Portugueses expulsos de restaurante na Caparica por chamaram "p... refugiada" a funcionária
Em causa está uma publicação compartilhada pelo deputado do Chega Rui Paulo Sousa nas redes sociais, que denuncia, erradamente, que 'portugueses foram expulsos de um restaurante indostânico por falarem português'.
Uma publicação viral partilhada gerou forte debate nas redes sociais ao alegar que cidadãos portugueses teriam sido expulsos de um restaurante indostânico na Caparica simplesmente por falarem português. Em contraste com a versão inicial difundida online, apurou-se que o episódio ocorreu na sequência de um conflito no estabelecimento, motivado pelo facto de os clientes terem insultado uma funcionária - apelidando-a de "p... refugiada" - por esta não falar português.
A controvérsia ganhou tração na última terça-feira, 7 de agosto, quando o deputado do Chega, Rui Paulo Sousa, recorreu às redes sociais para denunciar o caso, classificando-o como "uma vergonha" e afirmando que portugueses haviam sido expulsos por utilizarem a sua própria língua.
Segundo o deputado, que é presidente da Comissão de Transparência do parlamento e vereador na Câmara da Amadora, "o responsável, que não falava a nossa língua, exigiu que falassem inglês e ainda ameaçou chamar a polícia".
Anexo às publicações, Rui Paulo Sousa junta um vídeo de 20 segundos copiado de uma conta do Instagram onde se vê um homem a apontar a porta de saída a um grupo de quatro pessoas, três mulheres e um homem, que tentam explicar que "são portugueses, não sabem falar inglês e queriam explicações do que iriam consumir", ao que o homem insiste em pedir "por favor" para saírem e ameaça chamar a polícia.
No dia seguinte, o tema foi amplificado pelo presidente do Chega, André Ventura, que convidou os seus seguidores a verem o vídeo. "Vocês têm de ver isto. Parece que agora em Portugal podemos ser expulsos de restaurantes porque falamos, imaginem, português. Vejam o vídeo", apelou.
Depois das imagens, Ventura afirma que "isto é o resultado de sermos uns cornos mansos, de deixarmos que os outros façam o que querem" e lamenta que tenhamos de "nos vergar aos outros", assegurando no final que não aceita isto. "Por nós não passarão", remata no final das publicações que já somam mais de 1,7 milhões de visualizações.
Vídeo conta apenas metade da história
Para verificar a autenticidade do vídeo foram feitas várias pesquisas por fotogramas e por palavras chave, bem como analisados os comentários nestas e noutras publicações anteriores com o mesmo teor, incluindo a conta de Instagram que publicou o vídeo copiado por Rui Paulo Sousa, que tem uma versão ligeiramente diferente e refere que a cena teve lugar "num hotel em Portugal".
As várias pesquisas permitiram localizar uma versão do vídeo publicada a 14 de julho, no Facebook, onde o autor da partilha descrevia que "as senhoras foram a um bar na Costa da Caparica, pediram esclarecimentos sobre uma bebida ao funcionário que não sabia falar português e acabaram por ser expulsas desse bar, porque o dono achou que as senhoras estavam a ser RACISTAS".
A esse vídeo foi adicionada uma legenda atabalhoada, alegadamente do testemunho das visadas: "Fomos expulsas do bar pacha na costa da caparica porque não sabias falar inglês e queríamos saber a sabor da sisha este senhor foi super agressiva e não gravei desde o início. Funcionária não sabe falar português para explicar os sabores da sisha", lê-se.
Segundo os queixosos, questionaram se tinham alguém que soubesse falar português, mas quem atendeu foi "super rude": "disse que não sabia e que se fôssemos a França por exemplo tínhamos aue saber falar, atendeu na mesma porgue tínhamos um familiar que sabia o mínimo e fizemos o pedido. Passado 5 minutos vem o 'gerente' do bar super bruto a expulsar-nos no bar onde parecíamos cães. Fomos acusados de racistas. Foi super agressivo. Chamamos a gnr e claramente não deu em nada".
Através de pesquisas por palavras chave foi possível identificar o 'link' deste texto no que parece ser a publicação original no TikTok através da memória 'cache' da Google, mas o vídeo já tinha sido removido.
Já na análise aos comentários foram detectados alertas para o facto de a história poder estar mal contada e vários utilizadores remeteram para um "pedido de desculpas e esclarecimento público" já publicado por outra conta de Instagram que também tinha divulgado o vídeo e a história incompleta da expulsão.
Nesse texto destacado na página EM FOCO, dedicada a "informação, atualidade e tendências", os autores da publicação inicial explicavam ter obtido esclarecimentos do estabelecimento Pasha e pediam desculpas pela publicação inicial que mostrava apenas parte do incidente.
"A notícia foi publicada com base num vídeo que mostrava apenas os momentos finais da ocorrência, sem que tivéssemos acesso ao contexto completo dos acontecimentos. Após recebermos a versão do estabelecimento, compreendemos que a narrativa inicialmente transmitida não refletia a totalidade dos factos."
"Segundo o esclarecimento recebido, os clientes não foram convidados a abandonar o estabelecimento por falarem português ou por qualquer motivo relacionado com a sua nacionalidade ou idioma. A decisão foi tomada na sequência de um alegado comportamento desrespeitoso para com uma colaboradora do espaço, incluindo a alegada utilização da expressão ofensiva "mais uma p... refugiada", situação que terá motivado a intervenção do gerente."
Clientes foram expulsos devido a "comentários indecentes"
A Lusa Verifica encontrou esta explicação nas 'stories' da página do Pasha Beach Club no Instagram e ouviu quer a proprietária deste restaturante da Costa de Caparica, quer o homem que surge no vídeo, que é o marido e gerente.
A dona, Ana Duram, empresária portuguesa regressada a Portugal há cinco anos após ter vivido e trabalhado no Reino Unido, e Mahmoud Al-Hadad, palestiniano com nacionalidade inglesa, reiteraram que os clientes foram mal educados e racistas.
"Estava na cozinha e os colegas brasileiros que falam português já tinham saído. Só estava a colega argelina que me contou-me que lhe perguntaram "se não falas português o que fazes aqui?", num tom racista e malcriado e, mais tarde, quando explicou que não podia caracterizar os sabores da shisha [cachimbo de água], até por razões legais, ouviu o comentário de que era "mais uma p... refugiada".
"Nesse instante decidi pedir-lhes para sair porque foram racistas com a minha colega. Não gritei nem os empurrei, pedi-lhes várias vezes para saírem no meu portugues limitado, é certo. Mas jamais expulsaria clientes se não tivessem sido malcriados", contou Mahmoud.
Segundo o empresário, todo o episódio foi testemunhado por clientes italianos que fizeram questão de falar com os agentes da Polícia Marítima que entretanto foram chamados ao local pelos clientes. Mas nem os clientes, nem a empresária, que entretanto já tinha chegado, decidiram apresentar queixa no local, nem pedir identificações formais.
Numa conversa interrompida várias vezes pelas lágrimas, Ana Duram mostrou-se muito afetada pelo episódio, sobretudo pela difamação do seu negócio e pelas mensagens de ódio que diz estar a receber nas redes sociais e até por telefone devido a "um vídeo curto que conta apenas a segunda parte com a narrativa da cliente."
"De facto, a nossa funcionária atendeu em inglês e explicou que não falava português, mas percebeu o que eles disseram e ninguém deve admitir aquilo. Mas ela nem reagiu e foi fazer os 'cocktails', momento em que comentou com o meu marido. Foi aí que ele decidiu pedir-lhes para sair, em português, porque eles foram mal educados e racistas, mas isso não filmaram", lamenta.
Dona do restaurante vai processar quem publicou o vídeo
Apesar de não ter pedido que os clientes fossem identificados, a empresária apercebeu-se que o vídeo do incidente foi colocado no TikTok de uma das clientes mais jovens, que entretanto o apagou, e decidiu processá-la.
"Há muita coisa mal na imigração ilegal, mas isto é indecente e por isso já avancei com um processo porque não aceito que maltratem a nossa funcionária, que não é uma refugiada mas podia ser, porque também temos cá uma refugiada síria. Não admito faltas de respeito nem a clientes nem a empregados. Ela tem de ser respeitada e isto vai ter repercussões porque estamos a receber chamadas e mensagens de ódio e iremos processar quem estiver a difamar-nos, incluindo os deputados do Chega", avança.
Depois do contato da Lusa Verifica, o Pasha Beach Club divulgou este esclarecimento que denuncia a "narrativa falsa" que está a ser amplificada nas redes sociais (https://archive.ph/nG3Ar ): "a nossa colaboradora Hajar, (...) que está inserida numa equipa multicultural num restaurante com equipa multicultural não pode ser mal tratada e ser descriminada. (...) Os factos estão registados pelas câmaras de vigilância e poderão ser comprovados pelas autoridades competentes."
A Lusa Verifica também identificou a conta da jovem que inicialmente publicou o vídeo no TikTok, apesar de ter mudado o nome, e contactou-a por email, mas ainda não obteve resposta.
O gabinete de imprensa do Chega também foi contactado e informado do esclarecimento do restaurante, mas até ao momento não respondeu às questões enviadas.
Já o deputado Rui Paulo Sousa, contactado por WhatsApp, num primeiro momento admitiu desconhecer qual é o restaurante e que não fez qualquer verificação antes de partilhar o vídeo: "publiquei o vídeo do acontecimento, o qual não tenho qualquer motivo para acreditar que seja falso."
Numa segunda resposta, após ser dado conhecimento do esclarecimento do Pasha, afirmou que manteria as publicações: "É a palavra deles contra a palavra de quem fez o vídeo. Eles estão no direito de fazer o que quiserem e processarem quem quiserem. Eu coloquei o vídeo que foi partilhado por quem o filmou e vou manter o mesmo até decisão do tribunal de que o vídeo não corresponde à verdade".
É falsa a narrativa que está a ser amplificada por deputados do Chega de que um grupo de portugueses foi expulso de um restaurante indostânico por falarem português e porque os empregados não falavam a língua.
Mas é verdade que os clientes foram expulsos por comportamentos racistas, como revelam os proprietários do restaurante mediterrânico localizado na Costa de Caparica, e até a legenda original do vídeo, no qual os visados admitiam ter sido acusados de racismo.
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