José Tolentino de Mendonça alerta que IA pode fazer esquecer o valor humano das histórias
Para o cardeal e poeta, "os textos que a inteligência artificial produz não são imediatamente comparáveis à narrativa ou ao poema".
O cardeal português José Tolentino de Mendonça alertou esta quarta-feira que o risco da inteligência artificial não está nas máquinas aprenderem a contar histórias, mas nos humanos esquecerem o valor da experiência que lhes deu origem.
"O risco não é que as máquinas aprendam a contar histórias, é que, sob pressão da eficiência e da homogeneização algorítmica, nos esqueçamos de que uma história tem valor porque alguém a viveu, a sofreu, a olhou nos olhos antes de a narrar", afirmou, num texto escrito e lido no Book 2.0, que decorre em Lisboa.
Presente no evento, para participar numa mesa dedicada ao tema "Um Mundo que Avança Mais Depressa do que os Seus Valores", o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano pediu à apresentadora, Silvia Alberto, que lesse o seu texto, por se encontrar muito rouco.
Tolentino de Mendonça centrou a parte final da sua reflexão no impacto da inteligência artificial (IA) na criação, reconhecendo a capacidade da tecnologia para "produzir imagens, diálogos e até narrativas inteiras com uma velocidade que nenhum ser humano alguma vez conseguirá igualar", mas distinguindo essa produção da experiência que está na origem da criação literária.
Para o cardeal e poeta, "os textos que a inteligência artificial produz não são imediatamente comparáveis à narrativa ou ao poema" e "a simulação, ainda que se confunda com, não é testemunho".
Tolentino de Mendonça citou ainda a recente encíclica do Papa Leão XIV, "Magnifica Humanitas", segundo a qual "a escolha não é entre o progresso e o atraso, mas sim entre uma técnica que substitui a responsabilidade humana e uma técnica que a serve".
Neste contexto, defendeu a cultura do livro como "uma autêntica barreira natural contra este risco", por preservar a dimensão humana da criação.
"Cada livro recorda que uma história autêntica nasce sempre de um olhar humano, pousado sobre outro ser humano, e que nenhuma geração automática poderá alguma vez substituir esse olhar, esse paciente exercício de cocriação, esse telescópio humano que se chama literatura", considerou.
Na intervenção, o cardeal português partiu das categorias de "escuta, imaginação e cuidado" para refletir sobre o papel da cultura num período que descreveu como "atravessado por transições epocais, ambientais, tecnológicas, demográficas e marcado por acelerações vertiginosas, mas também por perdas de rumo profundas".
"A cultura deve constituir um espaço em que a mudança não é simplesmente sofrida, mas interpretada, acompanhada, humanizada", acrescentou.
Tolentino de Mendonça identificou também "um deficit de escuta" na atual "sociedade da comunicação", marcada por uma "avalanche de palavras", considerando necessária "uma desaceleração interior" que permita dedicar atenção e memória às diferentes vozes.
Para o cardeal, esta capacidade de escuta é também necessária para que a cultura consiga interpretar o presente, em vez de permanecer presa à memória do passado.
"Não podemos culturalmente viver dos mitos e da epopeia de ontem. Ganhamos em cartografar o presente, mesmo se ele parece antiépico e contrário à monumentalidade idealizada por certos discursos da identidade", afirmou.
Para Tolentino de Mendonça, a imaginação é "uma forma de responsabilidade perante o futuro" e "um precioso recurso público", num momento marcado pelo medo, pela incerteza e pela transformação tecnológica.
"A literatura, a arte, o teatro, o cinema, a música geram futuro porque abrem brechas no existente, põem em circulação novos desejos, treinam-nos para a possibilidade", sustentou.
Na sua intervenção, destacou ainda a dimensão social da cultura, considerando que esta não deve ser encarada como "um luxo ou um simples entretenimento", mas como uma forma de cuidado e um instrumento de inclusão e coesão, que "oferece um bálsamo às feridas da comunidade".
"A cultura cuida, abrindo espaços de encontro, criando possibilidades de resgate, devolvendo dignidade às pessoas. Uma comunidade que investe em cultura, investe na saúde do próprio tecido social", afirmou.
Tolentino de Mendonça referiu, neste contexto, o conceito de "'welfare' cultural", assente na ideia de que "a participação na cultura é um fator de bem-estar e coesão social".
Na opinião do cardeal, a colaboração entre instituições culturais e áreas como os serviços sociais, a educação e a saúde pode transformar o acesso à cultura "num instrumento de inclusão social, de bem-estar e de participação ativa", através de iniciativas que aproximem museus das comunidades, transformem bibliotecas e a leitura em espaços sociais de bairro ou levem a arte a hospitais e prisões.
Na conclusão, Tolentino de Mendonça defendeu uma cultura capaz de acolher diferenças e fortalecer os vínculos comunitários: "A cultura deveria ser isto, um espaço em que as diferenças podem estar juntas sem medo, um laboratório de confiança recíproca, uma casa aberta a todos".
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