Abandono no Vale do Tejo obriga agricultores a manter o território com remendos

Entre a Azambuja e Santarém, multiplicam-se estruturas remendadas à pressa, seguradas por estacas improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores.

07 de março de 2026 às 08:44
Abandono no Vale do Tejo obriga agricultores a manter o território com remendos Foto: António Pedro Santos/Lusa
Abandono no Vale do Tejo obriga agricultores a manter o território com remendos Foto: António Pedro Santos/Lusa
Abandono no Vale do Tejo obriga agricultores a manter o território com remendos Foto: António Pedro Santos/Lusa

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As cheias deste inverno trouxeram à superfície o que os agricultores do Vale do Tejo dizem há anos: um território onde diques, valadas, estradas e portas de água cedem ao primeiro embate, porque a manutenção desapareceu.

Entre a Azambuja e Santarém, multiplicam-se estruturas remendadas à pressa, seguradas por estacas improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores. Um desses locais é a estrada de acesso ao Palácio da Rainha, na Azambuja, onde a via cedeu e o trânsito está cortado.

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Onde antes havia um caminho de terra batida que seguia direto para o Palácio da Rainha, resta agora um desnível bruto, cortado por uma corrente de água que avança e recua ao ritmo da maré.

A água, ainda alta depois das cheias, avança lentamente sobre a margem exposta, inundando parcelas que já tinham cultura de inverno instalada e fragilizando o terreno onde deveria, nas próximas semanas, ser preparado o tomate, a cultura dominante da região da Azambuja.

"A estrada já precisava de manutenção há muito tempo", diz Edgar Sousa, técnico agrícola que percorre a zona quase todos os dias.

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Preparar terreno para o tomate, uma cultura que pode representar 10 mil euros por hectare, tornou-se impossível neste cenário, uma vez que a terra não está em condições de ser trabalhada.

A solução, insiste, não passa por "remendos". O que ali aconteceu não se resolve com um camião de terra ou uma máquina a alisar o caminho.

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"Isto só com uma intervenção de fundo", afirma, olhando para o corte que dividiu a estrada, consciente de que outra cheia levaria qualquer arranjo provisório.

À chegada ao local, o presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo, Luís Neves, olha para o rombo na estrada e não se surpreende com o que encontra, apenas confirma o que, diz, vem alertando há anos.

"Há danos diretos das cheias, mas o problema é estrutural", afirma, enquanto aponta para o caminho ferido e para os campos onde a água entra sem resistência.

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"Não podemos adivinhar tempestades, mas podemos fazer a nossa parte", diz. Dragagens, limpezas, manutenção dos taludes, reforço dos tapadões, tudo isso, assegura, "não tem sido feito". E é por isso que, quando chega uma cheia mais forte, as infraestruturas cedem em série. "Se forem de barco pela vala acima, vão ver. Está praticamente tudo comprometido", avisa.

O dirigente fala de desinvestimento "gritante", de anos em que a manutenção foi sendo adiada até deixar de existir. O resultado, explica, não é apenas um rombo num caminho agrícola. É um território inteiro fragilizado, do Tejo ao Mondego, onde cada episódio extremo expõe falhas acumuladas.

"Podíamos minimizar muita coisa se a manutenção fosse feita", afirma, recordando que todos os anos, após cada cheia ou incêndio, multiplicam-se visitas e declarações institucionais, enquanto a intervenção estrutural continua por acontecer.

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O que está em causa, insiste, não é um tema agrícola, mas um tema de território.

"Se fosse uma autoestrada ao lado da Autoeuropa e aquilo caísse, ninguém hesitava. Aqui, como é campo, parece que vale menos", desabafa.

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Com marés que chegam aos 3,80 metros, explica, "estas terras ficam incultas" e o impacto multiplica-se muito para lá dos agricultores afetados.

"Se perdermos mil hectares aqui, isso pesa na economia da região", afirma, acrescentando: "São 1.500, 2.000 hectares de produção que podem desaparecer".

Outro dos pontos críticos da visita fica alguns quilómetros adiante, junto à vala, onde uma porta de água antiga mostra sinais evidentes de cedência. Construída há muitos anos, a estrutura está hoje sob responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), mas quem a tenta manter são os agricultores da zona, que a vão segurando "com estacas improvisadas", tentando travar "os pequenos rombos que vão aparecendo", explica Edgar Sousa.

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Esse esforço, porém, coloca-os perante um problema: ao tentar preservar infraestruturas, arriscam-se a ser multados.

"Corremos o risco de ser autuados por estar a intervir num património do Estado sem autorização", diz Edgar.

E quando tentam fazer tudo de forma formal, a burocracia bloqueia qualquer resposta rápida. A autorização pode demorar até seis meses, um prazo impossível de compatibilizar com prazos agrícolas.

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"Em plena campanha, não podemos esperar seis meses para resolver um problema que compromete milhares de euros", sublinha.

O risco desta porta de água vai muito além das terras agrícolas. Atrás desta estrutura estão armazéns logísticos da Modis e da Sonae, que abastecem supermercados e centros de distribuição de grande parte da região centro e de Lisboa.

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"Se este rombo avançar, a água chega facilmente aos armazéns", alerta Edgar, um cenário que pode deixar instalações alagadas, comprometer trabalhadores e atingir diretamente a cadeia de abastecimento alimentar da região.

Depois deste ponto, a visita segue pela água. Para perceber a extensão dos danos ao longo da vala, a Lusa acompanha um passeio de barco entre a Azambuja e Virtudes, um percurso que confirma aquilo que os agricultores repetem no terreno: grande parte das estruturas só continuam de pé porque estacas lhes dão algum suporte. À medida que o barco avança, sucedem-se troços de margem sustentados por estacarias improvisadas, remendos que seguram a terra apenas o suficiente para evitar que a água leve tudo na próxima maré.

São os agricultores que, na ausência de intervenção pública, tentam manter portas de água, valados e drenagens, assumindo riscos que incluem a possibilidade de serem multados por intervir em património público sem autorização.

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"Sem este trabalho de tapar buracos, muitas destas zonas já tinham desaparecido. Os agricultores estão a cuidar do território na medida das suas possibilidades, mas há intervenções que estão muito acima do que conseguem fazer", comenta Luís Neves.

A solução, defende, passa pela criação de uma entidade gestora do território, semelhante às existentes noutros regadios coletivos, capaz de assegurar drenagens, margens e infraestruturas agrícolas com uma gestão coordenada.

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"É preciso que os proprietários, arrendatários, juntas e autoridades cheguem a uma plataforma de entendimento."

Para o responsável, o objetivo é garantir que o vale do Tejo, e os hectares que o compõem, deixe de depender de remendos individuais e passe a ter uma estrutura de gestão capaz de responder à escala do território.

"Sem isso, continuaremos sempre a sobreviver com o possível, e não com o necessário", afirma Luís Neves, que apela a que o território não seja esquecido.

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"Mil hectares não mexem no PIB [Produto Interno Bruto]. (...) Este território é desprezado. Lembram-se dele para pescar, passear ou admirar a paisagem, mas não quando é preciso fazer obra e manter o que existe", conclui.

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