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Correio da Manhã

Sociedade
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Mudanças climáticas estão a mudar a face do esqui profissional

Invernos cada vez mais incertos, com menos neve e calor fora de época são cada vez mais frequentes.
José Carlos Marques 27 de Março de 2019 às 16:37
Um canhão de produção de neve em ação em Verbier, estância de esqui da Suíça
A estância de esqui de Cambre d'Aze nos Pirinéus franceses, praticamente sem neve em janeiro de 2019
A esquiadora Michele Gagnon despiu-se perante o calor que se fez sentir numa prova em Andorra, disputada em março de 2019
Um canhão de produção de neve em ação em Verbier, estância de esqui da Suíça
A estância de esqui de Cambre d'Aze nos Pirinéus franceses, praticamente sem neve em janeiro de 2019
A esquiadora Michele Gagnon despiu-se perante o calor que se fez sentir numa prova em Andorra, disputada em março de 2019
Um canhão de produção de neve em ação em Verbier, estância de esqui da Suíça
A estância de esqui de Cambre d'Aze nos Pirinéus franceses, praticamente sem neve em janeiro de 2019
A esquiadora Michele Gagnon despiu-se perante o calor que se fez sentir numa prova em Andorra, disputada em março de 2019

A estância de esqui de Cambre d'Aze, nos Pirinéu franceses, fechou este domingo. A neve deste ano foi tão pouca que, no início de janeiro, a estância ainda não tinha aberto ao público um único dia. E acabou por encerrar este domingo, uma semana antes do previsto. "Não me lembro de um ano tão mau", diz o diretor ao site francês L'Independant. Um sinal de que algo está a mudar drasticamente no topo das montanhas, mas que está longe de ser caso isolado.

Em dezembro, as máquinas foram ligadas na estância de esqui de Lench, na Escócia pela primeira vez. Perante a evidência de que não havia neve suficiente, decidiu-se fabricá-la. Um expediente já visto em muitas outras estâncias de esqui destinadas à alta competição, mas que nunca tinha acontecido nesta região da Escócia, o país mais frio do Reino Unido. Explicava na altura a BBC que a decisão de usar neve artificial resultou numa tentativa de fixar os atletas escoceses, para que estes não tivessem de procurar outros locais para treinar.

Mas as coisas não andam muito melhores na Europa Continental. No início de fevereiro, várias estâncias francesas tiveram de encerrar a pistas. Apesar das temperaturas extremamente baixas, não nevou. Em vez de neve, formaram-se nas montanhas perigosas camadas de gelo duro, que levaram as autoridades a fechar as pistas por vários dias. 

O diretor da estância de Saint-Lary-Soulan, nos Pirinéus revelava ao Telegraph as suas preocupações: "Já tivemos inverno problemáticos antes, mas desta vez não há neve, mesmo nos picos mais altos. É a primeira vez em 20 anos que alguém se lembra de um inverno tão mau, dizia. Jean-Claude Dupla.

Do outro lado do Atlântico, este inverno até foi bom para o esqui. Mas a CNBC revela que se trata de um ano de exceção, perante um cenário cada vez menos pintado de branco. O site cita um estudo do jornal científico Geophysical Research Letter que mostra que, nas regiões mais altas do Oeste americano, registou-se uma quebra de 41% na queda de neve desde o início dos anos 1980. O que significa que a época de esqui se reduziu em cerca de 34 dias.

Esquiar em t-shirt é cada vez mais normal

Meteorologistas, responsáveis por estâncias e atletas concordam no diagnóstico. As mudanças climáticas estão a tornar os invernos cada vez mais imprevesíveis, com menos neve e vagas de calor nos sítios mais inesperados.

Novas condições trazem novos hábitos, como explica à CNN Federica Brignone, medalhista olímpica italiana. "Quando viajo levo um saco maior. Nunca sei o que devo usar, Num dia ou dois, as temperaturas podem ir dos -25 aos 5 graus. É uma maluquice".

No mesmo artigo, a veterana esquiadora  Resi Stiegler, que viaja para glaciares há duas décadas, conta as surpresas que encontra, com cada vez mais frequência. "Não estavas à espera de descobrir calor há 20 anos. Agora estamos a esquiar de t-shirt".

Aos invernos com escassa neve, sucedem-se outros com neve a mais, o que obriga cada vez mais ao recurso aos canhões que produzem neve artificaial, para se garantir a qualidade necessária para esquiar. O que faz subir os custos e deixa os organizadores das grandes provas com cada vez menos certezas sobre aquilo como que podem contar. O esqui, desporto por excelência das elites, está a mudar em ritmo acelerado, acompanhando as transformações do clima.







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