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Correio da Manhã

Sociedade

Agricultores desesperam com seca

Relatos dramáticos de quem vive no Interior do País.
Alexandre Salgueiro, Ana Borges Pinto e António Lúcio 31 de Agosto de 2015 às 21:12
Rui Afonso está desde muito novo ligado à criação de cabras. O pastor da freguesia de Salvada, no concelho de Beja, já teve 400 animais, mas atualmente não chegam aos 270. É um dos muitos portugueses que têm o futuro dependente da chuva
Rui Afonso está desde muito novo ligado à criação de cabras. O pastor da freguesia de Salvada, no concelho de Beja, já teve 400 animais, mas atualmente não chegam aos 270. É um dos muitos portugueses que têm o futuro dependente da chuva FOTO: António Lúcio
Se não chover nos próximos dias, o mais certo é ter de vender gado para comprar ração para alimentar as restantes cabras." Rui Afonso, de 40 anos, é pastor em Salvada (Beja) e vive tempos de desespero. "Em março e abril, quando devia ter chovido bem, para os pastos ficarem mais fortes, não choveu, e o resultado é este: os animais não têm nada para roer", explica.

Em todo o País, nomeadamente no Interior, a terra está seca – quem tem gado está obrigado a comprar palha e ração para dar aos animais. Quem tem produção agrícola, vê os produtos a secar. Quase 80 por cento do território nacional está em situação de seca severa ou extrema.

"As pastagens estão completamente secas e os animais têm de ser alimentados com os fenos que estavam guardados para o inverno. A situação já é de calamidade, mas pode piorar ainda mais se não chover até outubro", alerta Luís Santos, produtor de leite no concelho do Fundão. A região da Beira Baixa é uma das mais afetadas pela falta de água – poços, charcas e barragens usados na agricultura estão nos valores mínimos.

Luís Santos cultiva, todos os anos, 30 hectares de sorgo para alimentar as 1200 cabras e ovelhas. Este ano só conseguiu cultivar um terço dessa área. "O que se gasta em energia para regar reduz drasticamente o lucro, o que faz com que estejamos a trabalhar apenas para sobreviver", refere.

Trás-os-Montes não foge à regra. "Todos os dias venho aqui ao terreno onde tenho 21 vacas e 17 vitelos. A falta de chuva secou as pastagens antes do tempo, tenho de trazer fardos. Já estou a ter prejuízo e se continuar sem chover, vai ser pior. Vou gastar cinco mil euros para repor os fardos para o inverno." O drama é relatado por Manuel Pinto, de 62 anos, agricultor da aldeia de Linhares, no concelho de Mogadouro. Além dos animais, também as árvores sofrem com a falta de água no solo. "Tenho umas oliveiras e a azeitona já está a cair. O azeite não vai sair grande coisa", lamenta.

Mário Pereira, presidente da Federação dos Agricultores de Trás-os-Montes e Alto Douro, alerta: "As oliveiras estão a secar e a produção da azeitona está comprometida."
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