Machismo encontrou na desinformação veículo de propagação e lucro

Académicas da iniciativa "Machismo apanhou o comboio da desinformação", do Iberifier, alertam para "narrativas sexistas para silenciar mulheres, polarizar sociedades e avançar agendas autoritárias".

12 de maio de 2026 às 09:57
Machismo encontrou na desinformação veículo de propagação e lucro
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O machismo encontrou na desinformação um veículo de propagação e rentabilidade, alimentado por campanhas coordenadas, algoritmos e modelos de negócio assentes na exploração do ressentimento de género, alertam académicas da iniciativa "Machismo apanhou o comboio da desinformação", do Iberifier.

"O machismo é hoje não só uma ferramenta política deliberada, mas também um negócio", afirmou à Lusa a investigadora do CIES-Iscte Sofia Ferro Santos, defendendo que a misoginia digital deixou de ser um fenómeno espontâneo para integrar estratégias organizadas de manipulação e polarização social.

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Segundo a investigadora, "não estamos a falar da mesma misoginia que existe 'offline' e que naturalmente se reproduz 'online'", mas antes de "campanhas coordenadas que usam narrativas sexistas para silenciar mulheres, polarizar sociedades e avançar agendas autoritárias".

Num ecossistema digital em que a atenção se converte em lucro, Sofia Ferro Santos considerou que o ressentimento de género passou a funcionar como produto de consumo massificado.

"Transformam desalento, incompreensão e frustração dos homens em raiva... e a raiva vende", afirmou, apontando o influenciador Andrew Tate como exemplo de figuras que construíram modelos de negócio assentes em conteúdos misóginos, cursos de "masculinidade" e esquemas com criptomoedas.

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A investigadora comparou o fenómeno aos 'sites' de desinformação criados por jovens da Macedónia do Norte durante as eleições norte-americanas de 2016, produzidos sem motivação ideológica, mas orientados para receitas publicitárias.

"Os algoritmos das redes sociais identificam esse conteúdo como rentável", sublinhou.

A instrumentalização política do machismo atravessa fronteiras ideológicas e atinge movimentos conservadores, defendeu Sofia Ferro Santos, apontando o caso da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, cuja imagem foi usada em vídeos pornográficos 'deepfake' antes da chegada ao poder.

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"Foi uma tentativa clara de destruir a sua credibilidade política", afirmou.

Nos Estados Unidos, acrescentou, o American Sunlight Project identificou 35.000 menções de imagens íntimas não consentidas envolvendo 26 congressistas, em plataformas de 'deepfake'.

Um estudo, citado pela investigadora, concluiu que 49% das mulheres politicamente ativas na Alemanha evitam cargos onde temam violência digital e quase um quarto ponderou abandonar a atividade política.

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Além disso, 73% das jornalistas inquiridas num estudo da UNESCO relataram ter sofrido violência 'online'.

A investigadora alertou para a crescente banalização destas práticas entre os jovens, com casos de alunos que criam e partilham 'deepfakes' sexuais de colegas e professoras, incluindo em Portugal.

"Há um efeito de bola de neve em que os jovens são cada vez mais criadores e alvo deste tipo de desinformação de género", afirmou.

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Também a coordenadora do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Viseu, Joana Martins, considerou que as narrativas machistas foram absorvidas pelas dinâmicas da desinformação digital, funcionando como mecanismo de desacreditação das mulheres.

"A estratégia passa por desacreditar as mulheres e por as diminuir", afirmou, descrevendo o fenómeno como "desinformação de género", baseada na disseminação de conteúdos falsos ou enganosos que exploram preconceitos e estereótipos.

Para a docente, um dos objetivos centrais destas narrativas é travar "o progresso rumo à igualdade de género", num contexto em que a chamada "machosfera" ganha espaço nos consumos digitais das novas gerações através da recomendação algorítmica.

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"Falamos de incitação ao ódio, intolerância e conteúdos que estão a ser introduzidos pelo algoritmo no consumo diário digital das novas gerações", alertou.

Sem identificar "um antídoto rápido" para o fenómeno, Joana Martins defendeu a literacia mediática como ferramenta de resposta, apelando à capacitação dos cidadãos para compreenderem a origem da informação que consomem e partilham.

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