Papa narra naufrágio do chamado Titanic italiano. CM divulga excerto de obra que chega terça-feira às livrarias

‘Esperança’ é a autobiografia do Papa Francisco que esta terça-feira chega às livrarias de Portugal e de mais cerca de cem países.

12 de janeiro de 2025 às 23:00
Papa Francisco
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O Correio da Manhã divulga excerto da obra em que Francisco recorda o naufrágio do navio em que os avós e o pai deveriam ter emigrado de Itália para a Argentina. Excerto foi libertado pela editora, 48 horas antes de livro estar à venda.

ESCAPADOS AO TITANIC ITALIANO

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É o prólogo da autobiografia, em que se conta, com grande desenvoltura narrativa, o naufrágio do navio em que os avós paternos do Papa Francisco e o seu pai deviam embarcar para emigrar de Itália para a Argentina. A história torna imediatamente manifesta a diferença do livro em relação a qualquer outro, explicitando-o desde o início como um autêntico livro de memórias, e torna-se emblemática das muitas tragédias marítimas que caracterizam as migrações, dessa época e de hoje.

EXCERTO

Contaram que se ouviu um abalo tremendo, como um terramoto. Toda a viagem havia sido acompanhada por vibrações fortes e ameaçadoras, e «a inclinação era tal que de manhã não conseguiam apoiar a chávena com o café com leite, porque se teria derramado», mas aquilo era outra coisa: assemelhava-se mais a uma explosão, como uma bomba. Os passageiros saíram dos salões e das cabines e dirigiram-se às pontes para procurar perceber o que estava a acontecer. Era fim de tarde, e o navio rumava às costas do Brasil, na direção de Porto Seguro. Não era uma bomba: era mais um estrondo surdo. O barco a vapor continuava o seu caminho, mas o seu curso havia enlouquecido, como um cavalo à desfilada, ora guinava perigosamente, ora afrouxava. Um homem, depois de ter permanecido agarrado a um madeiro no oceano, teria testemunhado depois que vira com clareza desprender-se a hélice e a cambota do motor da esquerda. Completamente. A hélice, contaram, rasgara o navio com uma ferida profunda: a água entrava copiosamente, alagando a sala das máquinas, e, em breve, invadiria mesmo o porão, dado que também as portas à prova de água, segundo parecia, não funcionavam devidamente.

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Contaram que alguém tentara reparar a falha com painéis de metal. Inutilmente.

Contaram que os músicos da orquestra receberam a ordem para continuarem a tocar. Sem parar.

O navio continuava a inclinar-se cada vez mais, a escuridão aumentava, o mar encrespava-se.

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Quando se tornou evidente que as primeiras garantias aos passageiros já não eram suficientes, o comandante deu ordem para parar as máquinas, fez soar a sirene de alarme, e os radiotelegrafistas lançaram o primeiro SOS.

O sinal de socorro foi captado por várias embarcações, dois barcos a vapor e até alguns transatlânticos, que se encontravam nas imediações. Acorreram de imediato, mas foram todos obrigados a parar a uma certa distância, pois a vistosa coluna de fumo branco fazia temer uma desastrosa explosão das caldeiras.

Da ponte, com o seu megafone, o comandante procurava cada vez mais desesperadamente convidar à calma e coordenava as operações de socorro, dando prioridade a mulheres e crianças. Porém, quando chegou a noite, uma noite escuríssima de lua nova, o fornecimento de energia elétrica teve de ser interrompido e a situação precipitou-se totalmente.

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Foram descidas as lanchas de salvamento, mas a inclinação do navio era já terrível: muitas caíram a pique batendo no navio, outras revelaram-se ruinosas e inúteis, metiam água, que os passageiros eram obrigados a vazar utilizando os chapéus. Outras ainda, ao serem tomadas de assalto, viraram-se ou afundaram-se devido à sobrecarga. Muitos, artesãos e camponeses dos vales e das planícies, nunca antes haviam visto o mar e não sabiam nadar. Preces e gritos misturavam-se.

Foi o pânico. Muitos passageiros caíram ou lançaram-se ao mar, afogando-se. Alguns, segundo disseram, foram vencidos pelo desespero. Outros ainda, como referiu a imprensa local, foram devorados vivos pelos tubarões.

Naquele pandemónio eram incontáveis as zaragatas, mas também os gestos de coragem e abnegação. Após ter socorrido dezenas de pessoas, um jovem a quem fora atribuído um colete de salvação esperava a sua vez para se lançar à água. Foi então que viu um velho que não sabia nadar e não encontrara lugar em nenhum barco: pedia ajuda. O rapaz fê-lo vestir o seu colete de salvação, lançou-se ao mar juntamente com ele e procurou chegar à lancha mais próxima. Nadou furiosamente quando vozes cada vez mais alteradas se ergueram das ondas: tubarões! Os tubarões! Foi atacado. De uma lancha, um companheiro seu conseguiu içá-lo a bordo, mas as feridas eram devastadoras. Morreu pouco depois.

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Quando a sua história foi contada pelos sobreviventes, a Argentina ficou comovida. No seu país natal, na província de Entre Ríos, uma escola recebeu o nome do rapaz. Era filho de um migrante do Piemonte e de uma mulher argentina, e acabara de fazer vinte e um anos: chamava-se Anacleto Bernardi. Muito antes da meia-noite, o navio foi completamente invadido pela água, ergueu-se verticalmente de proa e, com um último gemido fragoroso, quase animalesco, afundou-se a pique, a mais de mil e quatrocentos metros de profundidade.

Diversos testemunhos concordaram em afirmar que o comandante permaneceu a bordo até ao fim, fazendo os restantes músicos da orquestra tocar a «Marcha Real». O seu corpo nunca foi encontrado. O certo é que pouco antes de o navio a vapor se afundar no abismo foram ouvidos muitos tiros de armas de fogo, disparados, segundo disseram, pelos oficiais que, depois de terem feito o que era possível pelos passageiros, haviam decidido que não iriam enfrentar o suplício do afogamento.

Algumas lanchas conseguiram alcançar os navios próximos e, juntamente com as provenientes das outras embarcações que acorreram, ajudaram a pôr a salvo várias centenas de pessoas.

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A recuperação dos poucos sobreviventes que tentavam permanecer à superfície como podiam prosseguiu noite dentro. Quando, antes da alvorada, outros barcos a vapor brasileiros chegaram ao local da tragédia, já não encontraram nenhum sobrevivente.

Aquele navio, com um comprimento de quase 150 metros, que havia sido, no início do século, o orgulho da marinha mercante, o mais prestigiado transatlântico da frota italiana, havia transportado personagens como Arturo Toscanini, Luigi Pirandello ou Carlos Gardel, uma lenda do tango argentino. Porém, esses tempos já lá iam. Pelo meio, tinha havido uma guerra mundial, e a usura, a incúria e a escassa manutenção haviam feito o resto. O navio era então mais conhecido como a «balaìna», a bailarina, pelas incertas condições gerais. Quando partiu para a sua derradeira viagem, perante a perplexidade do seu próprio comandante, contava a bordo mais de 1200 passageiros, predominantemente migrantes piemonteses, lígures e venezianos. Porém, também das regiões das Marcas, de Basilicata e da Calábria.

Segundo os dados fornecidos pelas autoridades italianas da época, no desastre morreram pouco mais de trezentas pessoas, em grande parte, membros da tripulação, disse-se então; porém, os jornais sul-americanos referiram um número muito mais alto, mais do dobro, incluindo também clandestinos, várias dezenas de emigrantes sírios e os trabalhadores agrícolas que iam dos campos italianos para a América do Sul passar o inverno.

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Minimizado ou ocultado pelos órgãos do regime, aquele naufrágio foi o Titanic italiano.

Não sei dizer quantas vezes ouvi contar a história daquele navio que tinha o nome da filha do rei Vítor Emanuel III, também destinada a uma morte trágica, no lager de Buchenwald, alguns anos depois, perto do final de outra guerra tremenda. O Principessa Mafalda. Contavam aquela história em família.

Narravam-na no bairro.

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Cantavam-na as canções populares dos migrantes, de um lado ao outro do oceano: «De Itália, Mafalda partira com mais de um milhar de passageiros [...] Pais e mães abraçavam os seus filhos que desapareciam entre as ondas.»

Os meus avós e o seu único filho, Mario, o jovem que viria a ser o meu pai, haviam comprado o bilhete para aquela longa travessia, para aquele navio que zarpou do porto de Génova a 11 de outubro de 1929, com destino a Buenos Aires.

Porém, não o apanharam.

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Embora tivessem tentado, não haviam conseguido vender a tempo aquilo que possuíam. No final, contra a sua vontade, os Bergoglio foram obrigados a trocar o bilhete, a adiar a partida para a Argentina.

Por isso estou aqui agora.

Não imaginam quantas vezes me encontrei a agradecer à Providência Divina.

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