Mais de 1.100 médicos optaram por não tirar especialidade nos últimos três anos
Ordem dos Médicos vai apresentar ao Ministério da Saúde medidas concretas para minimizar o problema.
Mais de 1.100 novos médicos optaram por não tirar a especialidade nos últimos três anos, um fenómeno que está a preocupar a ordem que pretende apresentar ao Ministério da Saúde medidas concretas para minimizar o problema.
"O que está a acontecer com as vagas é que, de ano para ano, há muita gente que não as escolhe e esses médicos são necessários para o país. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) precisa de médicos especialistas que se integrem nas equipas e com contratos de trabalho com vínculo estável", alertou o bastonário da Ordem dos Médicos (OM) em declarações à Lusa.
Segundo dados da ordem, 407 médicos decidiram não ingressar na formação especializada em 2023, número que baixou para os 307 em 2024, mas que voltou a aumentar para os 469 em 2025, num total de 1.183 neste período.
Um inquérito divulgado em março pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) concluiu que dois em cada três médicos que optaram por não entrar na formação especializada no último ano fizeram-no por não ter conseguido entrar na especialidade que pretendiam.
O estudo indica igualmente que o facto de não conseguirem ficar na unidade de saúde que desejavam foi outro dos fatores que mais pesou na decisão, enquanto as razões económicas, como a remuneração ou os custos associados à deslocação, assumiram menor expressão relativa.
A OM constitui em 2025 um grupo de trabalho para perceber as causas que levam os médicos a não ingressarem na formação necessária para obterem o título de especialista, tendo ainda acordado, recentemente, com a ACSS a realização de um estudo mais aprofundado que permita avançar com soluções concretas.
"Queremos apresentar um documento consistente e robusto ao Ministério da Saúde para resolver esta matéria que se agrava de ano para ano", referiu Carlos Cortes, para quem atualmente os novos médicos têm uma "postura em relação à escolha da especialidade que é diferente da que acontecia há 10 ou 20 anos".
Segundo o responsável da ordem, a nova geração de médicos tem uma "maior capacidade de mobilidade e de liberdade de definir o seu próprio caminho", estando ciente que pode tirar uma especialidade, mas também trabalhar como prestador de serviços, emigrar e fazer a sua especialização noutro país e até mudar de atividade profissional.
Carlos Cortes realçou também que a perceção baseada em alguns dados, que ainda carecem de maior atenção, é que muitos dos motivos que levam os médicos a não escolherem uma vaga de especialidade são os mesmos que levam a que também não escolham o SNS para a sua carreira.
"As pessoas não sentem essa atração [pelo SNS] e sentem que, em determinados hospitais e serviços, não vão ter condições adequadas para a sua formação e para, depois, desenvolverem a sua atividade como especialistas", alegou.
Aplicado a 507 médicos, o inquérito foi respondido por metade (254). Destes, mais de 80% manifestou intenção de repetir a Prova Nacional de Acesso para melhorarem a classificação e tentar conseguir colocação na especialidade pretendida, adiando assim o início da formação especializada.
"A análise realizada evidencia que a decisão de não ingresso imediatamente para a formação especializada resulta sobretudo de condicionantes estruturais do modelo de acesso, em particular da impossibilidade de obter colocação na especialidade pretendida, mais do que de uma desvalorização da formação especializada", salientou a ACSS.
O estudo concluiu ainda que as descontinuidades no acesso à especialização comprometem a previsibilidade do processo formativo, atrasam a renovação geracional da classe e podem agravar desigualdades na distribuição de especialistas, com impacto direto na capacidade de resposta assistencial aos utentes dos sistemas públicos.
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