Um ano após a tragédia no elevador da Glória, a investigação ainda decorre
Relatório final ao acidente só estará pronto no final do primeiro trimestre do próximo ano. Indemnizações às vítimas estão a ser pagas a conta-gotas. Justiça apura responsabilidades criminais.
Nem relatório final, nem indemnizações. Um ano após a tragédia no elevador da Glória, a investigação ao acidente ainda decorre, e a grande maioria das vítimas, ou os seus familiares, ainda não receberam qualquer verba relativa aos danos causados pelo descarrilamento do funicular.
O relógio marcava 18h00 do dia 3 de setembro de 2025, quando a cabina 1 iniciou a descida, entre o Bairro Alto e a Praça dos Restauradores. Pouco depois, o cabo de sustentação que interliga os dois elevadores cedeu. A cabina 1 descarrilou e seguiu desgovernada, Calçada da Glória abaixo, até embater violentamente na fachada de um edifício. Dezasseis pessoas morreram, 24 ficaram feridas. Passageiros habituais e turistas de várias nacionalidades. Além do guarda-freio, André Marques, mais quatro portugueses perderam a vida, todos trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia: Alda Matias, Pedro Trindade, Ana Paula Lopes e Sandra Coelho. A tragédia, que rapidamente foi noticia à escala mundial, só não foi maior porque a cabina 2, em movimento ascendente, ainda tinha percorrido poucos metros. Resvalou, mas manteve-se nos carris, ainda que tenha provocado o pânico de quem seguia no elevador. “Só tivemos tempos de virar costas e começar a correr, porque não sabíamos se o elevador que vinha de cima ia bater no de baixo”, contou, na altura, uma testemunha ao CM. “Foi um estrondo enorme”, relatou outra testemunha. “Quando olhei, vi o elétrico completamente destruído devido ao embate no prédio, algum pó a levantar-se, e muitas pessoas a gritarem. Foi horrível”, disse.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) emitiu esta quarta-feira um comunicado onde faz o ponto da situação do inquérito ao acidente, que corre no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa. A PGR esclarece que a investigação “aguarda a conclusão dos ensaios e peritagens técnicas, que se prevê que deva ocorrer no próximo mês de novembro”. “Seguir-se-á a análise minuciosa dos factos, a avaliação criteriosa sobre a suficiência de indícios e o apuramento de eventuais responsabilidades criminais, pelo que se estima que o despacho final de inquérito, salvo algum imponderável, possa ocorrer até ao final do primeiro trimestre de 2027”, acrescenta a PGR. Com vista ao apuramento de eventuais responsabilidades criminais, a PGR quer ver esclarecidas matérias como o funcionamento “do sistema elétrico dos veículos e a sua relação com os sistemas de frenagem e com o cabo de tração”, assim como “a orgânica empresarial e os processos de manutenção e de certificação em qualidade e segurança em uso na Carris”. A PGR admite que as perícias em curso são de “elevada complexidade técnica”.
Vítimas e familiares descontentes
Vítimas e familiares escreveram uma carta aberta a lamentar a falta de acompanhamento, alegando que muitas famílias só foram contactadas uma vez pela Câmara de Lisboa (CML), e lamentam a demora no pagamento das indemnizações. Os subscritores da carta, revelada pela RTP, exigem ainda comunicação clara, transparência e responsabilização pelo sucedido. A oposição ao executivo camarário também teceu duras críticas a Carlos Moedas, acusando-o de estar “à margem dos esclarecimentos e responsabilidades”.
Novo elevador só em 2029
O futuro elevador da Glória será construído de raiz e deverá começar a circular em 2029, de acordo com o projeto apresentado esta semana pelo presidente da Carris. “É um equipamento seguro, é um equipamento moderno, uma cabina semelhante à anterior, mas não será em madeira, será em materiais mais resistentes a qualquer embate, a qualquer circunstância”, explicou Rui Lopo. O concurso para a realização do projeto deverá ocorrer até ao final do primeiro trimestre de 2027.
Pormenores
Arguidos Três
A investigação ao acidente do elevador da Glória já conta com três arguidos: o antigo diretor de Manutenção do Modo Elétrico da Carris, Filipe Fraga; Gustavo Pita Soares, sócio-gerente da empresa responsável pela manutenção dos elevadores históricos de Lisboa; e a empresa da manutenção, a MNTC, de acordo com o jornal ‘Público’. Não está afastada a constituição de mais arguidos neste processo.
Investigação dúvidas
De acordo com a Procurado- ria-Geral da República (PGR), no decorrer dos trabalhos periciais “surgiram novas dúvidas e necessidade de esclarecimentos técnicos adicionais”. A PGR esclarece ainda, em comunicado, que a investigação prosseguiu em período de férias judiciais, que terminaram no dia 31 de agosto.
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