Universidades terão de atualizar ensino e avaliação à era da IA
Medida foi defendida pelo Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior.
As instituições de ensino superior terão de atualizar o ensino e a avaliação à era da inteligência artificial (IA), defende uma das conselheiras para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior, que propõe modelos mais focados nas competências.
"Não se pode ignorar a IA, já está embebida em grande parte do nosso dia a dia e não vai deixar de estar nos contextos profissionais. Se não for feito trabalho a esse nível, incluindo do ponto de vista da revisão curricular, os estudantes ficam para trás", avisa Sandra Soares.
A vice-reitora da Universidade de Aveiro integra o Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior (CNIPES), que apresentou esta quinta-feira as conclusões de um diagnóstico nacional sobre a adoção da IA generativa nas instituições.
Segundo o diagnóstico, mais de metade das instituições de ensino superior já adotou a IA no ensino, mas essa continua a ser uma experiência pouco transversal, existindo diferenças até dentro da mesma unidade orgânica.
Em alguns casos, a formação dos docentes é mais robusta em comparação com a aposta na formação dos estudantes e a IA é integrada em disciplinas, cursos ou projetos específicos, ao invés de programas estruturais e longitudinais.
Em entrevista à agência Lusa, Sandra Soares reconheceu que as transformações foram rápidas e que ainda existe pouca evidência científica sobre o tema, mas se os modelos tradicionais de ensino e de avaliação já careciam de atualização há algum tempo, a chegada da IA torna essa necessidade ainda mais urgente.
"É um desafio, mas não podemos deixar de o abraçar, tendo muita consciência dos riscos, mas sabendo que a IA tem um potencial enorme na aprendizagem dos estudantes e nas competências que eles podem adquirir", sublinha a especialista.
Algumas universidades e politécnicos já estão a desenvolver esse trabalho, mas, segundo o relatório do CNIPES, o sistema movimenta-se "com ritmos distintos".
"O que pretendemos é garantir um equilíbrio para que instituições diferentes não andem a diferentes velocidades e, por isso, os estudantes não tenham também competências diferentes", refere, acrescentando que a literacia sobre IA deve ser generalizada e não específica das áreas tecnológicas.
Desde logo, as instituições deverão atualizar a foram como ensino e avaliam os estudantes, e Sandra Soares propõe uma "transformação do papel do docente e, naturalmente, dos estudantes", abandonando a perspetiva do professor "num palco" a transmitir informação que o estudante recebe e memoriza passivamente.
"Se pensamos, por exemplo, em abordagens pedagógicas como a aprendizagem baseada em desafios ou em projetos, é disso que estamos a falar", explica, sublinhando que, neste contexto, o professor passaria a ser uma espécie de "arquiteto de aprendizagem" e mentor dos estudantes.
Também no que respeita à avaliação, a conselheira sugere modelos que, ao invés de se centrarem no "produto final", priorizem o processo.
No entender de Sandra Soares, as formas tradicionais de avaliação -- como testes e trabalhos escritos que, atualmente, podem ser realizados em poucos minutos, ou até segundos, através da IA generativa -- passaram a ter associado um risco acrescido.
"Se estamos a focar-nos no produto, o risco de termos estudantes que não desenvolveram as competências que pretendíamos e não estão preparados para concluir um ciclo de estudos e ir para o mercado de trabalho é muito maior", alerta.
O relatório do CNIPES foi apresentado esta quinta-feira, em Tomar, num evento dedicado à "Liderança Estratégica para a Inteligência Artificial na Educação Superior", onde estão também a participar reitores das universidades e presidentes dos politécnicos.
Os contributos dos responsáveis das instituições serão considerados também nas recomendações que o CNIPES vai integrar ao Governo até ao final de junho.
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