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Correio da Manhã

Sociedade

7 mil oferecem ajuda a utentes

Todos os anos chegam às associações de voluntariado na saúde pessoas que querem ajudar os outros sem nada receber em troca. Mas o número actual (cerca de sete mil) continua longe do que seria ideal para colmatar as necessidades dos projectos existentes em todo o País.
10 de Outubro de 2010 às 00:30
7 mil oferecem ajuda a utentes
7 mil oferecem ajuda a utentes FOTO: direitos reservados

"Precisamos de mais gente. Pelo menos o dobro para satisfazer os utentes", refere Jacinto Morte, presidente da Liga dos Amigos do Hospital do Espírito Santo, Évora. Opinião partilhada pela responsável da Liga do Hospital de Beja. "Temos 35 pessoas, mas espero um dia chegar aos 60 voluntários. É o nosso sonho", refere Lizalete Pombeiro. Entre os voluntários portugueses destaca-se Maria de Lurdes, que aos 83 anos apoia como ninguém os utentes em Évora. "Quando estive internada fui muito acompanhada pelas voluntárias. Hoje dou aos doentes e utentes o que me deram a mim quando estive na mesma situação", frisa.

Num estudo realizado entre 2008 e 2009 para conhecer a realidade do voluntariado na saúde em Portugal, foram inquiridas 114 unidades. Apenas 50 por cento respondeu ao inquérito. Todas afirmaram ter organizações de voluntariado, com um total de 3447 pessoas associadas. "Se metade respondeu ao questionário, quer dizer que há em Portugal cerca de sete mil voluntários. Destes, segundo o estudo, 90 por cento pertencem a ligas e associações baseadas em organizações cívicas", explica ao CM João Pereira, presidente da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, fundada em 2007.

Em muitas unidades, são os voluntários que preenchem algumas das lacunas do Serviço Nacional de Saúde. Não prestam cuidados de enfermagem, mas dão o essencial ao doente para ultrapassar os momentos de sofrimento e solidão: atenção e carinho. "É sempre precisa uma mão amiga, alguém que saiba ouvir e que possa, com muito bom senso e amor, dar algo de si pelos outros", explica Lizalete Pombeiro. Mas para esta dirigente da Liga de Beja, fundada em 1999, o voluntariado na saúde obedece a regras. "É essencial ser uma pessoa idónea, com capacidade de encaixe e que saiba manter sigilo", diz.

Com mais cinco anos de existência que a congénere de Beja, a Liga dos Amigos de Évora conta com 60 voluntários. Aquando a sua fundação, recorda o presidente Jacinto Morte, não havia bar no hospital. "Como não traziam alimentos iniciámos a distribuição de lanches", conta. Depois, surgiram projectos de apoio de bens para as mães de recém-nascidos com dificuldades financeiras e apoio escolar a crianças internadas.

TRANSMITEM CONFIANÇA

Uma infecção pulmonar atirou Luís Trindade, de 41 anos, para uma cama do Hospital do Espírito Santo, em Évora. O contacto com as voluntárias foi imediato. "São muito simpáticas e atenciosas", diz ao CM. É após a refeição do almoço que recebe a visita dos amigos do hospital. "Conversam e transmitem-me palavras de incentivo e confiança. Isso é muito importante porque estamos aqui fechados e desmotivados", refere. Num ambiente em que alegria raramente existe, Luís frisa que "só elas conseguem transmitir felicidade".

AJUDA NAS REFEIÇÕES

Há um mês e meio foi transportada para a Urgência do Hospital de Évora devido a um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Ficou internada na Medicina 1. Na recuperação, Lúzia Barrinha, de 43 anos, tem contado com a companhia diária das voluntárias. Ajudam-na no almoço e jantar, dando-lhe a refeição e palavras de alento. "Conversam comigo e dão-me força para que consiga ultrapassar o meu problema de saúde", refere. Lúzia já estranha quando as voluntárias se ausentam. "Sabe bem ter alguém por perto a dar apoio", diz.

O MEU CASO: MARIA OLIVEIRA

"DÃO A VIDA POR NÓS"

Há meio século, Maria Odete Oliveira era um "poço" de energia. Enfermeira na Força Aérea, tornou-se na primeira pára-quedista portuguesa e andou pela Guerra Colonial. Mas na última década, desde que foi detectada arteriosclerose, a vida desta mulher, de 71 anos e natural de Abrantes, deu uma volta de 180 graus. "Há dez anos que vivo entre casa e o hospital", revela Maria Odete, que nas passagens pela unidade de Beja conta com a companhia do marido e das voluntárias da Liga dos Amigos do Hospital. "São a melhor coisa que existe", refere, acrescentando, que o apoio das voluntárias ajuda a esquecer a doença. "Dão--nos carinho. São até capazes de dar a vida pelos doentes", afirma. 

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