João Abel Manta: O artista que foi além do cartoon político

Filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina de Moura morreu esta sexta-feira aos 98 anos.

15 de maio de 2026 às 23:39
João Abel Manta Foto: Corrêa dos Santos
Cartoon João Abel Manta Foto: João Abel Manta

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O artista plástico João Abel Manta, que morreu esta sexta-feira aos 98 anos, foi muito mais do que o cartoonista político contra a ditadura e pela liberdade, deixando um extenso e multidisciplinar universo artístico.

Filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina de Moura, João Abel Manta nasceu em Lisboa, em janeiro de 1928, dois anos depois da instauração da Ditadura Militar, e desde cedo ter-lhe-á sido incutida a importância da liberdade e da resistência.

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Por sugestão do pediatra, os pais mudaram-se para Santo Amaro de Oeiras, onde João Abel Manta passou a infância, num ambiente artístico privilegiado e que lhe permitiu, por exemplo, conviver com judeus alemães refugiados e saber o que se passava na Alemanha nazi.

Formado em Arquitetura, João Abel Manta teve dois momentos iniciais de oposição ao Estado Novo: quando expôs pela primeira vez em 1947, na Exposição Geral de Artes Plásticas, na Sociedade Nacional de Belas Artes, que seria encerrada pela polícia; e quando publicou, no final desse ano, o primeiro desenho de imprensa na revista Seara Nova, assinando como João Abel.

Em fevereiro de 1948, poucos dias depois de completar 20 anos, João Abel Manta foi detido pela PIDE e esteve duas semanas na prisão de Caxias, partilhando a cela com o artista Ernesto de Sousa, e onde não deixou de desenhar.

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Alguns desses desenhos feitos na prisão foram mostrados pela primeira vez em 2024, numa ampla exposição realizada em Algés (Oeiras), onde também foi exposta a ficha de prisioneiro, na qual se lê que João Abel Manta foi preso a 01 de fevereiro de 1948 "por ser elemento do MUD [Movimento de Unidade Democrática] Juvenil" e "por receção e distribuição de material subversivo".

Enquanto arquiteto, desenhou escolas, cinco blocos de habitação em Lisboa, coassinou o projeto do complexo da Associação Académica de Coimbra, mas foi abandonando progressivamente esta atividade a favor das artes gráficas.

"Sou um sujeito que acredita muito na criação do homem solitário. Eu não jogo muito em grupos, por isso me desinteressei da Arquitetura. A Arquitetura hoje não é feita por um gajo, é feita por vinte ou trinta", disse João Abel Manta, numa entrevista a José Jorge Letria, em 2010, com excertos recuperados para um documentário de Laurent Filipe, exibido em abril de 2024 na RTP.

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É sobretudo a partir de final dos anos 1960 que ganha relevo uma das mais conhecidas facetas artísticas de João Abel Manta -- a de cartoonista e caricaturista -, que prevalece ainda hoje acima de todo o percurso multidisciplinar.

Pedro Piedade Marques, curador da exposição patente em 2024 em Algés, escreveu no catálogo que João Abel Manta já tinha 40 anos, era um arquiteto estabelecido, um desenhador premiado e tinha "uma carreira expositiva considerável", quando começou a publicar mais intensamente na imprensa portuguesa.

Ao tomar a decisão de desenhar para a imprensa, João Abel Manta "assumiu um ato de raro compromisso com um projeto revolucionário, não só esteticamente, como politicamente", lê-se no catálogo publicado.

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Diário de Lisboa e Diário de Notícias foram dois dos títulos com os quais João Abel Manta trabalhou, desenhando com feroz crítica sobre Salazar e a ditadura, praticando uma ginástica de subtilezas visuais para contornar a censura, da qual foi um alvo constante. Após a Revolução, manteria o olhar atento sobre a democracia, em páginas de publicações como O Jornal.

"Como cidadão achava que tinha obrigação de utilizar aquilo que eu sabia para defender as minhas opiniões ou auxiliar em certas coisas. [...] Não sou capaz de escrever, mas faço bonecos", disse João Abel Manta naquela mesma entrevista conduzida por Letria.

Em 1972, ainda antes da revolução de 25 de Abril, João Abel Manta desenhou um cartoon, intitulado "Festival", publicado na forma de um cartaz no suplemento "A Mosca", do Diário de Lisboa, que lhe valeria um processo em tribunal por ofensas à bandeira nacional, e do qual seria ilibado.

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Também em 1972 sai o livro "Dinossauro Excelentíssimo", de José Cardoso Pires, com cerca de duas dezenas de ilustrações do amigo de longa data, João Abel Manta, e que satirizava Salazar e a "primavera marcelista".

Nas artes gráficas, João Abel Manta era considerado um mestre, tinha uma assinatura visual distinta, com o célebre e espesso contorno a negro como uma cápsula à volta das personagens, carregadas de simbolismo, sobre ricos e pobres, sobre política, costumes, trabalho e a condição das mulheres.

Também foi um exímio retratista, de Eça de Queirós a Maria Helena Vieira da Silva, e fez os cartazes das campanhas de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas, pós-revolução de Abril de 1974.

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Entre os mais populares e conhecidos desenhos de João Abel Manta estão duas obras, ambas de 1975: o cartaz "MFA, POVO", com um soldado e o camponês, lado a lado, a sorrir, e o desenho "Um problema difícil", no qual um grupo de personalidades olha para um quadro preto, onde está desenhado a giz o contorno de Portugal. No cartoon figuram, entre outros, Lenine, Estaline, Fidel Castro, Karl Marx e Jean-Paul Sartre.

Em 1978, na sequência de uma temporada a viver em Londres, João Abel Manta publicou aquela que é considerada a mais relevante obra editorial do artista, o livro "Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar".

Anos depois, em particular a seguir à morte do pai, em 1982, João Abel Manta acabaria por se afastar do cartoon e dedicar-se sobretudo à pintura. Só revisitaria as artes gráficas em 1992, quando foi feita uma exposição retrospetiva no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.

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Apesar de, em todos estes anos, a obra ter sido cingida publicamente ao cartoon e às artes gráficas, João Abel Manta trabalhou com tapeçaria, gravura, azulejo, fez colagens, arte pública e cenografia para teatro; trabalhou da pequena à grande escala, do formato de um selo dos correios a um mural numa avenida.

A exposição "João Abel Manta -- Livre", inaugurada no Palácio Anjos, em Algés (Oeiras), onde esteve patente de abril a dezembro de 2024, é exemplificativa dessa multiplicação criativa e aconteceu na sequência de um trabalho de inventariação e catalogação do arquivo do artista, pela família.

Parte do acervo está depositado no Museu de Lisboa, mas há ainda muito material de arquivo no prédio da família, também em Lisboa, onde João Abel Manta vivia e tinha o atelier.

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Em abril de 2024, quando da inauguração da exposição em Algés, a neta do artista, Mariana Manta Aires, contou à agência Lusa que é ela que tem estado a conduzir este processo de inventariação e descoberta do que está guardado em caixas, gavetas e armários da família.

Mariana Manta Aires revelou que na produção desta exposição ainda contou com a ajuda do avô, apesar de debilitado por razões de saúde.

Questionada pela Lusa, Mariana Manta Aires admitiu que a inventariação e a exposição em Algés eram o começo de um trabalho para dar a conhecer a obra de João Abel Manta e, no futuro, equacionar um espaço museológico próprio.

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"O objetivo é que o trabalho do meu avô seja visto e admirado. [...] Os cartoons, os desenhos de imprensa [que ele fez nos anos 1960 e 1970] não eram feitos para si, mas com um cariz social para que estivesse disponível e o povo os pudesse apreciar", lembrou.

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