No distrito de Leiria arregaçam-se mangas mas não se esquece o abandono

"São os bombeiros que nos têm valido, de resto não apareceu ninguém", relata um morador.

31 de janeiro de 2026 às 23:58
No distrito de Leiria arregaçam-se mangas mas não se esquece o abandono Foto: Manuel de Almeida/Lusa_EPA
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Entre reparações de telhados e limpezas, com tréguas de São Pedro, várias localidades do distrito de Leiria tentavam este sábado retomar alguma normalidade, sem eletricidade em muitas casas, com falhas nas comunicações e sem esquecer uma sensação de abandono.

À medida que a A8 -- Autoestrada do Oeste - vai ficando para trás, rumo a Pataias, no concelho de Alcobaça, e São Pedro de Moel, já na Marinha Grande, percebe-se o imenso trabalho que ainda há por fazer depois da destruição provocada pela depressão Kristin na madrugada de quarta-feira.

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Somam-se as placas de trânsito no chão e contar o número de árvores derrubadas torna-se uma missão impossível, provavelmente só equiparada à contagem das telhas que precisam de algum tipo de reparação.

Juliana Costa conseguiu voltar este sábado ao trabalho ao balcão de um café no centro de Pataias, depois de a energia ter sido resposta na noite de sexta-feira. Sem rede, nenhum cliente tem o telemóvel na mão e aproveita-se para descontrair e conversar.

"O ar condicionado do café ficou estragado e aqui houve alguns telhados atingidos. Moro na Moita, na Marinha Grande, e lá foi pior -- casas, carros... Temos água, mas ainda não temos eletricidade", conta, referindo que a ajuda "chegou no dia a seguir", o que considera aceitável. "É muita gente, muita coisa estragada, não dá para irem a todo o lado."

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Não é fácil o tom ser o mesmo em outras paragens. Na Praia da Vieira (Marinha Grande), onde o vento destruiu ou danificou espaços de restauração e arrastou um pré-fabricado para o meio da estrada, Ana Cláudia agradece a presença dos bombeiros, que na quarta-feira chegaram durante a manhã e este sábado estão a retirar a água da cave inundada. À tarde o telhado será reparado, antes que a chuva regresse.

"São os bombeiros que nos têm valido, de resto não apareceu ninguém. Agora vem gente aí ver a desgraça, tirar fotografias com o telemóvel, como se isto fosse o zoológico", critica, referindo-se aos poderes local e nacional.

Ao início da tarde, continua sem luz. A água chegou de manhã. "Mas água não me falta - usei a que inundou a cave para limpar as janelas e as paredes de fora. Tinham tanta areia que o evento arrastou para aqui", relata.

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Ana Cláudia diz que não falta o que comer, até porque os supermercados foram abrindo, e a espera para pôr combustível baixou para 45 minutos, depois de na sexta-feira se avançar "um metro de 15 em 15 minutos", em "filas com dois quilómetros".

"Olhe, estamos vivos", atira, enérgica.

Já em Monte Real, Leiria, os moradores revezam-se para encher garrafões com água da fonte pública. Ao quarto dia depois do temporal já se consegue ir comprando para matar a sede, até porque a água da fonte "não é boa para beber", mas da torneira de casa não sai nada, tal como não há luz ou comunicações.

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"Monte Real está esquecido, está morto", diz uma moradora. Tal como em outras localidades, foram atingidos telhados, montras e varandas, e a população está cansada de estar 'desligada' e sem serviços básicos.

"Não chegou ninguém. Não vi rigorosamente ninguém a perguntar 'precisam de alguma coisa?'. E foram a outros sítios. Não era para estar aqui já um gerador a ajudar as pessoas? Alguns particulares têm, compraram enquanto havia, mas eu já não apanhei", acrescenta.

Na cidade da Marinha Grande, no pavilhão onde são entregues e distribuídos alimentos, produtos de higiene, cobertores e roupas a quem precisa, Felismina Antunes, da Moita, admite que também se sentiu esquecida: "Sou compreensiva, foram muitos estragos, mas gostava que tivessem perguntado se precisava de alguma coisa. Ninguém apareceu, nem a junta."

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Em casa, onde mora com dois filhos, a idosa tem já "um fio de água", mas a luz tarda em aparecer e a comida vai-se deteriorando. Estragaram-se umas telhas e barracões com máquinas. "Estarmos vivos já é bom", diz, comentando que a desilusão reforça a falta de vontade de votar seja em que eleição for.

Também nos estaleiros municipais, onde a azáfama se repete, com a disponibilização de lonas e material de limpeza utilizado em obras, Maria Marques, que mora a poucos quilómetros, fala num "total esquecimento".

Conseguiu continuar na sua casa, mas não há luz e a água ainda não deixa tomar um banho completo. Tem móveis apodrecidos e um telhado parcialmente quebrado que "deixa entrar frio". A custo, mas sem perder a vontade, carrega agora uma lona que um conhecido vai instalar gratuitamente. "Onde é que ia dormir? A minha neta queria que fosse para casa dela, mas não podia deixar a minha casa assim", remata.

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