Investigação conclui que legislação restritiva no acesso a redes sociais não resolve os riscos
No estudo, 61,1% dos jovens é exposto a conteúdos sobre violência, ódio, automutilação ou formas de praticar suicídio de forma "não intencional".
A investigadora responsável pelo estudo sobre exposição a 'cyberbullying' e outros conteúdos prejudiciais 'online' defende que uma restrição total, parental ou legislativa "não é a forma mais adequada" de resolver os riscos, sendo necessário regular os algoritmos.
A posição de Mariana Rodrigues, professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), surge após a conclusão do primeiro estudo "com amostra representativa dos jovens portugueses dos 10 aos 21 anos" (foram entrevistados 2.071 pessoas), que juntou a dimensão do 'cyberbullying' a outras exposições perigosas, como violência, automutilação ou suicídio.
"Relativamente às restrições legislativas [de acesso a redes sociais], julgo que não são a forma mais adequada. Estas tecnologias estão aí para ficar. Mas é preciso uma maior regulamentação, controle e responsabilidade. As formas como os algoritmos funcionam têm que ser revistas", defendeu a professora auxiliar da faculdade, em entrevista à Lusa, a propósito do estudo Exposição a 'cyberbullying' e outros conteúdos prejudiciais online entre jovens em Portugal.
Para a investigadora, "uma das variáveis mais importantes desta equação" é "como funcionam as plataformas digitais" e a "forma fácil como são publicados conteúdos das mais diversas ordens e como eles são recomendados às crianças e jovens".
A cientista assinala que, no estudo, 61,1% dos jovens é exposto a conteúdos sobre violência, ódio, automutilação ou formas de praticar suicídio de forma "não intencional".
"Nesta amostra representativa, 61,1% dos jovens referiram nunca ter procurado ativamente esse tipo de conteúdos e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados com o que viram", assinalou.
A também investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) reconhece o papel de "capacitar crianças e jovens para as utilizarem de uma forma mais responsável", mas "sem tirar a responsabilidade das plataformas digitais".
"Devemos investir na literacia digital, informar, apostar na saúde pública, designadamente nas escolas. A tecnologia e a digitalização é um processo em curso e não há como travar", disse.
Por outro lado, noutros países onde se implementou regulação restritiva, existe, desde logo, "uma carência enorme de mecanismos que efetivamente regulem o acesso a jovens através da idade", e os jovens arranjam estas e outras formas de ter acesso.
No estudo, uma das coisas que os investigadores perceberam foi que os mesmos resultados se obtêm perante pais com posturas mais restritivas relativamente ao acesso de crianças e jovens a tecnologias e redes sociais.
"Quando há uma parentalidade ativa, ou seja, pais que informam, que ouvem, que estão atentos, que há uma comunicação aberta no seio da família, isto tem um impacto significativo estatisticamente, não só sobre a prevalência de experiências de 'cyberbullying' ou exposição a conteúdos danosos, mas, acima de tudo, diminui ou atenua as consequências destas experiências negativas, nomeadamente ao nível da saúde mental e do bem-estar psicológico", explica.
Já com "uma mediação parental restritiva, que proíbe, até tecnicamente, com controlos, GPS e outros mecanismos tecnológicos disponíveis", no estudo "os impactos não se mostraram significativos".
"O que percebemos é que é necessário haver regras, mas que sejam negociadas, não impostas. Falar sobre os temas sem tabus, sem preconceitos tem um impacto positivo e significativo, estatisticamente, nas consequências destas experiências negativas no bem-estar psicológico e saúde mental dos jovens, ao contrário das mediações parentais restritivas", sustenta.
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