Tratar e valorizar a estética
O nariz não escapa à vontade galopante de ter um corpo perfeito, daí que a rinoplastia que dá primazia à vertente estética não pare de crescer em Portugal. Ainda assim, oitenta por cento das cirurgias são realizadas devido a um problema funcional do aparelho respiratório. As dificuldades em respirar, a obstrução nasal ou problemas de garganta são razões que levam os doentes a recorrer à cirurgia. Mesmo nestes casos, são muitos os que aproveitam a intervenção para corrigir defeitos de imagem.
Os problemas no septo nasal – parede no interior do nariz que divide em dois a cavidade nasal e as narinas – atingem 85 por cento dos portugueses. "Há uma grande quantidade de pessoas com problemas em respirar pelo nariz. As pessoas actualmente dão muito mais importância à qualidade de vida e procuram a medicina preventiva", diz António Sousa Vieira, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia.
As situações mais graves estão ligadas a situações traumáticas, em que há desfiguração. Nesses casos, o cirurgião torna-se "um escultor". "Temos de reconstruir e ir buscar a outras partes do corpo estruturas parecidas com o que queremos mudar. O mais comum é recorrer a cartilagens das orelhas, mas também às costelas", explica Sousa Vieira.
O CM assistiu a uma rinoplastia no Hospital da Boavista, Porto, em que foi usada a técnica aberta. Demora cerca de duas horas e meia e recorre-se a anestesia geral. O cirurgião explica a intervenção: "Fazemos o levantamento de toda a pele que reveste o nariz para termos acesso às estruturas. Assim, podemos remodelá-las de forma mais fácil e detalhada, o que permite corrigir os defeitos e fazer muito menos cortes." A componente psicológica tem um valor importante. "Temos de perceber o doente no seu todo, devemos ir à procura do perfil psicológico. Nunca opero antes de duas consultas", garante.
"TOMAM ANTIDEPRESSIVOS"
O Estado comparticipa e faz nos hospitais centrais a maioria das rinosplastias de cariz funcional. Mas, para Sousa Vieira, os benefícios estatais deveriam ser alargados. "A cirurgia estética também devia ser comparticipada. Isto porque a Organização Mundial de Saúde diz que não são só os transtornos físicos e orgânicos que são doença. Há pessoas que têm um problema com a sua imagem e que não se conseguem ver ao espelho. São doentes que tomam antidepressivos", explica. As consequência, frisa o especialista, denotam--se depois na abstinência laboral e nos conflitos pessoais.
PORMENORES
REINCIDÊNCIA
Os especialistas defendem que na cirurgia estética há que ir passo a passo. A cirurgia de revisão anda na casa dos dez por cento e a maioria delas está programada.
RECUSAS
Sousa Vieira diz que em alguns casos se recusa a fazer a cirurgia, porque os doentes chegam com expectativas sobredimensionadas. Normalmente têm distúrbios psicológicos associados.
OS RISCOS DA VISIBILIDADE
Os riscos desta intervenção são os inerentes a qualquer cirurgia, a que acresce o facto de o resultado de uma rinoplastia estar à vista de toda a gente. "Se não correu bem, não podemos pôr roupa por cima. A cara é visível para toda a gente", considera Sousa Vieira.
Segundo o especialista, em Portugal o problema funcional é ainda primordial. "Actualmente, as pessoas tentam melhorar o seu aspecto, tal como vão ao ginásio, usam cremes e têm mais cuidado com a roupa. É um sinal da sociedade moderna", admite.
O MEU CASO: MARTA ALMEIDA
"ESTAVA HORRORIZADA"
Um desastre. Assim rotula Marta a sua primeira rinoplastia. Um trauma que durou cerca de nove meses, até uma segunda cirurgia para reconstruir o que a anterior destruíra. "Não me conseguia olhar ao espelho. Durante quase um ano evitei estar com amigos, faltei a casamentos, porque não gostava da minha imagem. Estava horrorizada", conta ao CM Marta Almeida, gestora, de 30 anos.
Recorreu à cirurgia porque um desvio acentuado no septo nasal a fazia respirar mal. Há um ano, ficou com "uma parte do nariz caída". "O médico disse que era da cicatrização, mas não era. Aquela deformidade não se corrigiria com o tempo. Alguns meses depois, fui ao consultório dele, e reconheceu que as coisas não tinham corrido bem", contou.
A busca que se seguiu para reparar os estragos foi incessante. Correu vários especialistas até à decisão final.
"Antes da primeira operação, apesar do problema, tinha um nariz bastante simétrico, apenas com uma bolinha na ponta, que queria corrigir. Depois da intervenção passei momentos muito complicados, em termos psicológicos. Fiquei deprimida", recorda.
Há três meses, surgiu a solução. O nariz com que sonhara é agora realidade. "Todos os especialistas me diziam que ia ser complicado, mas tive sorte e estou muito satisfeita. Foi um trabalho espectacular do cirurgião", reconhece Marta Almeida.
A gestora só tem uma certeza: não quer voltar a mexer no nariz. "Foi uma experiência traumatizante, mas tudo acabou bem".
PERFIL
Marta Almeida tem 30 anos e há um ano recorreu à rinoplastia para corrigir um desvio no septo nasal, que lhe trazia problemas respiratórios. Natural de Aveiro, estudou Gestão na Universidade do Porto e é há poucos anos gestora em diversas empresas. É casada e tem um filho.
DISCURSO DIRECTO
"CIRURGIA RONDA OS CINCO MIL EUROS", João Carlos Pinto Ferreira, Cirurgião de Otorrino
Correio da Manhã – Como é que se processa o pós-operatório?
Pinto Ferreira – O internamento é de curta duração, e pode durar até três dias. A cicatrização demora duas a três semanas, durante as quais o doente tem de usar uma tala ou gesso na face para proteger o nariz. Depois, o resultado final demora entre seis meses e um ano a ficar consolidado.
– Há algum limite de idade para fazer esta cirurgia?
– Não existe, ainda para mais se estivermos a falar de uma situação traumática, em que todos são operáveis. Mas numa intervenção estética, tendo em conta que a partir dos 60 anos a elasticidade dos tecidos é menor, não se justifica, porque os benefícios são diminutos.
– Qual o valor destas cirurgias quando não são comparticipadas pelo Estado?
– O cirurgião recebe, em média, cerca de dois mil euros. Há que acrescentar o dinheiro que se gasta em material e em bloco operatório. Penso que deverá rondar, no total, os cinco mil euros.
BISTURI ELÉCTRICO
Durante a intervenção cirúrgica, os especialistas usam um bisturi eléctrico. A anestesia é normalmente geral.
ACTIVIDADE FÍSICA
Os desvios do septo nasal criam frequentemente dificuldades de respiração que prejudicam a actividade física.
RESSONAR
As constipações prolongadas, bem como o ressonar, são problemas associados ao desvio do septo nasal.
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