGME-CSIC), a Universidade de Almería e a Universidade de Huelva, com a colaboração da Universidade de Évora e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), ambos de Portugal, e da Federação Espeleológica das Canárias.
Publicado na revista científica Environmental Microbiome, o estudo descreve quais os microrganismos que chegam primeiro a estes espaços recém-criados pela atividade vulcânica, como se adaptam às condições extremas e qual o papel que desempenham na recuperação do ecossistema, informou o Governo Regional da Andaluzia em comunicado de imprensa.
Os investigadores puderam observar, quase desde o início, como a vida começa num ambiente completamente novo e estéril.
Os tubos de lava analisados foram formados após a erupção do vulcão Tajogaite na ilha de La Palma, em Espanha, que ocorreu a 19 de setembro de 2021 e durou 85 dias.
Estes tubos constituem um verdadeiro "mundo recém-nascido", desprovido de solo e vegetação, onde os primeiros seres vivos necessitam de abrir caminho para o desenvolvimento do ecossistema.
Estes ambientes tornaram-se um laboratório natural para o estudo dos limites da vida em condições extremas, abrindo novas linhas de investigação relacionadas com a habitabilidade noutros planetas.
Os resultados obtidos ajudam a definir como algumas comunidades biológicas poderão surgir, evoluir e manter-se em ambientes subterrâneos em Marte.
A investigação demonstra que os primeiros microrganismos chegam principalmente do exterior, transportados pelo ar sob a forma de aerossóis ou esporos, ou associados a animais como aves, roedores ou insetos.
Estas contribuições introduzem matéria orgânica num ambiente inicialmente estéril e favorecem o aparecimento das primeiras comunidades biológicas.
Para analisar este processo, a equipa científica acedeu aos tubos de lava entre um e dois anos após a erupção, quando as condições ainda eram extremamente severas. Em algumas zonas, a temperatura do ar atingiu os 60 graus Celsius e a superfície das rochas ultrapassou os 90 graus.
Os investigadores realizaram três campanhas de amostragem e combinaram a análise de ADN dos microrganismos com o estudo dos minerais e das condições ambientais de cada área.
Fatores como a temperatura, a salinidade, a ventilação e a composição mineral determinam quais os microrganismos que se conseguem estabelecer e sobreviver.
O estudo mostra ainda que estes microrganismos não só habitam o ambiente, como também contribuem para o transformar. Através da formação de biofilmes nas rochas, modificam os minerais e promovem processos que constituem os primeiros passos na formação de solo fértil e na evolução do ecossistema.
A equipa continuará a investigar a evolução destas comunidades microbianas para melhor compreender como os ecossistemas recuperam após eventos extremos, como erupções vulcânicas, e analisará o seu potencial para produzir compostos bioativos com possíveis aplicações nas áreas da saúde e da biotecnologia.
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