Igrejas cristãs em Portugal contra "discursos de ódio e de xenofobia" dos políticos

"Ninguém se pode assumir como seguidor de Jesus Cristo, com discursos de ódio e de xenofobia", afirmou Jorge Pina Cabral.

20 de janeiro de 2026 às 19:26
Igreja, bíblia Foto: Sara Matos
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O presidente do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic) criticou esta terça-feira os políticos que usam "discursos de ódios, de divisão e de xenofobia", porque isso contraria o cristianismo.

"Ninguém se pode assumir como seguidor de Jesus Cristo, com discursos de ódio, de divisão, de xenofobia, porque isso é profundamente contrário à pessoa, à vida de Jesus Cristo e ao seu ministério, tal como contra os valores do próprio Evangelho", afirmou o bispo da Igreja Lusitana Jorge Pina Cabral, que é também presidente do Copic.

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Falando à margem de um encontro para assinalar a publicação da Carta Ecuménica, um documento subscrito pelas confissões protestantes, ortodoxas e católicas europeias, Jorge Pina Cabral salientou que "as igrejas não se podem deixar instrumentalizar e têm que ser claras também nesse discurso" de denunciar quem usa a religião para justificar ações políticas contrárias à fé.

"A prática é aquilo que permite discernir da efetiva convicção de fé da pessoa que, muitas vezes, vem a público assumir", para "justificar a sua ação através de determinadas pertenças religiosas", afirmou o bispo anglicano.

O Copic- que junta as igrejas Lusitana (que integra a comunhão anglicana), a Evangélica Metodista Portuguesa, a Evangélica Presbiteriana de Portugal e Igreja Evangélica Alemã do Porto -- subscreveu a carta, a par da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), num compromisso de defesa da dignidade dos seres humanos, dos imigrantes, das mulheres e da ecologia.

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"As igrejas não têm que entrar na política partidária, mas têm que ser aquela referência onde as pessoas encontrem também sentido para o seu pensar político", afirmou o prelado, admitindo que, nos tempos atuais, a religião tem sido o argumento de muitos políticos populistas, como é o caso dos EUA, onde muitos movimentos extremistas têm eco nas lideranças.

O combate contra esse discurso deve ser feito "a nível local", salientou Jorge Cabral, dando o exemplo dos próprios EUA, onde várias "igrejas e comunidades das diferentes tradições, desde a tradição anglicana, católica ou protestante", estão "profundamente empenhadas na defesa dos migrantes", sujeitando-se a serem "vítimas da perseguição por parte das autoridades locais".

Para o bispo anglicano, "é histórico" o processo de usar a "religião para justificar determinado tipo de postura política".

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"Nós vemos isso no contexto até da guerra da Ucrânia, no modo como a própria Igreja Ortodoxa Russa foi instrumentalizada e está a ser instrumentalizada pelo Estado russo para justificar uma agressão", salientou.

No documento esta terça-feira publicado em português, o Copic associou-se à CEP na carta ecuménica já assinada a nível europeu.

A carta é "fruto das reflexões conjuntas" sobre "áreas na sociedade, tais como o trabalho com os migrantes, os processos de reconciliação entre comunidades, o trabalho da salvaguarda também da criação, todo o cuidado que há em colocar na proteção da natureza" ou o trabalho "com os jovens, que muitas vezes não veem grandes possibilidades e até emigram", considerou Jorge Pina Cabral.

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Sobre os imigrantes, uma das principais preocupações dos movimentos cristãos, existe um primeiro nível de trabalho que está relacionado com o acolhimento, processos de reconciliação, com "respeito pela diversidade".

O prelado defendeu que "as igrejas também têm uma voz pública" que, "em determinadas alturas, deve procurar contrariar por vezes um discurso polarizado e até um discurso político que persiste mais em dividir do que unir e procura também discriminar minorias no país".

"As igrejas devem agir, devem incluir e, quando necessário, também devem intervir com uma voz profética, denunciando aquilo que são, por vezes discursos de ódio, discursos de divisão, discursos que visam, acima de tudo, a criação do medo e da insegurança entre as pessoas", considerou o religioso.

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No seu entender, "hoje, o que a sociedade portuguesa necessita e as pessoas querem é vozes equilibradas, sensatas que nos ajudem a perceber a nossa comum humanidade e que deem também sinais de esperança muitas vezes num contexto muito mediático que por vezes impera muito a desgraça, tragédia, desastres, tudo situações que não ajudam para a calma e paz interior das pessoas".

Pelo contrário, "hoje temos de ter um discurso positivo, de esperança, que ajude também as pessoas a sonhar o futuro", em vez dos argumentos de "ódio e polarização, que estão interessados apenas no momento atual e não tem qualquer tipo de perspetiva de futuro", acrescentou ainda.

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