Peritos europeus não atribuem culpas pelo apagão ibérico e afastam críticas às renováveis

Especialistas classificaram o evento como "o apagão mais grave no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos".

20 de março de 2026 às 10:33
Apagão em Portugal Foto: António Pedro Santos/Lusa
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Os peritos europeus que investigaram o apagão ibérico de abril de 2025 concluíram que o incidente resultou de múltiplos fatores técnicos, mas não atribuíram responsabilidades legais, remetendo essa avaliação para as autoridades nacionais.

"Trata-se de uma análise técnica, não de atribuição de culpa", afirmou esta sexta-feira Damian Cortinas, presidente do conselho da Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês), durante a apresentação do relatório final quase um ano depois do incidente.

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E explicou porquê: "Primeiro, porque não temos competência para isso, segundo, porque essa avaliação depende da interpretação da lei pelas autoridades competentes de cada país", acrescentou.

O painel, que integrou 49 especialistas de vários países europeus, classificou o evento como "o apagão mais grave no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos" e um fenómeno "nunca antes observado ou teorizado".

Em 28 de abril de 2025, a Península Ibérica sofreu uma falha elétrica que deixou milhares de pessoas às escuras por várias horas, sem acesso a transportes, comunicações e serviços básicos. Em Portugal, o apagão, que teve origem no país vizinho, foi pelas 11:33.

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Segundo explicou Klaus Kaschnitz, co-líder do painel de especialistas, o colapso teve origem numa subida rápida da tensão na rede elétrica, que desencadeou uma cascata de desligamentos de produção.

"Podemos, portanto, falar de um colapso por sobretensão", afirmou, indicando que o sistema atingiu um "ponto de não retorno" poucos minutos após o início do incidente.

A investigação identificou uma combinação de fatores, incluindo limites de tensão diferenciados, baixa carga nas linhas, falhas em sistemas de proteção e insuficiências no controlo dinâmico da tensão.

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Entre os elementos analisados esteve também o comportamento de unidades de produção renovável, mas em resposta a perguntas dos jornalistas os peritos rejeitaram uma relação direta entre o apagão e este tipo de energia.

"Isto não é sobre energias renováveis, é sobre controlo de tensão", apontou Damian Cortinas.

"O problema não é serem renováveis, mas sim a forma como implementam o controlo de tensão", detalhou.

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Os especialistas sublinharam que o controlo de tensão "é algo que se sabe fazer com qualquer tipo de geração" e defenderam que todas as unidades, incluindo as de pequena dimensão, devem contribuir para essa função.

"Uma casa isolada não tem impacto, mas milhares têm", referiu Damian Cortinas.

Os peritos concluíram ainda que o incidente teve origem maioritariamente local, mas escalou rapidamente, sublinhando, por várias vezes, que "não houve uma única causa, mas sim uma combinação de vários fatores".

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Entre as recomendações, defenderam o reforço do controlo de tensão e da coordenação entre produção, distribuição e transporte de eletricidade.

Além disso, o responsável esclareceu que um dos objetivos da investigação "não é apenas perceber o que aconteceu em Espanha e o que pode ser feito lá, é também perceber que lições podem ser retiradas para o resto da Europa", acrescentando que "Espanha tem sido pioneira em vários aspectos da transição energética".

"Acreditamos que está a enfrentar situações que outros países também poderão vir a enfrentar. O importante é usar esse conhecimento para prevenir. E reforço esta mensagem: tudo o que incluímos nas recomendações pode ser feito. Não há nada que esteja fora do que é tecnicamente possível hoje", garantiu.

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"O sistema elétrico é extremamente complexo e regido por leis físicas. Estas devem ser consideradas no desenho de mercados, regulamentação e políticas energéticas. Sabemos agora o que aconteceu, sabemos como evitar --- e devemos implementar as soluções", concluiu.

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