Universidade de Coimbra lidera experiência que regressou à Terra um ano depois
Material utilizado em sensores das câmaras de futuros telescópios de raios gama ter estado exposto ao ambiente espacial
Uma experiência científica liderada pela Universidade de Coimbra regressou à Terra, depois de material utilizado em sensores das câmaras de futuros telescópios de raios gama ter estado exposto ao ambiente espacial durante cerca de um ano.
De acordo com a Universidade de Coimbra, a experiência científica GLOSS (Gamma-ray Laue Optics and Solid State detectors: Optica para raios gama e sensores de estado sólido) regressou à Terra a bordo da cápsula Cargo Dragon C211 da Space X, tendo amarado no Oceano Pacífico ao largo de San Diego, Califórnia, EUA.
Intitulada SpX-33, esta missão foi liderada por Rui Curado Silva, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e por Jorge Maia, da Universidade da Beira Interior (UBI), ambos investigadores do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) de Coimbra.
Durante cerca de um ano, amostras de materiais (CZT: telureto de cádmio e zinco) das câmaras dos futuros telescópios de raios gama estiveram expostas ao ambiente espacial, nomeadamente a radiação orbital, amplitudes térmicas extremas e oxidação.
"Nestes sensores, quando em operação no espaço, as suas prestações degradam-se e perdem sensibilidade observacional. Até ao presente, a relação entre o tempo de exposição destes sensores ao ambiente espacial e a degradação das suas prestações nunca foram estudadas com a requerida profundidade", explicou Rui Curado Silva.
Para se observar o Universo nas bandas dos raios X e dos raios gama (astrofísica de altas energias), Jorge Maia afirmou ser necessário "colocar no espaço telescópios equipados de sensores capazes de captar imagens do céu nestas bandas do espetro eletromagnético, porque a atmosfera absorve este tipo de radiação antes de chegar à superfície da Terra".
De acordo com os especialistas, estes sensores estiveram na plataforma Bartolomeo da Estação Espacial Internacional, exposta em permanência ao ambiente exterior de radiação, bem como a variações de temperatura extremas, cerca de -150°C quando a Estação Espacial orbita do lado noturno da Terra, e a temperaturas na ordem dos 120°C quando a Estação se encontra do lado do sol.
Os sensores expostos ao ambiente espacial da Estação Espacial Internacional serão devolvidos a Coimbra dentro de dois meses, onde "serão testados para avaliar o nível de degradação operacional quando as suas prestações serão comparadas com as prestações de sensores iguais que permaneceram na Terra".
"A partir desta análise, vamos validar a viabilidade destes sensores serem integrados nos futuros telescópios espaciais para astrofísica de altas energias, bem como perceber de que forma será possível produzir sensores ainda melhores", indicaram.
Desta forma, os especialistas esperam "contribuir para o desenvolvimento de instrumentação para astrofísica de altas energias e, por consequência, para a sensibilidade de observação, que poderá ter impactos importantes na compreensão da física das ondas gravitacionais, recém-descobertas".
Além da Universidade de Coimbra, a experiência GLOSS integra equipas do Observatório de Astrofísica e Ciências do Espaço de Bolonha, do Instituto Nacional de Astrofísica de Itália (INAF/OAS-Bologna) e do Instituto de Materiais para Eletrónica e Magnetismo do Conselho Nacional de Investigação de Parma (CNR/IMEM-Parma, Itália).
Esta experiência foi financiada pelo programa PRODEX da Agência Espacial Europeia e da Agência Espacial Portuguesa.
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