IPO Porto adjudica equipamentos de 53 milhões de euros para Centro Nacional de Protonterapia

Financiamento provém de uma doação na ordem dos 80 milhões de euros pela Fundação Amancio Ortega para compra de equipamentos para o primeiro centro português de terapia do cancro com protões.

29 de junho de 2026 às 07:27
IPO do Porto Foto: CMTV
Partilhar

O IPO Porto concluiu a adjudicação de dois sistemas de protonterapia, no valor de 53 milhões de euros, "um importante passo" para que o futuro Centro Nacional de Protonterapia "seja uma realidade a médio prazo", revelou esta segunda-feira o presidente.

O financiamento provém de uma doação na ordem dos 80 milhões de euros anunciada em outubro de 2024 pela Fundação Amancio Ortega para compra de equipamentos para o primeiro centro português de terapia do cancro com protões, técnica de radioterapia considerada inovadora, de maior precisão e com menos efeitos secundários do que a radioterapia convencional.

Pub

Em declarações à agência Lusa, o presidente do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, Júlio Oliveira, revelou que a adjudicação já foi validada pelo Tribunal de Contas, considerando este momento "um importante passo" para a concretização do Centro Nacional de Protonterapia.

"Não estamos só a falar de equipamentos. Isto constitui a materialização de um programa nacional com uma componente, óbvia e necessária, assistencial e clínica, que fará com que o país passe, através do Serviço Nacional de Saúde, a disponibilizar uma tecnologia de ponta, inovadora, para o tratamento do cancro", disse o presidente.

Júlio Oliveira destacou, ainda, a importância deste programa para o tratamento do cancro em idade pediátrica, lembrando que o número de indicações para recurso a estes tratamentos em crianças está a aumentar por causa da necessidade de poupar o tecido à volta do tumor.

Pub

"Isto, naturalmente, porque a criança vai crescer e é absolutamente crítico que se poupe tecido. A sobrevivência do cancro infantil é superior a 80%. É muito, muito, muito importante reduzirmos ao mínimo os efeitos secundários associados a qualquer tratamento que se ofereça à população pediátrica", descreveu.

Ao contrário da cirurgia, que remove o tumor fisicamente, ou da quimioterapia, que atua por via sistémica, a radioterapia utiliza radiação para destruir as células tumorais.

A radioterapia convencional, baseada em fotões ou raios X, é eficaz mas irradia inevitavelmente tecidos saudáveis antes e depois de atingir o tumor.

Pub

Considera-se que a protonterapia representa um avanço técnico significativo: os protões libertam a maior parte da sua energia precisamente no ponto onde o tumor se encontra, poupando de forma muito mais efetiva os tecidos circundantes.

Esta propriedade traduz-se em menor toxicidade, menos efeitos secundários e melhor qualidade de vida durante e após o tratamento.

Os sistemas agora adjudicados, e que serão instalados no futuro Centro Nacional de Protonterapia do IPO do Porto, representam a geração mais avançada desta tecnologia, concebida para tratamentos de elevada precisão em ambiente clínico.

Pub

A protonterapia está indicada, em particular, para tumores pediátricos, tumores da base do crânio, da cabeça e pescoço, e outros casos em que a proximidade a estruturas críticas torna determinante a precisão da dose.

Atualmente, os doentes portugueses que necessitam desta tecnologia têm de se deslocar ao estrangeiro.

"Teremos um centro nacional e como centro nacional não é do IPO de Porto, servirá todo o país. Portanto, teremos de trabalhar numa rede de referenciação nacional. Vamos ter de reforçar a capacidade de apoio aos doentes e às famílias que sejam obrigados a deslocarem-se de mais longe para poderem ter acesso a esta tecnologia", analisou Júlio Oliveira.

Pub

À Lusa, Júlio Oliveira destacou que "o próximo passo é agora o lançamento do concurso para a construção da infraestrutura que acomodará estes equipamentos", num processo que "dada a complexidade e especificidade das estruturas poderá durar alguns anos".

"No cenário mais favorável, não havendo nenhuma intercorrência significativa durante o período de concurso público e execução da obra, teremos centro no final de 2029, início de 2030", disse.

O projeto infraestrutural está orçado em cerca de 20 milhões de euros, sendo 85% suportado por fundos do Norte 2030 e os restantes cerca de três milhões pelo Ministério da Saúde.

Pub

O centro ficará integrado no parque hospitalar do IPO do Porto, contíguo ao atual edifício de radioterapia, naquele que é atualmente o maior parque tecnológico de radioterapia da Península Ibérica e passará a ser o maior da Europa.

"A construção em si é muito complexa, é uma construção completamente atípica porque a máquina terá de ser montada num edifício que vai ser construído de raiz, de propósito, para aqueles dois equipamentos que vão ser instalados. Daí que só depois de ter o processo concluído de adjudicação do equipamento, é que podemos lançar o concurso público para a construção do edifício", explicou o responsável.

Já informação remetida à Lusa pelo IPO do Porto dá conta de que a Ion Beam Applications, empresa belga líder mundial neste tipo de tecnologia, prevê entregar os equipamentos em meados de 2028, altura em que estará concluída a primeira fase da obra do edifício, seguindo-se o processo de instalação e verificação técnica dos sistemas.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar